Regulamentos Como publicar Lançamentos Quem somos Edições anteriores Como adquirir Entrevistas


Recomende esta
página para os
amigos da sua lista

Lourival da Silva Lopes
União / PI

 

O caso do celular

 


O corredor do hospital, onde se situam as enfermarias, é muito longo e bastante movimentado. Enfermeiras, técnicos de enfermagem, auxiliares, zeladores, contínuos, um entra e sai de acompanhantes e visitantes, médicos de todas as especialidades, residentes, internos, todo esse pessoal movimenta o grande corredor. São muitas as enfermarias. Em cada uma delas há, no mínimo, três leitos, nos quais repousam os enfermos “transplantados” de fígado e de rim ou que fizeram cirurgia geral, convalescendo à espera de recuperação, a fim de retornarem às suas casas sãos e salvos.
Na enfermaria 09, leito 182, Amitaff se recupera de uma enfermidade muito complexa do ponto de vista do diagnóstico e muito dolorosa: meningite criptocócica. Se não bastasse o transplante hepático, feito há mais de um ano, agora aparece essa doença terrível. Mas o pior de tudo é que a Anfotericina B apresenta várias reações no paciente, no entanto é o remédio que pode matar os fungos que causam a meningite.
O lugar é um verdadeiro laboratório científico. Para quem deseja estudar, há todo tipo de caso. O conjunto de anotações de cada paciente pode se transformar em preciosos estudos para o futuro das ciências médicas, farmacêuticas, sociais, psicológicas, biomédicas e outras. Também, ouvem-se histórias, as mais variadas. As conversas vêm de todos os pontos. Dos celulares captam-se casos, histórias, às vezes, muito curiosas e interessantes, como a que ouvi de uma conversa pelo celular da filha de dona Raimunda, que está internada para uma cirurgia de vesícula. Acho que falava com uma parenta. Pelo tom da conversa, imaginei que fosse com sua irmã.
“Já estou no hospital. Mi’ermã, aqui tudo é chique! Tudo. Acredita que eu andei de elevador? Pois é. Aqui tem até elevador. Não é chique? Aqui na enfermaria tem três camas. Mas o bom mesmo é que tem uma cadeira para cada acompanhante. Não é como aí, não, que só tem uma cadeira para todo mundo. Aí no hospital daí tem que ficar esperando a vez de sentar. Aqui a gente toma café, almoça e janta. Parece um hotel. E nossa mãe tá sendo bem tratada. Toda hora vem uma enfermeira. Ela já tá tomando soro. Até já andou uma moça vestida de médica – mas não sei se é médica que não perguntei – fazendo um monte de perguntas e anotando num papel. Não te preocupa, o tratamento aqui é vip. Como é que tá todo mundo por aí? E a peidona? Já peidou muito? Pois é, mi’ermã, estamos bem. Tchau. Um abraço para todos.”
Todas as histórias, que escuto pelos corredores, nos cantos das enfermarias, nos celulares, e que se perdem no silêncio das pessoas, se misturam, num tumulto de vozes, às falas dos médicos que visitam os pacientes.

Para comentar ou enviar uma mensagem para o autor, envie email para:
comentarioscbje@gmail.com
Diga
seu nome, cidade, estado, nome deste autor e/ou título da poesia.

 
 

Conto publicado na Antologia "Do outro lado da vida"- Edição 2011 - Maio de 2011