Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 22

Salaam
Aleikum
Era o tempo da paz romana
César distribuía circo e pão
Era o tempo de uma fé insana
O meio termo entre o sim e o não
Era o tempo de uma paz ibérica
Velejavam naus em profusão
Era o tempo da fé na América
E da fé no ouro que se manchou, então
Era o tempo de uma paz britânica
Disputavam-se libras de coração
Era o tempo de uma fé orgânica
Industrialmente feita em cada corpo são
É o tempo de uma pseudopaz
ianque
Na qual litigam a bíblia e o alcorão
É o tempo de uma fé estanque
Nas hemoglobinas sós de um sangue vão
Qual será o tempo
da paz de espírito
De partilha fraterna e de cooperação ?
O tempo utópico de um sonho lírico
Em que as pessoas possam ser quem são
Qual será o tempo
da paz sincera
De distribuição sem máscaras de idéias sãs
?
A esperança de uma nova era
O fim da conspiração das alegrias vãs
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Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 23

Nas
teias da corrupção
A fome de muitos enche a
mesa de poucos
Entre bolsos vazios, estão malas tão cheias
Da ganância que sempre corrói os loucos
E da corrupção, seus nós e suas teias
A miséria de muitos
é a mesada de poucos
Que se mistura a sangue, lágrimas e suor
E faz a esperança dar soluços sempre roucos
Enquanto dorme a utopia de um mundo bem melhor
Ser corrupto é querer
ter em hipertrofia
E cultivar ao máximo o egoísmo
E se encher de tudo o que esvazia
Ser corrupto é trocar
o meio pelo fim
E se mascarar com a face do cinismo
Entre as lúgubres teias que ligam o não ao sim
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Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 24

Ontologia
das emoções internas
Sou uma folha que
cai sem rumo
Levada pelos ventos intrépidos do outono
Não sei corro, se grito ou sumo
Acordando os anjos durante o sono
Sou um ínfimo floco de neve
Que cai em cada vão inverno
Anunciando uma tristeza leve
Aveludada de sofrimento interno
Sou uma pétala
que se esvai das flores
Mais introspectivas e insípidas da primavera
Essa estação que tanto enfeitiça as cores
Sussurrando música , sem ser sincera
Sou, enfim, uma
gota pesada de chuva
Que cai torrencialmente em qualquer verão
Desprotegida e frágil como mão sem luva
Em meio as indeléveis lágrimas que um dia vão
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Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 25

Dúvidas
no precipício
De que adianta querer ser
vorazmente perfeito
E se enquadrar em cada padrão repetido
E mostrar só qualidades, escondendo o defeito
De não sermos quem nós temos sido?
De que adianta ter sempre
mais e bastante
E ser vazio e se confundir com o lixo
Em meio ao caos do luxo triunfante
Como animal que não encontra seu nicho?
De que adianta supervalorizar
a carne e o osso
Se, no fim, o corpo tão altivo apodrece
Naufragando a alma no mais lúgubre posso
Enquanto o espírito pede, no futuro, uma prece?
De que adianta querer
trair a si mesmo
E se apaixonar loucamente pelo dinheiro e poder
Sem discernir pesadelos de qualquer sonho a esmo
E se olhar sempre no espelho sem se conhecer?
De que adianta consumir
tudo e todos
E ser consumido por um vácuo mental
Deste universo cheio de poeira e de lodos
Enquanto o bem fica brigando com o mal?
De que adianta, enfim, brincar
com as palavras
Sem concretizar qualquer sã mudança
Neste mundo que padece de doenças macabras
Neste mundo adulto que nem foi criança?
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Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 28

Vamos
reciclar!
Quando o assunto é meio ambiente
Aparecem mais de mil previsões:
- Terra tão quente.
- Água escassa.
- Fogo em clarões.
- Ar em fumaça.
- Oh, pobre mundo rico !
Mas há quem diga:
Não, minha gente,
Prudência ainda não
entrou em extinção.
É possível preservar
a natureza que é alvo
de desperdício e exploração.
Vamos reciclar a nossa mente
Tornar a nossa vida mais prudente
Vamos reciclar nossos valores
Pintar o mundo com novas cores
O que será de nós com ambiente
Cheio de contaminação ?
A espécie humana se condena
E se engana e se envenena
Depredando a própria habitação.
Nossos pais, que vida já tiveram ?
Nós mesmos, que vida nós temos ?
E nossos filhos, que vida terão ?
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Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 29

