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Zé
Olavo Balthazar
Rio
de Janeiro / RJ
Ágoras
cariocas
Houve um tempo em que as praças cariocas cumpriam naturalmente
a função de reunir pessoas para fins de interação
social. Afinal, foi para isso que as praças foram criadas quando
o homem deixou de ser nômade.
O Rio de Janeiro, onde vivo há mais de quarenta anos, sempre
teve praças aconchegantes, com jeitão familiar, mesmo
aquelas, digamos, mais pedantes, típicas dos bairros nobres,
como a Nossa Senhora da Paz, em Copacabana, por exemplo. A Saens Pena,
na Tijuca, é outro exemplo. Praças quase que exclusivas
da classe média, mas que serviam a contento para o fim que
foram projetadas.
Nos subúrbios, apesar de em número menor, as praças
serviam de palco para as festas juninas, para o encontro dominical
dos adolescentes, para um joguinho de damas dos coroas nos fins de
tarde. Eram, simplesmente, praças com jeito de praças,
com pipoqueiros, crianças andando de velocípede e os
pequenos craques ensaiando os primeiros dribles. As vizinhos se conheciam,
participavam da vida coletiva, as mulheres trocavam receitas de bolos
e os homens falavam de política.
Só que, aos poucos, as praças foram deixando de ser
praças, algumas foram cercadas, outras (principalmente aquelas
dos bairros mais pobres) foram abandonadas pelo poder público.
Com isso elas perderam sentido. Deixaram de ser as ágoras e
se tornaram refugos urbanos; mato, lixo, cocô de cachorro. Ninguém
mais vai ler jornal na praça, nenhuma criança brinca
mais de gangorra, ninguém fala mal do governo, ninguém
marca mais encontro com a namorada no banco embaixo do oitizeiro.
As hermas de bronze, como que por mágica, sumiram e ninguém
sabe que destino tomaram. As praças, hoje, estão à
espera de um descuido da população para serviram à
ganância da especulação imobiliária. Ou
alguém duvida que daqui a pouco vão surgir novos condomínios
nesses espaços tão indispensáveis à vida
social.
E o pior, é não haverá mais lugar, então,
para os vizinhos se reunirem e protestarem. Lamentavelmente, estamos
vendo, impassíveis, o fim das ágoras cariocas.
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