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Edmar Souza Júnior
Itajaí / SC

 

Caleidoscópio

 



O giro incessante da poltrona e seu som característico inundavam a noite enquanto a mão enrugada passava a mão nos curtos cabelos brancos, só para depois voltar-se para a luneta.
Caretas e suspiros de admiração sobrevinham ao som quase imperceptível das estrelas que caíam sobre a terra, talvez imperceptíveis, porque eram abafados pelo estridente ranger da cadeira e vez ou outra de seus dentes. Por vez ou outra, o atrito das engrenagens produzia faíscas, que viravam trovões ao alcançar as nuvens que permaneciam ainda muito abaixo da torre de cedro, adornada em mogno e madrepérola.
Um curioso observatório de fato, lar de um observador ainda mais curioso.
As horas debandavam, porém aquela incessante busca parecia não ter fim. A não ser, quando a escadaria enchia-se de estrondosos passos, e o observatório iluminava-se com os dourados cabelos e o lindo vestido azul de uma criança.
Curiosa, aproximava-se e ria-se com as cintilantes faíscas que saíam da cadeira, pequena ela ainda não entendia o que fazia aquele homem perder tanto tempo naquela luneta.
Parou algum tempo sentada em um banquinho de madeira o observando, até finalmente ser percebida.
— Você está aí há muito tempo? – Perguntava o idoso.
— Sim. — Respondia sacudindo a cabeça.
Ele percebeu que a criança mantinha os olhos fixos na luneta e por fim ofereceu:
— Quer olhar...?
Mal consegui completar a frase quando aquela criança pulou rapidamente em seu colo e fixou os olhos na luneta, até fazer uma careta e dizer:
— Tá quebrada!
— Não está quebrada não, olhe novamente!
Ela fixou novamente seus olhos na luneta, e percebeu que não estava realmente quebrada, do outro lado, ela via uma pessoa, um desconhecido, mas, ao invés de ver apenas uma imagem, via várias imagens da mesma pessoa.
— Vovô! Que luneta mais estranha, mostra várias vezes a mesma imagem!
— Menininha boba! Não é uma luneta, é um caleidoscópio!
— Calei o quê?
— Caleidoscópio! Ele foi criado para construir imagens a partir de pequenos fragmentos de vidro refletidos num espelho.
— Mas, ali ele mostra várias vezes uma mesma pessoa!
— Não mostra não, olhe novamente!
A criança olhou mais uma vez pelo caleidoscópio e viu uma outra pessoa, mas dessa vez reparou que as imagens que apareciam dela, eram diferentes, possuíam expressões diferentes, só então percebeu que as imagens também se alteravam, por hora mostravam rostos felizes, outras em fúria, outras vezes mal-humoradas, outras vezes em lágrimas e gargalhadas. Por longos minutos contemplou várias pessoas, e percebeu as faces diferentes de cada uma.
— Ainda não entendi! Por que mostrar as pessoas de formas tão diferentes?
— Porque é disso que as pessoas são feitas! De formas e momentos diferentes. Não se pode olhar uma pessoa somente por uma imagem para dizer que a conhece, é preciso vê-la em todas suas facetas! Pois, assim como o caleidoscópio forma uma imagem a partir de várias, assim as pessoas são também, a união de vários sentimentos!
Ela olhou mais uma vez pelo caleidoscópio e exclamou:
— Cada imagem mostra um sentimento de uma pessoa?
— E cada emoção também! Mas agora vamos! Já está tarde. Nós dois precisamos dormir!
— Mas vovô? Por que o senhor passa tanto tempo olhando as pessoas lá em baixo?
— Para me inspirar talvez, assim, posso repousar à noite e sonhar sobre elas.
— E o que acontece quando você sonha com elas?
— Alguns dos meus sonhos se realizam, outros não, outros acontecem de forma que nem eu, nem com quem sonhei podíamos prever!
— Nossa, que legal vovô! E por que só algumas das pessoas com quem você sonha vêm lhe visitar?
— Nem todas as pessoas sentem vontade de me visitar, e nem todas elas podem vir até aqui.
— É porque a torre é muito alta?
— Sim e não. Algumas pessoas não ficam prontas para subir esses degraus, então não posso abrir as portas para elas de imediato. Essas, precisam passar por um período de recuperação e preparação para poder subir estas escadas. Já outras, acham difícil demais subir essas escadas, então preferem conhecer o que existe no poço que está debaixo dessa torre.
— Tem um poço debaixo da torre? Posso ir ver?
— Não minha criança! Uma vez que você está aqui em cima, não deve descer para esse poço.
— Por que vovô? O que acontece lá embaixo?
— Acho melhor deixarmos essa conversa para outra ocasião, pois tive uma ideia melhor.
— É? Qual?
— Você quer ajudar a mim, e as pessoas lá em baixo a tornar os sonhos que tenho realidade?
— Sério? Posso mesmo?
— Claro!
— Oba!
— Então venha comigo!

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Conto publicado na Antologia "Do outro lado da vida"- Edição 2011 - Maio de 2011