Questionário
metafísico
Mergulhaste nas aspirações
humanas
E se afogaste, pasmo, nos devaneios vis ?
Andavas, ao acaso, em ilusões tão planas
Que não viste o vento como o tempo quis ?
Procuraste a chave da felicidade
Ainda que a alegria não tivesse porta ?
Escondeste, um dia, tua própria idade
Entre a cruz tão viva e a luz tão morta ?
Torceste, frenético,
por teus ídolos imortais
Como se eles não fossem só de carne e osso ?
Ou, então, quiseste ser uma estrela a mais
A ser, um dia, despejada no buraco insosso ?
Como enfrentaste a escuridão
das horas
Em meio ao labirinto de teus sentimentos ?
Por acaso, compraste emoções e auroras
Nas promoções das lojas de departamentos ?
Perguntaste, um dia, por
que vieste ao mundo
E por que te condenaram à existência ?
Por que tu rias se, no âmago mais profundo,
Choravas, refém, por dentro da aparência ?
Por onde andavas, enquanto
teu espírito clamava
Por amor sublime e um sentido à vida ?
Ainda não tinhas enfrentado a tristeza brava
Que fulmina no sonho qualquer vã saída ?
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Antologia de Poetas
Brasileiros Contemporâneos - Vol. 30

Cronômetro
Um dia se perde
em meio às perdas das horas
Enquanto os minutos se dissipam com o vento
Enquanto os segundos correm, sem demoras
O mundo te rouba o sentido e o sentimento
Uma noite se perde
em meio às perdas das horas
Enquanto os minutos embotam teus sonhos
Enquanto os segundos blasfemam, tu choras
Correndo sempre de ponteiros medonhos
Ah, se tua alma,
ao menos, cronometrasse
O tempo perdido em cada insano deleite
E o tempo sofrido em cada hora de impasse
Teu destino não seria este frívolo enfeite
E se teu coração,
ao menos, cronometrasse
Os minutos de dor em cada amor sem resposta
E os minutos, sem cor, de cada sonho que nasce
Talvez não perdesses a vida na mais vã aposta
E teu espírito,
de fato, não esperou que o tempo
Voasse, tão célere, em busca de um fim
Que acalmasse apenas os furacões de momento
Furacões que entristecem tua mente, assim
Tampouco tinhas
alguma vaga noção
Que, um dia, o tempo te transformasse em mim
Revelando emoções, assim, como são
Os menores trechos da alma onde começam teu fim
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Livro de Ouro da
Poesia Brasileira Contemporânea - Edição 2006

Pacta sunt
servanda
Todos contratam com a vida pelo menos um dia
Um dia de paz, um dia de glória
Uma casa no sítio, uma alegria simplória
Ou, até mesmo, uma emoção vazia
Todos contratam com a vida pelo menos um sonho
Uns querem amor, outros querem poder
Há os que pretendem fugir de um mundo medonho
Há os que se perdem no labirinto do ter
Porém a vida oferece apenas contratos de adesão
Não se discutem cláusulas de rancor nem de fé
E até o último respiro ou batida no coração
A vida, credora vã, exigirá prestações quaisquer
Ao nascer, cada qual assina do óbito o atestado
Sem saber assinar, sem nem saber que assinou
Um contrato com a própria vida pedindo adiantado
Algum momento alegre, dias repletos de amor
Sim, a vida permite sorrir, correr, chorar
Ver as estrelas do céu, as ondas do mar
O colorido intenso de um escarcéu de flores
O azul imenso e intrínseco aos sutis amores
Em compensação, a vida avença e
exige tudo
Sem qualquer paciência com os inadimplentes
Faz penhor dos risos vãos, hipoteca dos dementes
Cobra letras e palavras de cada sentimento mudo
Assim, o dia chega em que a vida cobra com juros
Todas as parcelas vencidas e vincendas de apuros
Mais o montante de risos e sentimentos sortidos
A fim de que todas as dívidas se liquidem
A fim de que os pactos sejam mantidos
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Antologia Poética
"Os Donos da Vida" - Edição 2006

