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Inteligência, por consenso científico

Modernamente, existem duas definições de inteligência, reconhecidas por consenso no meio acadêmico. A primeira, assinada por 52 cientistas, em 1994:
"Uma capacidade mental bastante geral que, entre outras coisas, envolve a habilidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de forma abstrata, compreender idéias complexas, aprender rápido e aprender com a experiência. Não é uma mera aprendizagem literária, uma habilidade estritamente acadêmica ou um talento para sair-se bem em provas. Ao contrário disso, o conceito refere-se a uma capacidade mais ampla e mais profunda de compreensão do mundo à sua volta - 'pegar no ar', 'pegar' o sentido das coisas ou 'perceber'"
A segunda, resultou do relatório de uma força-tarefa da Associação Americana de Psicologia em 1995:
"Os indivíduos diferem-se na habilidade de entender idéias complexas, de se adaptar com eficácia ao ambiente, de aprender com a experiência, de se engajar nas várias formas de raciocínio, de superar obstáculos mediante pensamento. Embora tais diferenças individuais possam ser substanciais, nunca são completamente consistentes: o desempenho intelectual de uma dada pessoa vai variar em ocasiões distintas, em domínios distintos, a se julgar por critérios distintos. Os conceitos de 'inteligência' são tentativas de aclarar e organizar este conjunto complexo de fenômenos."
As pesquisas mais recentes da Neuropsicologia sugerem que as habilidades cognitivas são bem mais diferenciadas e mais específicas do que se acreditava. Neurologistas têm documentado que o sistema nervoso humano não é um órgão com propósito único nem tão pouco é infinitamente plástico. Acredita-se, hoje, que o sistema nervoso seja altamente diferenciado e que diferentes centros neurais processem diferentes tipos de informação.
Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard, baseou-se nestas pesquisas para questionar a tradicional visão da inteligência, uma visão que enfatiza as habilidades lingüística e lógico-matemática. Segundo Gardner, todos os indivíduos normais são capazes de uma atuação em pelo menos sete diferentes e, até certo ponto, independentes áreas intelectuais.
Ele sugere que não existem habilidades gerais, duvida da possibilidade de se medir a inteligência através de testes de papel e lápis e dá grande importância a diferentes atuações valorizadas em culturas diversas. Finalmente, ele define inteligência como a habilidade para resolver problemas ou criar produtos que sejam significativos em um ou mais ambientes culturais.

