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Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis / RJ

Se esta rua, se esta rua fosse minha



Se esta rua, se esta rua fosse minha...
Uma ruazinha curta. Uma rua pequena. Uma rua grande que é cortada por um rio, e ficou um pedacinho de rua do outro lado do rio, que é a minha rua. Ficou sem calçamento porque era uma ruela sem importância. Os moradores fizeram calçadas gramadas com bancos de madeira, plantaram árvores, fizeram canteiros floridos, puseram jardineiras nas janelas com gerânios vermelhos, muros de hera. Só faltou o calçamento com pedrinhas de brilhante.
Nas manhãs ensolaradas, nos finais de tarde ou em noites de lua a rua deixava de ser rua e se transformava numa grande varanda. Tudo ali me encantava. Se esta rua... se esta rua fosse minha... mas.... não é minha nem de ninguém é de todos é sua também.
A rua foi calçada, a hera arrancada, as casas foram se transformando em prédios cada vez mais altos, mais sujos. E até a fonte de água pura foi para o beleléu. Eu me mudei, todos se mudaram, se calaram, abriram espaço para a ambição desenfreada.
Não sei o porquê que fui escolhida para fazer uma viagem no futuro, terá sido por causa da minha rua? Pode ser. Só hoje recebi o comunicado que poderia escrever sobre o que presenciei, mas só uma parte.
Chegando lá, vi em todos os pontos, tubos de borracha, colocados em todas as alturas: alto, médio, baixo a até no rés do chão. Paisagem estranhíssima!...
As pessoas usavam uma espécie de roupa, quase todas iguais, só mudava a cor. Um pequeno tubo exposto às costas do lado esquerdo. Máscaras para respirar, óculos grandes, branco leitoso para evitar cegueira por causa dos raios solares, luvas flexíveis descartáveis que só poderiam ser retiradas em casa. Calçados que flutuavam a uma altura de dois centímetros do chão, para não serem contaminados com resíduos da poeira atônica.
Que mais me impressionou foi o sistema de reposição de oxigen-carb, um fluído que mantinha as pessoas vivas. Aquele pequeno tubo nas costas era implantado horas antes do ser humano ser retirado de uma espécie de tubo de ensaio. A cirurgia realizada de uma maneira agressiva demais com métodos invasivos e muitas vezes o serzinho morria na hora. Mas não causava nenhum impacto para eles, pois a reserva de seres era infinita! Não precisa mais fazer amor, considerado por eles um ato violento que acabava em morte. Os seres não tinham mais força nem fluidos para fazer sexo, muito menos para gerar um filho. Se você programasse uma família era só encomendar quantos serezinhos quisesse.
A partir do nascimento era obrigatório se fluidificar de quatro em quatro horas. Conectar o tubo das costas com tubos espalhados por todos os lugares. O engenho se constituía em aproximar-se a uma distância de dez centímetros, dos conectores de rua ou de casa, e um imã atraía os tubos e começava imediatamente a entrada do fluído no tubo humano que era transferido para os pulmões vagarosamente. O processo todo mecânico, abrir os tubos e fechar um sistema intocável por mãos. Em quinze minutos a pessoa morria por falta do fluido. A fluidificação durava 5 minutos.
Cabelos e pelos, coisa do passado. As excreções se davam uma vez por semana, também através de tubos, para não haver contaminação letal. Rede de esgotos para que?
A comunicação feita através de um chip instalado na parte externa da garganta depois de dois anos de idade. O alimento sólido, pílulas injetadas na traquéia.
Doenças não havia, nem médicos, nem remédios. A sobrevivência uma questão de não burlar nenhum ítem das leis convencionais. Água que te quero mar, só lama fedida.
Casas, conduções, tudo em tubos. Divertimentos, música, alimentação... Tudo feito individualmente atos totalmente solitários. Nem pensar em aglomeração.
Emoções, sentimentos, saudades, beijos, amor... prazer... Eram utopias, pensamentos de doidos. Esporte praticados só com a mente, através de um aparelho e cada um na sua casa, digo, tubo. Ah, minha torcida do Flamengo no Maracanã!!! Literalmente virou poeira.
A morte era tão banal quanto o nascimento. Os cadáveres colocados em ácidos eram dissolvidos e depois expostos sem proteção num reduário e absorvidos por câmeras infláveis soltas na estratosfera.
Flores, árvores, pássaros, etc. Só em fotografias e em museus envidraçados e para pesquisadores. Ou na morada dos deuses.
Foi mostrado a mim e a mais alguns, muito mais situações, estou em estado de choque. Só me foi dado autorização revelar até aqui.
Se esta rua... Se esta rua fosse minha...Ela é sua também.

 
Seleta de Crônicas - Minha Rua, Minha Gente - Edição Especial - Abril de 2009