Inteligências múltiplas
Por falar em inteligência...
Leia com atenção e tente resolver este “mistério” da Matemática:
Três jovens, viajando pelas cidades históricas de Minas Gerais, resolvem pernoitar numa pousada simples em Ouro Preto. O gerente da pousada cobra R$10,00 de cada um, sem direito ao café da manhã. Os jovens pagam, então, R$30,00 e vão para o quarto.
Alguns minutos depois, quando já estavam alojados, o gerente, penalizado com “dureza” dos rapazes, resolve dar um desconto de R$5,00. Chama a camareira e diz:
— Vá ao quarto 302 e devolva estes R$5,00 aos rapazes. Diga que é um desconto especial que o gerente está concedendo.
A camareira resolve, então, embolsar R$2,00 a título de “gorjeta antecipada” e devolve somente R$3,00 aos jovens, que dividem entre si: R$1,00 para cada um.
Pois é aqui que começa o nosso problema:
Ora, cada jovem havia pago R$10,00 e recebeu de volta R$1,00. Logo, cada um pagou, de fato, R$9,00, perfazendo um total de R$27,00. Como a camareira ficou com R$2,00, foram envolvidos na transação R$29,00 (R$27,00 da hospedagem e R$2,00 da gorjeta). Correto? Mas... está faltando R$1,00... Eles pagaram R$30,00 ao gerente!!! Explique isso!!!
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Bem, mesmo que você não tenha conseguido resolver este problema, não precisa ficar preocupado, afinal, talvez a inteligência lógico-matemática não seja o seu forte, como não era em Chopin, Nijinski, Gandhi, Victor Hugo etc. E nem por isso essas pessoas deixaram de ser brilhantes, verdadeiros referenciais da genialidade humana.
É que o conceito de inteligência mudou muito nos últimos anos. E é exatamente isso que nós vamos ver a seguir.
Mas, afinal, o que é inteligência?
“O intelecto anula o destino. Quem raciocina, é livre.”
Emerson
Inteligência (do latim intelligentia) é a capacidade mental de aprender, apreender, compreender, raciocinar, planejar, resolver problemas e abstrair idéias. As pessoas leigas, de um modo geral, costumam atribuir uma extensão maior para o conceito de inteligência, relacionando-a também à criatividade, personalidade, caráter ou sabedoria. Modernamente, entretanto, sabemos que estes outros atributos, próprios dos homens, não significam inteligência em si.
A inteligência como objeto de estudo da Psicologia surgiu no final do século XIX com as pesquisas da psicometria, que “media” diferenças individuais através de testes que quantificavam as aptidões.
Os primeiros testes de inteligência são atribuídos a Alfred Binet, em 1905, embora Francis Galton, em 1896, já propusesse a medida da variação na capacidade mental humana apoiando-se nos conhecimentos da Fisiologia e da Estatística., que lhe rendeu a descoberta da correlação, método da análise fatorial que auxiliaria as técnicas contemporâneas de validação dos testes psicológicos.
Alfred Binet
No início do século XX, as autoridades francesas solicitaram a Alfredo Binet(*) que criasse um instrumento pelo qual se pudesse prever quais as crianças que teriam sucesso nos liceus parisienses.
O instrumento criado por Binet testava a habilidade das crianças nas áreas verbal e lógica, já que os currículos acadêmicos dos liceus franceses enfatizavam, sobretudo o desenvolvimento da linguagem e da matemática.
Este instrumento deu origem ao primeiro teste de inteligência, desenvolvido por Terman, na Universidade de Standford, na Califórnia: o Standford-Binet Intelligence Scale.
(*) Alfred Binet (1857/1911), teve importante papel no desenvolvimento da psicologia experimental na França e deu uma contribuição fundamental à avaliação da inteligência através de testes desenhados para esse fim. Em 1878 abandonou uma projetada carreira em Direito para dedicar-se à Medicina. Seu primeiro interesse foi a experimentação com métodos de associação de idéias (associativismo), objeto de seu livro "A Psicologia do raciocínio".
Binet passou a trabalhar no laboratório de pesquisa da Sorbonne em 1891 e foi seu diretor de 1895 a 1911. A partir de então procurou desenvolver testes de avaliação da inteligência e habilidades do indivíduo. Criando com grande engenhosidade procedimentos simples que podiam ser aplicados a estudantes nas escolas primárias, desenvolveu testes que utilizavam não mais que papel e lápis, figuras e objetos portáteis. Em 1903 publicou L'ttude experimentale de l'intelligence, com base na observação das características mentais de suas duas filhas.
O uso que fez de pinturas, manchas de tinta, e outros recursos visuais levaram, mais tarde, ao desenvolvimento dos testes projetivos, nos quais as conclusões são tiradas da interpretação que a pessoa faz do material visual apresentado.
Continuando...
