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Ricardo
Baia
Fortaleza
/ CE
Travessia
Outro dia deparei-me com o pensamento do sábio personagem,
jagunço Riobaldo (Grande Sertão Veredas) que dizia:
"O real não está na saída nem na chegada:
ele se dispõe para a gente é no meio da travessia"
e dessa forma comecei a construir algumas idéias inacabadas.
Os sonhos, as projeções futuras serão sempre
canalizadoras de nossas ações. Viver é um processo
natural, porém, o destino se encarrega de apresentar desafios
e direcionar alguns caminhos. Segui-los ou não são opções
livres, assim como devem ser nossas atitudes... pensando na arbitrariedade,
e no quanto é bom e amadurecedor viver assim, tenho a ligeira
impressão que a saída e a chegada realmente desempenham
papéis simplórios, banais. Existem apenas porque é
necessário, porque simplesmente precisamos de justificativas.
Usando novamente minha arrogância, diria que muitos optam por
trilhar suas vidas pelos atalhos, por alternativas que até
os levam a um ponto de chegada sim, sem maiores ferimentos, mas incapazes
de descobrirem sabores... preferem não amar a correr os riscos
tempestivos e intensos da paixão; preferem o refúgio
da casa a ousarem desvendar a rua; uma vida morna e tranqüila
a invasão que o destino propõe; o conforto da dor a
busca de alternativas; o sofrimento medíocre por medo de lutar...
permitam-me usar o velho jargão já gasto "quem
brinca com fogo pode se queimar", mas atravessar é a única
oportunidade de se descobrir, de crescer, de amadurecer. A travessia
é sem dúvidas o enredo mestre que conduz a vida, é
nela que o universo de descoberta acontece, o real assume seu posto
e rouba-nos o imaginário, a fantasia, daí tamanha importância
estarmos inseridos nessa perspectiva para conhecermos a fortaleza
que tem nossa fúria, a exigente postura sensata e equilibrada
enraizada pelas experiências vividas, pelo prazer modelado e
lapidado ao nosso gosto, compreender o medo, conhecer a insegurança,
descobrir que a dor é suportável, que é possível
conviver com a perda, que ganhamos muito mais do que perdemos, que
a felicidade existe, que o sofrimento é inevitável,
a tristeza é passageira, a alegria contagiante e principalmente,
que tudo reflete no hoje quem sou. Infiltrados, instigados, desafiados
e reconstruídos na travessia, sofremos uma formatação
balizada pelas dúvidas, instabilidades e pelo desconhecido
que deságua numa fecundação, gera e dá
a luz ao novo. Encare a travessia, desafie - isso me parece uma proposta
sensata - como tão bem retrata o poeta Pessoa: "Há
um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já
tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos
levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e,
se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos".
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