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José Ruy Pimentel de Castro
Vitória / ES

Na fila do banco



Já são 13h30 de uma terça-feira e estou no banco onde possuo conta em Jardim Camburi. Agência pequenina para uma localidade em crescente expansão, dados os últimos movimentos imobiliários neste bairro da capital. Início de mês é complicado em qualquer horário. Ainda mais, imagino, para aqueles que estavam aqui antes de mim, durante o horário de almoço para alguns funcionários (principalmente para o homem de camisa salmão de bigodinho que vira e mexe se ausenta do caixa. Ele é o primeiro a sair do caixa nesse horário e o último a retornar, sempre). Enquanto isso, uma outra pessoa mais dedicada trabalha em ritmo normal num dos três computadores. O terceiro destes computadores está como usualmente fica: sempre vazio.
Pior que ficar na fila do caixa talvez seja apanhar senha e esperar uns sessenta números até que seja atendido nas mesas de atendimento pessoal para abertura de contas e resolução de pepinos. Considerando-se que em média as conversas duram 5 minutos, faça as contas! O que faz com que a pessoa seja atendida ainda naquele dia é o número de desistências imensas diante de tão grande diferença do número de senha que a pessoa pegou e o número de senha atual. Há ainda aqueles clientes que, morando perto, pegam a sua senha e vão pra casa, almoçam, esticam as pernas no sofá e assistem um programa da tarde para passar o tempo de espera que teriam de passar no banco. Às vezes, dá-se a sorte de chegar antes que sua senha seja chamada, às vezes não. Depende da avaliação de quantidade de pessoas dentro da agência mais velocidade média de atendimento pessoal mais projeção de quantidade de pessoas desistentes de suas senhas. Com isso, tem-se a equação do tempo aproximado de espera até que a pessoa seja atendida. Se chegar pouco antes de sua senha ser chamada, a pessoa pode tentar agilizar algo nos caixas eletrônicos. Há de se estar disposto a enfrentar mais uma fila porque uma das máquinas de saque tem a mensagem "Tente outro terminal" e apenas três recebem seu depósito. Com sorte, não haverá funcionário repondo dinheiro em alguma máquina, inutilizando-a naquele momento. Pense bem, isso é até bom! Talvez desta vez não lhe falte dinheiro no feriado quando tiver de sacá-lo. Há que se calcular, neste caso, se o tamanho da fila e os fatores terminais com defeito, máquinas com dinheiro sendo reposto e máquinas de depósito muito requisitadas irão lhe ajudar a matar o tempo que ainda lhe resta com a senha lá de dentro da agência propriamente dita.
Enfim, decidi contar-lhes isso porque cheguei naquele horário que lhes disse inicialmente na agência a fim de receber uma quantia vinda do exterior. Não sei se fiz certo em vir primeiro ao caixa, mas resolvi, diante do painel eletrônico com o número da senha atual, tentar a opção menos frustrante. A fila fazia três voltas naqueles espaços delimitados por fitas adesivas de cor amarela coladas ao chão. Foi então que reparei a placa logo acima da cabeça dos funcionários que operavam os caixas e logo abaixo do crucifixo de Jesus na parede: "Tempo máximo de espera: 14 minutos". Observei novamente o tamanho da fila e duvidei muito da informação, mas decidi, como um bom brasileiro, dar a chance de 14 minutos que o banco deveria ter de me atender satisfatoriamente.
Passaram-se 5 minutos e apenas uma pessoa da fila, tendo em conta a sua configuração inicial de quando cheguei a ela, foi atendida. A propósito, o homem de camisa salmão e bigodinho já estava lá atendendo, só para esclarecer. A culpa da morosidade, creio eu, estava nas pessoas sendo atendidas mesmo. Pilhas e pilhas de documentos haviam sido amontoados sobre o caixa para serem pagos. Abre pasta dali, abre pasta daqui, pega-se documento, guarda-se outro...
Enquanto isso, chega um idoso de capacete na mão e se posta atrás da pessoa sendo atendida no caixa 1 (leia-se caixa 2, vazio, e caixa 3, homem de camisa salmão e bigodinho). O caixa 1 é o caixa de atendimento preferencial a idosos, gestantes, lactantes, crianças de colo e etc. Esse idoso deve ser um motograndpa ao invés de motoboy. Ah! Não se assuste. Com os caixas preferenciais para idosos as empresas estão começando a contratá-los para esse serviço. Diante da realidade da previdência brasileira, é bem coerente que o idoso acabe trabalhando dessa forma.
Passaram-se 11 minutos. O tempo está se esgotando. Dos 10 primeiros da fila para trás já se escutava burbúrios de reclamações sendo balbuciados. É interessante a reação das pessoas. Nenhuma delas levanta a voz para reclamar direitos. Considerem que eles estavam a minha frente, esperando há bem mais que 14 minutos. Começa assim: número 11 se volta pra número 12 e diz:
- Absurdo! Palhaçada com a cara da gente! Cadê o gerente pra ver isso?
- Pois é! Alguém precisa fazer algo!
E assim se sucede com outros, sempre em voz baixa. Talvez as pessoas queiram se mostrar insatisfeitas e, em conjunto, manifestar suas insatisfações para uma pessoa de posse, ou que trabalhe no governo, ou que exerça influência, ou alguém que mande em alguma coisa ou alguém pra que tome as dores de todos e levante a voz em defesa dos fracos e oprimidos. É assim nas relações sociais e é assim na escolha do presidente. Não havendo quem faça tal coisa, os burbúrios permanecem, mas ninguém toma a frente para mudar a situação. É engraçado imaginar pessoas num banco, clientes dele, sendo submetidas a tal espera e se limitando a um espaço demarcado com fita adesiva, ao seu lugar na fila, às coisas do jeito que são...
E pensar que muitas delas são estudadas, com nível superior. Como eu. Já se passaram 14 minutos e peguei o telefone do Procon para fazer a denúncia. Existem 7 pessoas na minha frente ainda. Talvez eu dê alguns minutos de tolerância ao banco...
Enquanto isso, vi uma senhora que mais parecia gorda do que grávida se postar como próxima no caixa 1 ao mesmo momento em que vi o homem de camisa salmão e bigodinho se levantar e ir aos fundos da agência resolver algo (ou não). Acho que minha tarde aqui ainda vai ser longa...

 
Seleta de Crônicas - Minha Rua, Minha Gente - Edição Especial - Abril de 2009