Cabe-se ressaltar, também, que, no século XIX, a Fisiologia estava envolvida pelo darwinismo. Todas áreas da Biologia que se referiam diretamente ao homem estavam vinculadas ao conceito de “evolução”. As noções de degenerescência, atraso mental, resistência psicofísica se relacionavam à idéia de incapacidade de adaptação na luta pela vida. Essa concepção se apresentava sob a forma de racismo, sendo essencial para uma ideologia burguesa igualitária, deslocando a responsabilidade pelas desigualdades do âmbito social para o individual. Nesse sentido, as vinculações entre Biologia e Ideologia eram evidentes, principalmente na relação entre “eugenia” e “genética”.
Nota: A eugenia (do grego eugéneia – ciência que estuda as condições mais propícias à reprodução e melhoramento da raça humana) mais que ciência foi um movimento político da classe média e da burguesia européia, e que consistia num programa para a aplicação do cruzamento seletivo aos seres humanos, com o objetivo de melhorar condições genéticas da espécie, o que traria, na visão dos eugenistas, progresso social mediante o aprimoramento natural. O surgimento da Genética tornou a eugenia científica, nos moldes da ciência positivista (Augusto Comte), que privilegiava a hereditariedade na determinação das características humanas, desconsiderando as influências ambientais, educação etc. A partir desses referenciais, passou-se a entender que as variações de capacidade intelectual nos indivíduos seguiam as mesmas regras das variações físicas, sendo a hereditariedade o fator limitante, pois todos os indivíduos possuíam as mesmas oportunidades de experimentar essas capacidades. Hoje estes conceitos estão praticamente banidos do pensamento científico.
Os testes de inteligência tiveram enorme influência, durante o século XIX, sobre a idéia que se tem de inteligência, embora o próprio Binet tenha declarado que um único número, derivado da performance de uma criança em um teste, não poderia retratar uma questão tão complexa quanto à inteligência humana.
Alguns dos maiores gênios da humanidade, se submetidos a estes testes, fatalmente fracassariam.
Ainda sobre os testes de QI
Originalmente, o que Binet e seu colega Pierre Simon criaram, foi um teste bastante engenhoso para a identificação de crianças com retardamento intelectual e que, no futuro, teriam dificuldades na escola.
A idéia deles foi a de caracterizar o processo de desenvolvimento da inteligência em função dos problemas lógicos que a maioria das crianças seria ou não capaz de resolver numa determinada idade, estabelecendo uma seqüência de tarefas com dificuldade crescente, desde as muito fáceis, que mesmo crianças muito jovens poderiam realizar, até as muito difíceis, que apenas adultos poderiam resolver.
Com base em sua seqüência de tarefas, eles produziram o conceito da Idade Mental de um indivíduo (criança) como sendo a idade em que a maioria das crianças poderia resolver a tarefa mais complexa que o indivíduo sendo avaliado era capaz de resolver. Assim, se um menino ou menina pudesse chegar a resolver somente até as tarefas que se esperaria que um sujeito de 10 anos de idade pudesse resolver, a Idade Mental desse menino ou menina seria de 10 anos, independente da idade real da criança (chamada de Idade Cronológica).
A partir do conceito de Idade Mental, foi criado o conceito de Quociente de Inteligência, definido como sendo a razão entre a Idade Mental e a Idade Cronológica, multiplicando-se o resultado por 100 para evitar o uso do ponto decimal.
Assim, uma criança com Idade Mental de 12 anos e Idade Cronológica de 10 anos teria um Quociente de Inteligência de 120, enquanto que uma criança com a mesma Idade Mental mas Idade Cronológica de 12 anos teria um Quociente de Inteligência de 100 e outra com Idade Cronológica de 16 anos teria um Quociente de Inteligência de apenas 75.
O Quociente de Inteligência tornou-se assim um prático indicador (quantitativo) da precocidade ou retardamento de uma criança em relação à sua idade. Aquelas com Quociente ao redor de 100 estariam dentro do desenvolvimento normal, aquelas acima de 100 seriam precoces e as abaixo de 100 seriam retardadas, com o valor específico fornecendo uma medida da maior ou menor defasagem entre idade e intelecto.
De “Quociente de Inteligência” a “QI”
Passado algum tempo, o Quociente de Inteligência foi levado aos EUA, onde foi melhorado, através mecanismos estatísticos mais sofisticados, para situar mais claramente os indivíduos quanto a sua maior ou menor diferença em relação à média das pessoas do seu mesmo grupo etário.
Essencialmente, definiu-se que, como na escala francesa original, a média de acertos da população seria considerada como equivalendo a 100, porém, que os acertos um desvio padrão acima ou abaixo disso seriam considerados como tendo um valor respectivamente 16 pontos acima ou baixo de 100, ou seja, 116 ou 84 conforme o caso. O objetivo do uso desses valores específicos foi o de estabelecer um certo grau de equivalência numérica entre a escala nova e a antiga.
