| |
Valéria
Victorino Valle
Anápolis
/ GO
Calmaria
É cedo da noite em nosso antigo apartamento em Goiânia
na Praça Cívica e ele naturalmente acabava de arrumar
sua mala para a próxima viagem. Inevitável partida.
Olho pela minúscula janela e vejo as luzes da cidade e o grande
movimento de carros nas avenidas. Um calor intenso e um cheiro de
primaveras invadem o pouco ar que respiro em mais um dia de vácuo.
Mecanicamente pego seus óculos e limpo as lentes com muito
cuidado. Precisam estar transparentes para que você veja bem
as coisas à sua volta. Confiro seu perfume, seu creme de barbear,
seu xampu, suas roupas íntimas delicadamente lavadas e perfumadas
por minhas próprias mãos. Abraço com carinho
as peças de roupas dobradas com perfeição e sinto
o cheiro do mesmo homem. Sem nada pensar, fecho o zíper da
mala. Nada pode faltar.
Como de costume recolho a toalha atirada sobre o sofá e as
sandálias sobre o tapete da sala. Arrumo o lençol levemente
amassado. Lavo a taça de vinho deixada sobre a mesinha de centro
e ouço o barulho do elevador. É a mesma linguagem do
silêncio.
Lentamente retorno à janela e observo a multidão que
se desloca de um lado para outro das avenidas como formigas desencontradas
do formigueiro. Questiono-me sobre quem seriam, aonde vão,
o que pensam, o que sentem... E se eu fizesse parte desse formigueiro?
Talvez pudesse sair do meu casulo de frustração interior.
Entre a dúvida e o talvez, me concentro no elevador. Apago
as luzes, fecho a porta do apartamento e abro a rua. Lugar de fuga
e enfrentamento dos dramas humanos.
Não sei se há pressa, pressão ou depressão
nos meus trôpegos pés que mais uma vez circulam na avenida,
misturados a outros pés que também vagueiam sem saber
para aonde ir.
Minhas carnes parecem desconhecer o calor da cidade e de novo tremem
muito diante do exercício de um olhar para os outros. O som
das buzinas, o semáforo cinza (não gosto do vermelho),
a iluminação e a decoração das lojas trazem-me
uma breve distração enquanto caminho próximo
ao meu apartamento.
Apesar da minha dificuldade existencial ainda consigo observar famílias
simples que caminham pela calçada e crianças (como são
lindas) que se lambuzam comendo churrasquinhos, sanduíches,
bolos e milho verde assado. Do outro lado da rua, acompanho vendedores
ambulantes que comemoram mais um dia de sobrevivência.
Há poesia no ir e vir das pessoas desconhecidas que transitam
entre sorrisos e rugas deslizando vertiginosamente entre uma calçada
e outra. Ouço uma risada estridente de uma mulher que passa
conversando de forma distraída com uma outra que também
sorri.
Durante um longo tempo, sentada no meio-fio da Avenida Goiás,
observo atentamente a gente apressada para chegar em suas casas em
busca do aconchego e refrigério de alguém que sempre
as espera. Eu sempre espero e tenho a esperança de ser esperada
também. Um dia...
Respiro profundamente aquele ar inebriante de idas e voltas da vida
humana. Meu caminho, entrelaçado ao das pessoas, parece nesse
momento ter sentido e finjo renascer, muda no meio da multidão.
Já é meia-noite. Releio a advertência de não
romper com os limites. Elevo os olhos para o prédio: é
o enlevo e o elevador que me aguardam. Resignada, retorno ao meu nomandismo
forçado, ao meu não-lugar. Urdidura difícil de
ser destroçada. Mas me sinto bem hoje por ter vivido uma metáfora
da calmaria nas noites goianas.
|
|
|