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Obra publicada no Livro "Contos de Verão" - Dezembro de 2011

Luzia Magalhães Cardoso
Rio de Janeiro / RJ

 

Desengonçado deleite



Era início da primavera e eu estava a caminhar pela Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro... Adoro fazer caminhadas naquele local. Vento fresco batendo no rosto, vegetação exuberante, um mirante privilegiado, de onde se vê a cidade, a Baía de Guanabara, o Cristo Redentor... Beleza sem igual. Durante a subida, surpreendem-nos fontes de água cristalina, que descem do morro e que matam a sede dos caminhantes.
Subia a floresta, sem hora e sem onde chegar. Apenas andava. Mas, de repente, fui pega de surpresa com uma discussão que parecia, numa escuta desatenta, completamente sem sentido e que reproduzo agora.

- Chegue para lá seu impertinente, não vês que me amolas? Saía já de cima de mim!
- Mas, como te amolo? Como sair de cima da senhora? Preciso estar aqui para beijá-la, saborear o seu doce néctar.
- Não, não toques em mim!

Ela repetia, e gritava, incessantemente, enquanto a ira intensificava a sua cor rubra.

- Não posso deixar de tocá-la... sou atraído por teu perfume.

Respondia-lhe o franzino e colorido jovem.

- Mas será possível!!!!!

E continuava a reclamante:

- Vocês vivem a me beliscar, me lamber, chupar... Não aguento mais essa vida de assédio. Poderiam, pelo menos, perguntar se permito, se quero, como gosto. Poderiam perguntar se foi bom para mim... Mas, não... Todo dia, vocês chegam, penetram em mim esse instrumento duro... Duro e fino, muito fino, por sinal. Nunca vi um instrumento tão fininho. E ficam a lambuzar-se com o líquido que guardo no mais íntimo de meu ser e que produzo para o meu próprio deleite. Não, não e não!!!!!

O jovem já estava totalmente constrangido. Abaixou a frágil e pequena cabeça, pois não mais conseguia penetrar-lhe seu já flácido instrumento. Embora ela não soubesse, ele tinha pouquíssima experiência.
Percebeu-se impotente diante da reclamante. Saiu, estabanado, esbaforido, deixando cair pelo ar as raras gotas do precioso líquido que lhe havia roubado.
E eu assistia cada detalhe daquela cena. Não sabia o que fazer, de tão inusitada situação. Pude ver o jovem seguir, desengonçadamente, a um ponto um pouco mais distante dali, enquanto ela se arrumava ao sabor da brisa fresca, com um ar de orgulho e vitória.
Avistei-o, encabulado, retornando ao aconchego de seu lar. Ouvi quando falava aos seus pais o que se passou. Parecei ter os pais como confidentes e conselheiros. Certamente, reconhecendo o tempo de estrada de ambos.
O pai, do alto de sua autoridade, lhe falou, então:
- Não se importe com a ranzinzice das rosas. Elas são assim mesmo, acostumadas a paparicos. Lembre-se que nós, beija-flores, devemos sugar o néctar de todas as flores, sejam elas rosas, margaridas, papoulas... Esse é o nosso alimento. Ao mesmo tempo, polenizamos cada uma das plantas onde fazemos a nossa refeição e, graças a isso, elas se perpetuam.
Corretíssimo! Pensei.
Antes da cena, eu pretendia pegar aquela rosa para mim, mas depois, achei melhor deixá-la por lá mesmo. Vai que ao trazê-la comigo tivesse que ficar ouvindo as suas reclamações. Ah, não... Não gosto de falatórios!



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