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Maria
Thereza Moreira Pereira
Sorocaba
/ SP
Que
barbaridade!
Desde quando podia lembrar-se, Bárbie ouvia sua Mãe falar
do carro que ia comprar com o dinheiro que estava guardando na poupança.
De parcos recursos, espremia todo o mês o minguado orçamento
doméstico para guardar uma parcela do valor do carro que queria
comprar e que era o seu único sonho de consumo.
Mas, nunca conseguia juntar o necessário porque sempre surgiam
necessidades inadiáveis ou o filho pedia “emprestado”.
E lá se iam o seu sonho e o seu rico dinheirinho. . .
Isto é, o dinheiro, sim, mas o sonho, não! Nada nem ninguém
podiam impedi-la de continuar sonhando.
Um dia, porém a sorte bafejou-a. Comprou um bilhete de rifa de
um carro e foi contemplada!
Nem podia acreditar em tanta sorte! Um carrinho lindo! Novinho em folha!
0 km!
Imediatamente pensou em aprender a dirigir.
Barbie ponderou:
- Você não está mais na idade de aprender a dirigir.
Deixe que a gente dirige e você viaja de madame.
- Imagine! Não estou na idade de dirigir! Tem tanta gente mais
velha do que eu dirigindo.
- Mas são pessoas que sempre dirigiram. Já têm prática.
Começar depois de uma certa idade é complicado.
Bárbara não deu ouvidos a filha. Nunca permitira que ninguém
dissesse o que devia e o que não devia fazer. Não obedecera
ao pai severo nem o marido autoritário, imagine se ia dar importância
à opinião de uma “criança” feito a Barbie.
No dia seguinte mesmo procurou por uma Auto Escola e começou as
aulas.
A parte teórica foi muito bem. Decorou o livrinho com uma rapidez
de fazer inveja a muito adolescente por ai.
Quando começaram as aulas práticas, porém, a coisa
mudou de figura.
Sentada pela primeira vez à direção, ficou meio assustada.
Nunca tinha reparado quantos pedais, botões e alavancas tinha um
carro.
O instrutor, partindo da premissa de que ela já devia ter algum
conhecimento, começou a falar de coisas que ela não tinha
a mínima noção do que seria. Coisas como acelerador,
freio, embreagem e marchas.
- Perai, moço! Começa do começo que eu não
estou entendendo nada.
O rapaz, pacientemente, mostrou todos os comandos explicando minuciosamente
a utilidade de cada um.
Assim, nessa primeira aula ela não tirou o carro do lugar, mas,
ficou muito animada com o seu aprendizado.
Como dedicado aluno que se prepara para um vestibular difícil,
ela não pensava em outra coisa o tempo todo querendo memorizar
o que aprendera.
“São três pedais. Um é acelerador, outro freio
e o outro... não me lembro, mas o acelerador é para andar
e o freio para parar. Acho que isto é o que interessa, o resto
é frescura. Ele me falou de um negócio de primeira, segunda
e terceira, mas não sei pra que serve isso... não deve ser
nada muito importante.”
Nas próximas aulas, pouco a pouco ela foi entendendo como funciona
um carro, familiarizando-se com seus comandos e chegou o dia em que conseguiu
dirigi-lo sofrivelmente. Mais um pouco de prática e poderia fazer
o exame de trânsito para receber a ambicionada carteira e mostrar
à Barbie do que era capaz!
Até então, só andara ao lado do instrutor, mas, naquela
tarde, resolveu fazer uma proeza, sair sozinha com o carro., pois, já
estava enjoada daquele sujeitinho o tempo todo ao seu lado dando palpites.
Saiu bem da garagem e foi andando pela rua. Sentia-se livre, solta e feliz.
Poderosa no domínio daquela máquina maravilhosa que obedecia
todo seu comando.
Mas, ao tentar virar uma esquina, uma bicicleta atrapalhou, ela subiu
na calçada e, assustada, perdeu completamente o controle do veículo
entrando em uma vitrine, atropelando manequins e provocando sobre o carro
uma chuva de vidro quebrados. Perdeu os sentidos, ouvindo os gritos assustados
dos que se encontravam por perto e presenciaram a cena.
Barbie chegou assustada no hospital onde a Mãe estava em observação,
mas ao ver que ela tivera apenas leves escoriações e já
estava pronta para voltar para casa, que sua travessura não tivera
piores conseqüências, entre aliviada e furiosa investiu:
- Viu o que você fez? Eu não disse que você não
ia conseguir dirigir?
- Foi um acidente! Acidentes podem acontecer com qualquer um!
- Não sei como pode estar tão calma. Você podia ter
se machucado muito! Podia ter matado alguém! Podia até ir
parar na cadeia!
- Ora, não faça drama! Não aconteceu nada disso!
Foram só danos materiais e isso a gente pode pagar.
- Pagar como? Você não tem dinheiro! Vai ter que vender o
carro para pagar o estrago que você fez na loja.
- E o que é que tem isso? Eu vendo o carro e pago o que devo. Depois
começo a guardar dinheiro de novo para comprar outro.
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