O velho
destino dos anjos
Na vida, entre altos e baixos, eu caí
Tentando achar um caminho reto e sem fim
De mil maneiras e formas, eu vivi
Negando o que ventos e fatos trouxeram pra mim
Agora não dá mais pra voltar atrás
Sem seguir...
O velho destino dos anjos
De amar e morrer por amor
O velho destino dos anjos
De concretizar um sonho
Que ninguém jamais realizou
Na vida, entre a cruz e a espada. eu chorei
Querendo tudo o que nada pôde oferecer
Tentando acertar com sucesso, eu errei
E de nada mais adianta viver sem você
Agora, não dá mais pra viver em paz sem
seguir...
O velho destino dos anjos
De amar e morrer por amor
O velho destino dos anjos
De concretizar um sonho
Que ninguém jamais realizou
Mas que velho destino é este?
De amar e morrer por amor
Confiando sempre em que neste
Tempo há suficiente dor
Acredito que a chama da paz
Possa sempre trazer calor
Da mesma forma que sonhos tão puros
Podem transformar quem eu sou.
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Antologia
"Os mais belos Poemas de Amor" - Edição 2006

Bálsamo
Seus olhos seus imensos oceanos
E neles quero sempre navegar
Já venho traçando tantos planos
Pois sei que o amor é como o mar
Um mar das maiores incertezas
Um mar das melhores ilusões
Lídima pérola entre as riquezas
Bálsamo aquecido nos vulcões
Seus olhos são céus
em polvorosa
E neles como pássaro voarei
Buscando sonhar em verso e prosa
Pois sei que o amor é como um rei
Um rei que nunca perde o
trono
Um rei que domina sem cessar
Indelével bálsamo sem dono
Enigma flutuando sobre o mar
E sempre que paro um pouco e penso
Em um motivo pra todo dia acordar
Só vejo o amor num céu imenso
Ainda que eu não saiba onde ele está
Pois mergulhando
nos seus olhos perco o senso
Como se alma, enfim, vagasse em seu luar
E se o amor for mesmo mar de azul intenso
Não me socorra, por favor, deixe-me afogar.
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Antologia de Poetas
Brasileiros Contemporâneos - Vol. 31

A
fortiori
Leio no ardor de teu semblante
Expressões intensas de amor retido
E com mais razão, em todo instante,
Vejo em teus olhos um paraíso proibido
De tantas coisas simples e tão belas
Que nem sei contá-las ou descrevê-las
Usando letras trêmulas e tão singelas
Das palavras transfiguradas em estrelas
Que rasgam céus, pulam janelas
E dançam, incautas, ao som dos tempos...
Meu amor,
eu nem sequer conheço
Um terço de todo o espaço do coração
Mas sei dizer as coisas que não têm preço
Sei voar nos ventos que sempre vão
Levando esperança de sul a norte
Como se fosse possível dizer, então
Que no interregno entre vida e morte
Sempre existe sorte plantada em chão
Dos sonhos que o tempo rega
Sem quaisquer dolos de colisão
Com princípios que o destino nega
No vago termo entre o sim e o não...
Sim, meu
amor, talvez eu nem conheça
A sombra avessa da solidão
E com mais razão, quiçá eu não mereça
Nem um átimo de tua atenção
Mas lendo em teus lábios esta enxurrada
De vagos versos em profusão
Sinto-me, assim, um tanto condenada
A decifrar em meu coração
Um mapa cujos trechos levem
A encontrar uma mina de verdadeiro ardor
Na qual todos os versos bebem
Em cálices de sonhos o melhor licor
Pois, no fim de tudo, o que vale a pena
Nesta vida, às vezes, já tão sem cor
É o êxtase de cada emoção amena
E com mais razão, o mais sublime amor.