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Segredos
registrados em telas...
Conto
publicado na Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - vol.
13
Certa ocasião, ao visitar uma exposição, na Casa
de Cultura Mário Quintana, fiquei fascinada por algumas aquarelas
e bicos de pena.
Uma artista plástica expunha vários quadros em que reproduziam
coloridas borboletas, as quais estavam em espaços e planos diferentes.
No primeiro quadro, uma borboleta por trás de uma janela fechada,
e outras duas, fora, voando numa mesma direção. As flores
da floreira que se encontravam no peitoril da janela estavam murchas,
pareciam tristes e sofridas tal qual a borboleta do interior da casa;
o segundo, um vaso grande matizado que tinha parte de sua base quebrada
e os fragmentos eram roxo, cinza e azul turquesa. Perto dos pedaços
roxo e cinza, uma borboleta com as mesmas cores daquelas que se via no
primeiro quadro, porém com as asas caídas e, acima do pedaço
azul, duas outras num plano superior, voando com vivacidade; o terceiro
trazia um baú de cerejeira, antigo e escuro colocado a direta de
uma sala de estar, próximo a porta de entrada. Pousadas em objetos
que estavam sob o baú, três borboletinhas que transmitiam
energia e vida aos outros seres que se encontravam no ambiente, uma maior
e duas, praticamente, do mesmo tamanho. No alto, uma borboleta grande
que parecia estar protegendo, com as suas asas, as menores; o quarto quadro
era o que mais retinha a atenção de todos. Estava dividido
em duas partes: a da esquerda trazia um céu negro, com nuvens acinzentadas
e riscos luminosos que reproduziam raios e, ao chão, muitas folhas
e árvores secas, entre as quais, via-se uma borboleta rosa, completamente
desprotegida; à direita, um céu azul belíssimo e,
ao chão, muitas flores coloridas e plantas verdes. Acima de um
canteiro de rosas brancas, duas borboletas, as mesmas que aparecem nos
quadros anteriores.
O quinto quadro e, último daquela série, mostrava-nos a
fachada de um prédio de doze andares com um amplo jardim repleto
de muitas palmeiras, folhagens, arbustos e flores. Nesse cenário
reapareciam a borboleta rosa pousada num galho florido e as três
menores voando sobre as flores. Próximo a entrada principal, via-se
uma borboleta maior voltada para as menores e que parecia aguardá-las
Não sei quanto tempo permaneci observando esses trabalhos. Olhei
os demais, mas algo me empurrava para a frente dos cinco primeiros.
Após, ir e vir, aproximei-me do "marchant" e perguntei
o preço dos quadros. O rapaz disse que, na compra de mais de três
peças, a artística estava parcelando em três vezes
(cheques para 30, 60 e 90 dias). Comprei-os e voltei a admirá-los,
momento em que tive a oportunidade de conhecer a responsável por
tamanha beleza e sensibilidade - uma senhora de meia idade, de baixa estatura
e um tanto triste. Conversávamos quando fomos interrompidas pelas
palavras de um senhor que, espontaneamente, expressou alto os seus pensamentos:
"Belíssimo trabalho, embora retrate uma triste história
de amor!" A artista pediu-me licença e afastou-se.
Aproximei-me do senhor e perguntei-lhe em que embasava o seu comentário?
Disse-me que era psiquiatra e, que via naquelas telas o fim de um relacionamento
conjugal.
Ilda Maria Costa Brasil (04/03/1949)
Professora - Porto Alegre / RS
ildamaria.brasil@gmail.com
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