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Cláudio Manoel Nascimento Gonçalo da Silva
Salvador / BA

 

A verdadeira pedra filosofal




Otavius já havia perdido várias noites a fio a procura da pedra filosofal. Desde que seu mestre Ípicus havia morrido, suas investidas haviam se tornado em vão. Conjurações cabalísticas, configurações astrológicas, fórmulas alquímicas, tudo parecia vazio, tudo parecia confuso. Seu assistente Túlio estava obcecado pela obtenção do Lápis Philosoforum e por vezes a sua cobiça fazia com que seus olhos externassem uma avareza ímpar. Não raro, Túlio atrapalhava alguns experimentos, antecipando os procedimentos alquímicos, por achar desnecessárias algumas etapas.
Numa manhã, consultando seus alfarrábios, observou a data alertada por seu mestre, dia propício para conversão da mistura em premeva (o mana alquímico que concedia poderes astrais), o dia Straadi Saadi Vectum. Este dia era o dia em que os sete planetas influentes nas operações alquímicas se alinhavam. Cada planeta representando um metal e o alinhamento deles, funcionando como um catalisador químico no processo do sublimatio. Otavius depositava esperança neste dia, mas era preciso iniciar os preparativos. Era necessária a coleta de três plantas: acácia, lótus e sândalo, no primeiro dia de lua cheia. Depois, era preciso consagrá-las com orvalho, colocando-as em infusão. Após este procedimento, os metais seriam mergulhados na infusão, nas três últimas noites de lua negra.
Seu mestre Ípicus dizia que no dia do Straadi Saadi Vectum, era preciso realizar a mistura em um pote especial, que tivesse pulsação própria e que fosse de qualidade oposta às intenções do alquimista. Otavius jamais conseguiu entender isto. Os dias se passaram e a primeira noite de lua cheia, antecedente à semana do Straadi Saadi Vectum, ocorreu. As infusões começaram a ser preparadas e, no terceiro dia anterior ao término da lua cheia, os metais foram mergulhados na primeira infusão, até que no último dia de lua cheia, todos os metais haviam sido banhados. Finalmente o tão esperado dia chegou. Era uma questão de horas, até que os minutos adequados ao sublimatio ocorressem. Os metais derretidos, os instrumentos alquímicos, o forno, as substâncias complementares e os diversos vasilhames para conversão, tudo estava devidamente preparado. Quando chegou este momento, todas as substâncias foram agrupadas, cada uma passando por um tipo de operação, seguindo as orientações, até que elas caíram num grande recipiente transparente.
O líquido borbulhou, liberando gases estranhos no ar, até que formou uma substância avermelhada. Os olhos do assistente pularam em cobiça. O cadinho fervilhava a substância vermelha e os olhos do assistente brilharam. Bastava tomar um gole e ele seria tudo o que desejava. Otavius estava detido em outro canto do laboratório, tentando entender o que havia ocorrido. Foi quando se apercebeu de Túlio, erguendo o vasilhame com um líquido avermelhado, direcionando-o para a boca. Otavius gritou desesperado, dizendo para ele não fazer aquilo. Tarde demais. Naquele instante, o corpo do assistente liberou uma luz forte e ele gritava desesperado de dor. Seu corpo definhava rapidamente, secando e se transformando num amontoado de ossos sem vida. Túlio, afoito por resultados imediatos, precipitou-se bebendo o que ele achou ser a premeva, só que, em verdade, era absinto. Restara apenas o seu crânio seco, ao chão, em cima das cinzas de seu corpo.
Otavius começou a chorar. Ele estava decidido a abandonar tudo, quando o crânio de Túlio virado para cima no formato de um pote. Um “pote especial que tivesse pulsação própria e que fosse de qualidade oposta às intenções do alquimista”. Rapidamente, Otavius pegou um pouco da substância no vasilhame e derramou no crânio. A substância borbulhou liberando aromas que perfumavam toda a sala. O líquido tomou uma coloração forte avermelhada, como um vinho. Otavius olhou para a substância e, sem pensar, bebeu todo o líquido. De repente, sentiu um vazio em seu peito e começou a se contorcer. Um misto de prazer e dor dominava o seu corpo e ele caiu ao chão.
Alguns instantes depois, Otavius levantou-se e observou que suas mãos. Ele se sentiu vitalizado e procurou um espelho. Ao observá-lo, constatou que havia remoçado uns vinte anos e aparentava ser um jovem de meia idade. Otavius não se conteve e saiu correndo pelo laboratório precisava ofertar o Elixir da Longa Vida para algum rei. Saindo em viagem com uma modesta quantidade, Otavius toma conhecimento que um velho rei da Acádia estava bastante adoentado, quase para morrer. Vai à presença dele, e convence-o a ministrar uma pequena quantidade do Elixir. O rei rejuvenesce e cica saudável como ele. O alquimista fala que a substância se tratava de um remédio antigo e ele deixaria alguma quantidade para o rei. O rei ficou ansioso por aquela substância e tratou de providenciar uma forma de roubá-la.
Quando o alquimista estava retornando para o seu laboratório, os mandatários do rei espancaram-no roubando-o. Desacordado, o alquimista passou algumas horas estendidas na estrada. Rapidamente o alquimista se apercebeu do que haviam feito. Partiu em direção ao laboratório para confeccionar absinto.
De posse do absinto, o alquimista retorna ao reino dizendo aos prepostos do rei que havia sido roubado e temia que os mesmos tomassem o Elixir da majestade. O alquimista havia trazido uma quantidade maior. Irei escuta a história impressionando-se com a ingenuidade do alquimista. O rei disse que ficou sabendo do roubo e seus emissários recuperaram a substância. Otavius pede para vê-la, dizendo estar preocupado com o acondicionamento da mesma. Vendo a substância, o alquimista pegou o absinto e misturou no recipiente, mudando a constituição do Elixir. O rei elicia um riso macabro e manda que os soldados matem o alquimista. Caído ao chão com um corte no peito, o alquimista compreende o malefício do Elixir da Longa Vida e o porquê de seu mestre não tê-lo produzido. Compreende, em seu leito de morte, que a única pedra filosofal a ser conquistada está guardada no coração dos homens.