Para se estabelecer uma diferença entre a escala de Binet e as escalas subseqüentes, foi definido que a primeira seria denominada de "Quociente de Inteligência", enquanto que as seguintes seriam designadas pela abreviação "QI".
A primeira escala de QI foi a revisão da Universidade de Stanford da escala original de Binet, revisão esta denominada de escala Stanford-Binet. Posteriormente, surgiram vários outros testes do mesmo gênero, cada um com suas variações específicas, inclusive com variações nos valores da média e do desvio padrão, mas todos dentro do mesmo paradigma básico de comparação estatística entre o indivíduo e a população da mesma idade. Houve também a ampliação do espectro de aplicação do teste para incluir também a avaliação de indivíduos adultos.
Durante várias décadas do século XX, o QI foi considerado como sendo a perfeita medida da inteligência humana, abrangendo a totalidade do potencial intelectual de um indivíduo. De fato, inúmeros estudos apontaram, na época, para uma clara relação entre o nível de QI e o sucesso acadêmico e profissional. Como conseqüência, disseminou-se rapidamente o seu emprego nas escolas, universidades, instituições governamentais e empresas privadas, particularmente nos EUA, sendo o teste usado tanto para acompanhamento quanto para seleção.
Entretanto, a partir do final dos anos 70, diversos pesquisadores começaram a apontar várias falhas ou lacunas dos testes de QI em termos da sua capacidade de abranger a totalidade das faculdades intelectuais de um ser humano nos diversos contextos e situações, bem como as limitações do seu potencial em termos de prever o futuro sucesso pessoal e profissional. Como conseqüência, o significado dos chamados testes de inteligência foi reavaliado, com os mesmos sendo considerados atualmente uma medida de um conjunto específico de habilidades mentais (o raciocínio lingüístico e lógico-matemático) num determinado contexto (o conhecimento acadêmico e formal), e não mais como um reflexo de uma capacidade mental global.
Alcances e Limitações do QI
O teste de QI constitui uma das medidas psicológicas mais estáveis e confiáveis de que se tem notícia, havendo uma farta literatura sobre sua prevalência nos diversos segmentos da população e sobre a sua relação com diversos fatores de interesse. Apesar de não representar aquela medida da capacidade intelectual geral que se acreditava até os meados do século XX, trata-se de um instrumento de valor imprescindível quando se trata de algumas habilidades mentais envolvidas no desempenho escolar e/ou na manipulação do conhecimento formal.
O importante para se saber como fazer um bom uso da informação fornecida por um QI é ter uma noção clara do que pode ou não ser inferido a partir dele, o que é apresentado de forma resumida no quadro a seguir.
FATORES QUE PODEM OU NÃO SER MEDIDOS
PELOS TESTES DE QI
O QI mede bem:
Habilidade lingüística;
Raciocínio lógico-matemático;
Pensamento analítico;
Capacidade de abstração;
Erudição.
O QI não mede bem:
Senso-comum e conhecimento informal;
Intuição e bom-senso;
Criatividade e originalidade;
Liderança e sociabilidade;
Aptidão artística;
Capacidade musical;
Habilidade corporal e atlética;
Moral e ética;
Motivação;
Controle emocional.
Essencialmente, o QI mede tudo aquilo que lida com uma lógica formal aplicada ao conhecimento num contexto escolar típico de sociedades ocidentais metropolitanas. Isso inclui os requisitos intelectuais para atividades como a pesquisa científica, o trabalho acadêmico, lidar com a alta tecnologia, realizar cálculos e estimativas, escrever ensaios e artigos, realizar palestras, fazer avaliações e auditorias, etc.. Naturalmente, não estão incluídos os fatores motivacionais, emocionais e ambientais necessários para o sucesso em qualquer atividade, tampouco os requisitos intelectuais associados a empreendimentos em contextos culturais diferentes do mencionado acima.
Interpretação do QI
O valor de um determinado nível de QI costuma ser interpretado se ele se encontra acima, ao redor, ou abaixo da média, além da prevalência na população em geral de pessoas que apresentam tal nível de QI. Com base nisso, a tabela a seguir mostra uma classificação geral bastante prática.
Classificação proposta por Lewis Terman:
QI acima de 140: Genialidade
120 - 140: Inteligência muito acima da média
110 - 120: Inteligência acima da média
90 - 110: Inteligência normal (ou média)
80 - 90: Embotamento
70 - 80: Limítrofe
50 - 70: Cretino
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No final do século XX, dentre as novas concepções de inteligência, o modelo da teoria das inteligências múltiplas, isto é, a noção de que a inteligência não é mais compreendida como um atributo geral, mas como aptidões específicas que se manifestam em habilidades no desempenho de tarefas, tem se fortalecido como paradigma explicativo da inteligência. A noção de múltiplas aptidões tem se mostrado como uma explicação fortemente disseminada entre os educadores, originando estudos e orientando práticas, tanto no Brasil como em outros países do mundo.
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