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Ionita
Késia Pereira
Sapucaia
do Sul / RS
Na
minha rua mora gente
E em meio a tanta gente misturada não se consegue mais distinguir
os olhos de ninguém. Não se sabe se piscam, se são
pretos ou azuis, se enxergam ou só olham. Em meio a tantos
odores não se reconhece mais o perfume da inocência,
da pureza e da ingenuidade. Em meio aos muitos sabores artificiais
não se acha mais graça no mel, na maçã
ou no pão recém feito. E essa gente que caminha, com
rumo certo, passo apertado, robotizado, faz parte da minha vida, mesmo
sem saber. E são todos estranhos vizinhos, confidentes que
não emitem opinião, mas que reconhecem meus passos e
o barulho das minhas chaves. Estão a todo tempo atentos as
minhas palavras e movimentos, mas não sabem quem eu sou. Sou
mais um nesta colméia desorganizada, que no caos encontra seu
sentido e fundamento. Também me olham, mas não me vêem,
e balançam a cabeça em cumprimento e seguem. Se grito
ou sumo apenas reclamam que não paguei o aluguel. E não
há mais elo que nos una, apenas paredes geminadas que racham
e choram por nós, deterioradas. E as árvores olhando
para o céu sentem falta do balanço de pneu e acompanham
a distância entre os corpos que diminui na proporção
que aumenta a das almas. E a rotina não é mais tão
calma, pois há o medo, tranca nas portas. E o que se passa
do lado de fora das grades da janela já não importa,
quando a noite se cala a espera do sono. Descanso profundo, mas não
natural, repouso garantido por uma pílula na esperança
de continuar sendo o dono do que era de seu pai. E a noite avança
e mesmo que um ai soe na vizinhança, há silêncio
entre as gentes que dormem. E recomeça o dia, o barulho, a
andança, mas o silêncio persiste. Não o das vozes,
mas o de sentimentos. Não se comunga mais pensamentos ainda
que o certo fosse dar as mãos. Pra vencer a intolerância,
o preconceito e a falta de fé. Mas não interessa o que
o outro pensa, se está de pé no escritório ou
deitado na sarjeta, com a garrafa entre os dedos e a seringa no braço.
Se nesta rua se armam pra afugentarem seus medos, na outra não
é diferente e em tiro a queima-roupa se traduzem as palavras.
E as cores das peles são substituídas pelas dos carros,
que passam depressa e escondem as cores dos cabelos em vidros escuros.
Mas esta gente ainda estuda e na escola aprende que a gentileza é
fraqueza, por mais que o professor não passe esta mensagem.
O ensino da revanche vem de casa, onde não se tolera o desaforo
e o diálogo passou a ser perda de tempo. Mas ainda assim este
é o meu povo. Essa gente que só se interessa pelo novo
e virtual, que faz amigos através de telas e teclados. Não
sabe meu nome, meu aniversário, se trabalho na esquina ou em
outra cidade, mas que conhece a intimidade do astro da TV. Se eu enxergo
esse mundo, que mergulha num poço profundo de descaso e desapego
não será impossível fazer minha gente enxergar
também. E eu falo, mesmo para aqueles com o fone de ouvido
do MP3, para quem os meus lábios só se mexem, sem emitir
som. Falo de amigos sentados na calçada, conversando pelas
noites. Do abraço apertado mesmo de quem se vê toda hora,
e do sorriso gratuito acompanhando o bom dia. De se economizar a buzina
e a gritaria na fila do semáforo, e a água pura que
se vai pelo ralo até o rio contaminado. Falo das borboletas
no estômago de quando se está apaixonado, não
por uma vida, mas pela vida. E se quem sonha sou eu, não quero
que me despertem porque prefiro ficar assim, iludido, sonhador. Prefiro
viver a ilusão a me entregar para o desamor de uma vida que
não espera mais nada. Com toda essa gente misturada, de cada
cor, credo, tamanho, da casa ao lado ou da outra rua, quero unir a
minha voz pra dizer a quem não sonha, o que diziam nossos avós.
Na minha rua moram pessoas e não carros. Na minha rua caminham
pés e não pneus. Na minha rua vêem olhos, e não
retrovisores e faróis. Na minha rua ouve-se o som de corações
e não de martelos ou tiros. Na minha rua o sangue corre nas
veias e não nas calçadas.
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