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Willey
Hull Willecamp
Caxias
do Sul / RS
Mais
que receita
De quinze em quinze dias, Dona Nadinha aparecia no meu consultório
a pretexto de medir a pressão. Ora também alegava palpitações,
outras vezes insônia, dores assintomáticas etc. Havia
sempre um motivo diferente para justificar a sua consulta.
Com o tempo, fui percebendo que o mal de Dona Nadinha não era
nada daquilo. Com 82 anos, ela tinha uma saúde invejável,
seus exames atestavam isso. Coração, diabetes, osteoporose,
tudo dentro da normalidade, nada que merecesse algum cuidado especial.
O problema dela era solidão. Viúva há oito anos,
tinha dois filhos morando há muito no exterior mas que vinham,
sempre, visitá-la nas férias; traziam presentes, providenciavam
uma faxina no apartamento, levavam-na para almoçar em bons
restaurantes... Três semanas depois, entretanto, voltavam para
casa, na Alemanha. E ela ficava, novamente, sozinha pelos onze meses
seguintes. Esta era a doença da Dona Nadinha.
Ela tinha dois netos que não conhecia pessoalmente, só
por fotografia. Os filhos alegavam que as férias deles não
coincidiam com as férias escolares. Das noras, só conhecia
uma que viera com o marido há quatro anos atrás; a outra,
nem por foto conhecia.
Como podemos ver, além de saudável, Dona Nadinha tinha
filhos e netos, ou seja, tinha uma família. Tinha, também,
um belo apartamento e uma boa pensão deixada pelo marido. Na
visão popular, ela tinha tudo para ser feliz. Mas não
era. Ela sofria de solidão na sua expressão mais dura:
a sensação de não ser querida. Ela sabia que
não era querida. No fundo, a sua solidão não
seria curada com uma simples companhia. Seria preciso que alguém
lhe fizesse se sentir verdadeiramente querida. Mas não “um
alguém” qualquer.
E eu, com receituário à minha frente, sem saber o que
receitar.
...
Dois anos depois Dona Nadinha morreu por conta de complicações
resultantes de um acidente doméstico. Sozinha em casa, não
teve como pedir socorro e o atendimento veio tarde demais.
No enterro, só eu, alguns vizinhos e seu advogado que me disse
ter recebido um telefonema de um dos filhos alegando que não
poderia vir para o sepultamento e pedindo que iniciasse as providências
para o inventário. Nada mais.
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