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Gélcio de Barros Sormani
Mainz
/ Alemanha
Estranhos
passantes
Observando atentamente os transeuntes pela janela do meu apartamento
é que percebo o quanto somos diferentes dos alemães.
Primeiro que, por conta do clima – nove meses de frio e apenas
três de calor –, seria muito natural que não só
o modo de vestir, mas, principalmente, o ritmo da caminhada fosse
bastante deferente do “passeio” dos cariocas que desfilam
pelas calçadas da Rua do Catete, no Rio de Janeiro, onde morei
por bons quinze anos. Aqui as pessoas andam mais depressa, parecem
estar sempre atrasadas, e também quase não se dão
conta das novidades que ocasionalmente acontecem nas calçadas.
Apesar de os próprios alemães considerarem o povo de
Mainz (ou Mogúncia, para os puristas) muito simpático,
a idéia de “simpatia” deles é bem diferente
da nossa. Bem... acho que é. Só a título de curiosidade,
vale informar que Johannes Gutenberg tinha o seu atelier aqui em Mainz
e foi aqui que produziu a sua primeira Bíblia impressa. Isso,
talvez, tenha despertado neles um certo ar de superioridade. Não
sei se é por isso; é pura especulação
minha.
Mas as diferenças entre os passantes não param por aí.
Daqui da janela, raramente vejo dois alemães passarem conversando;
três, então, nunca! Eles também não têm
o hábito de dar aquela velha olhadinha pra trás para
“conferir” a bunda das alemães quando elas passam.
Nesse ponto, eu até que não tiro a razão deles;
não têm muito o que ver, mesmo.
Um dia desses presenciei um senhor já idoso que, por conta,
provavelmente, de um mal-estar, caiu na calçada, próximo
à entrada do meu prédio. Naquele momento passavam algumas
pessoas mas nenhuma delas apressou-se em socorrer o homem. Apenas
uma jovem, que veio logo depois, viu o homem caído e informou
a um policial que parara na esquina. Mas socorrer – aquele socorro
típico do carioca, pra não deixar a pessoa abandonada
ao léu – ninguém prestou. Ninguém parou
pra dizer “Vai dar tudo certo, força! Quer um copinho
d’água?”.
Outra coisa interessante: na Rua do Catete, quando uma mamãe
passa levando o neném no carrinho, tem sempre alguém
que olha, para, sorri e brinca com a criaturinha, provocando, no mínimo,
uma troca de sorrisos. Aqui não tem isso. Acho que os nenéns
daqui não gostam do bilu-bilu...
Acho interessante registrar isso porque as coisas não são
assim como muita gente aí no Brasil pensa. Aqui, de fato, é
um lugar maravilhoso, a vista do Reno é linda, os resquícios
da dominação do Império Romano são preservadas
com cuidado histórico, o nosso trabalho é respeitado
e os criminosos têm medo da Justiça. Aqui ninguém
picha muro porque a lei é dura. Pra assalto, então,
nem se fala. Mas... sorriso aberto e tapinha no ombro, nem pensar.
E os passantes continuam passando porque hoje tem sol. E faz 25 graus,
coisa rara aqui. Que bom!
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