A teoria das Inteligências Múltiplas

A Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner é uma alternativa para o conceito de inteligência como uma capacidade inata, geral e única, que permite aos indivíduos uma performance, maior ou menor, em qualquer área de atuação.
A insatisfação com a idéia de QI e com visões unitárias de inteligência, que focalizam sobretudo as habilidades importantes para o sucesso escolar, levou Howard Gardner a redefinir inteligência à luz das origens biológicas da habilidade para resolver problemas.
Através da avaliação das atuações de diferentes profissionais em diversas culturas, e do repertório de habilidades dos seres humanos na busca de soluções, culturalmente apropriadas, para os seus problemas, ele trabalhou no sentido inverso ao desenvolvimento, retroagindo para eventualmente chegar às inteligências que deram origem a tais realizações. Na sua pesquisa, Gardner estudou também:
a) o desenvolvimento de diferentes habilidades em crianças normais e nas superdotadas;
b) adultos com lesões cerebrais e como estes não perdem a intensidade de sua produção intelectual, mas sim uma ou algumas habilidades, sem que outras habilidades sejam sequer atingidas;
c) populações ditas excepcionais, tais como os autistas, que apresentam ausências nas suas habilidades intelectuais;
d) como se deu o desenvolvimento cognitivo dos homens através dos milênios.
Psicólogo construtivista, influenciado por Piaget, Gardner distingue-se de seu colega de Genebra na medida em que Piaget acreditava que todos os aspectos da simbolização partem de uma mesma função semiótica, enquanto que ele acredita que processos psicológicos independentes são empregados quando o indivíduo lida com símbolos lingüísticos, numéricos gestuais ou outros.
Segundo Gardner uma criança pode ter um desempenho precoce em uma área (o que Piaget chamaria de pensamento formal) e estar na média ou mesmo abaixo da média em outra (o equivalente, por exemplo, ao estágio sensório-motor). Gardner descreve o desenvolvimento cognitivo como uma capacidade cada vez maior de entender e expressar significado em vários sistemas simbólicos utilizados num contexto cultural, e sugere que não há uma ligação necessária entre a capacidade ou estágio de desenvolvimento em uma área de desempenho e capacidades ou estágios em outras áreas ou domínios.Num plano de análise psicológico, afirma Gardner, cada área ou domínio tem seu sistema simbólico próprio; num plano sociológico de estudo, cada domínio se caracteriza pelo desenvolvimento de competências valorizadas em culturas específicas.
Gardner sugere, ainda, que as habilidades humanas não são organizadas de forma horizontal; ele propõe que se pense nessas habilidades como organizadas verticalmente, e que, ao invés de haver uma faculdade mental geral, como a memória, talvez existam formas independentes de percepção, memória e aprendizado, em cada área ou domínio, com possíveis semelhanças entre as áreas, mas não necessariamente uma relação direta.
É possível sintetizar o conceito de inteligência formulado por Howard Gardner segundo duas principais características, as quais possuem referência nas abordagens psicométrica, piagetiana e neuropsicológica.
A primeira seria o suposto de uma inteligência que se constitui a partir de uma dupla perspectiva: por um lado, como um atributo “potencial”, que preexiste às experiências do sujeito, o qual herda um determinado perfil intelectual, variável de um indivíduo para outro em função das possibilidades de recombinações genéticas, e, por outro, o caráter fluido, moldável da inteligência segundo as influências que o meio sócio-cultural exerce sobre o sujeito. Outra característica seria a multiplicidade de “inteligências”, que reflete a diversidade de habilidades descritas nas várias abordagens psicobiológicas da cognição.
São duas as características considerada como determinantes da inteligência: uma herdada, natural e outra adquirida pela “influência” do meio. Esses fatores remetem a uma discussão no campo da Psicologia do desenvolvimento acerca da tensão entre “fatores internos” e “externos” do desenvolvimento.
Sobre essa relação entre herdado e adquirido na constituição da inteligência, Gardner afirma que é possível obter alguns indícios biológicos sobre os “tipos naturais” da inteligência, sendo que o mais poderoso deles viria da neurobiologia. Mas, segundo o autor, não se pode excluir a cultura, pois ela influencia cada indivíduo na maneira como os potenciais intelectuais evoluem a partir do primeiro. Os “tipos naturais” da inteligência descritos por Gardner (1994) seriam os perfis de inteligências com os quais cada indivíduo nasce, produtos de recombinações genéticas.
Em relação às modificações cerebrais feitas pelo ambiente, Gardner afirma que, nos anos iniciais, o cérebro possui um excesso de conexões que vão resistindo enquanto outras se atrofiam. Esse processo ocorre, segundo o autor, em função de “vantagens adaptativas”. Nos primeiros anos, se o sujeito sofre algum dano, pode repor em outras conexões. Nesse sentido, o funcionamento da inteligência, identificado co o funcionamento cerebral, sofreria uma influência do meio em suas estruturas, transformando-as segundo uma organização orientada para adaptar o sujeito às exigências culturais. A sociedade “moldaria” as inteligências, ou seus “tipos naturais”, de maneira absolutamente individual, pois o perfil já teria sido definido previamente.
Em suas pesquisas, Gardner buscou alguma forma de síntese entre as dimensões biológica e cultural da inteligência. Na verdade, ele parece ter priorizado a dimensão biológica como constitutiva do aparato cognitivo, ao delegar à cultura um papel externo, “influenciando” o desenvolvimento do potencial biológico. Está em questão, quando essas concepções são discutidas, a relação entre biológico e social, entre o que o sujeito traz consigo como produto das infinitas possibilidades de recombinações genéticas e os aspectos sócio-culturais que “moldariam” esses caracteres herdados de forma a torna-lo um indivíduo distinto de todos os outros.
Gardner procurou manter a relação entre indivíduo e sociedade, indivíduo e cultura, que com o propósito de contemplar tanto aspectos internos quanto externos, nos remete às concepções anteriormente revistas, cuja compreensão do papel do meio social na constituição da inteligência foi relegado a mera influência, como se o sujeito viesse ao mundo “naturalmente” e, aos poucos, fosse influenciado no seu processo de desenvolvimento por essas relações.
Não há oposição entre mundo da natureza e mundo social. O processo de desenvolvimento não se realiza à parte dos processos naturais, biológicos.
A constituição do homem enquanto ser genérico é um processo contínuo e contraditório, que contém rupturas e continuidades, o que faz com que o sujeito adquira algumas características que o identificam e outras que o tornam diferente de outras pessoas e de si mesmo, isto é, daquela maneira de ser que caracterizava o sujeito e, no processo de desenvolvimento, se transformou.
Segundo Gardner, o que legitima sua teoria é justamente o fato de se sustentar em uma revisão bibliográfica do conhecimento produzido sobre a inteligência, reforçado pela ênfase em habilidades separadas. As evidências de convergência entre as diferentes fontes convencem o autor, com base na cientificidade das abordagens referidas, que a inteligência pode ser conceituada como sendo múltipla.
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