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Cristiane
d´Eça
Salvador
/ BA
A
essência do feminino
Passeava
pelo shopping, atordoada, sem saber o que procurava, resolveu entrar numa
livraria e manusear algumas revistas e livros, como se estivesse buscando
uma resposta para sua ansiedade.
De repente, alguém passou rápido e tombou em suas costas
e Ana agressivamente olhou para trás para ver quem ousou acordá
– la de inúmeras perguntas e preocupações que
até então não havia respostas.
- Desculpe! – disse o rapaz de olhar envergonhado como se fizera
de propósito.
Ana não respondeu e enfezadamente, virou seu rosto e começou
a folhear as páginas de uma revista que não sabia nem o
nome. Aliás, não era ligada muito em nomes, marcas ou coisa
parecida. Mas estava ali e queria encontrar alguma coisa que chamasse
a sua atenção feminina. Afinal, tinha a sensação
de buscar algo que lhe completasse.
Começou a observar todas as revistas e títulos da capa e
uma impressão lhe veio forte, imagens prontas de fotografias de
mulheres e de homens representando a moda que a sociedade determinava.
Detalhe por detalhe, percebeu que as mulheres possuíam o mesmo
perfil de olhar que para ela não era sensual, o corpo aparentemente
viril de um homem másculo com cara de anjo bem típico dos
sonhos femininos de volúpia que as revistas há séculos
vendiam como pão de padaria. As mesmas expressões, o mesmo
olhar em ambos os sexos e se perguntou: “onde havia desejo naquilo”,
“que tipo de mulher as pessoas queriam, já que todas buscam
ter o mesmo perfil de uma capa de revista”? “Onde está
a essência feminina, onde se perdeu?” – Permeava pensamentos
conflitantes naquela mente moderna, independente e guerreira, onde sua
paixão era o trabalho, o lar e os filhos, mas não havia
pensado ainda que fosse uma mulher acima de tudo, e da tamanha complexidade
do sexo forte, ao invés de dizer frágil.
Observava as fotos expostas em uma vitrine, sua mente estava a mil e foi
como num lampejo que percebeu que tudo aquilo não passava de ilusões.
Era real, era um objeto de desejo, mas que atingia o emocional feminino
porque estava perdido, sem rumo e desconstruído por uma falsa ética.
Concluiu que tudo não passava de realidade sensorial que afetava
sua feminilidade.
Saiu rapidamente e se dirigiu a uma loja, constatou que era a mesma sensação
nas outras mulheres.
Estava ali a resposta para as suas ânsias e desamores. Parece que
havia encontrado a fórmula mágica. A primeira sensação
foi de pular, rir e dizer: “encontrei, encontrei a chave para resolver
minhas tristezas!” Entretanto, saiu perguntando a uma e outra mulher
o que elas sentiam quando vinham ao shopping, por que compravam tanto,
e o que sentiam quando liam revistas de moda ou de sei lá o quê.
Mas perguntou como se as suas estatísticas solucionassem os sentimentos
que lhe afligiam. Não encontrou respostas semelhantes. Naquele
instante, sua pesquisa demonstrou que não havia propósitos
ou se havia, eram muitos. Ficou mais confusa ainda e então resolveu
voltar para casa.
Pensou em escrever em seu computador as impressões que havia tido
na tentativa de se ouvir. “Escrevendo eu me ouço!”
– dizia em voz alta sorrindo, e lembrou-se de uma velha receita
de quando fazia terapia. Levantou da cadeira, foi até a sua adega
e pegou um vinho. Enquanto abria a garrafa, percebia o líquido
cair na taça e imaginou que aquilo era o que faltava. Aquela era
a essência feminina, a taça.
Voltou à sua sala e começou a escrever, olhava para a taça
com o vinho e percebia o masculino e o feminino envolvido em uma coisa
só. Para muitos, era só beber, se embriagar... Mas para
Ana havia aromas, texturas e, a taça guardava a beleza daquele
líquido. Estava tão implícito... Havia descoberto
que sua beleza sempre esteve ali. Sabia ser Mãe, sabia ser provedora,
mas não sabia compartilhar a mulher que era com seu esposo.
Havia tomado alguns goles e resolveu deixar a outra taça vazia
para terminar com ele. Passou as mãos pelos cabelos, olhou- se
no espelho e teve a certeza de que tudo aquilo ainda não era a
solução, era apenas o começo.
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