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Neri
França Fornari Bocchese
Pato
Branco / PR
A
rua cidadã
Uma certa rua, até bem comum, traz o nome de um pioneiro importante
pelo trabalho desenvolvido pela esposa. A tal rua se apresenta aos
olhos de seus moradores com ar de requinte e imponência.
Passado o primeiro momento, percebe-se que não pode ser assim
chamada, pois é apenas uma travessa formada por quatro quadras.
O fato que vamos relatar passou-se na primeira quadra ou quem sabe
na última, pois tudo depende do referencial de cada um. O começar
e o terminar no espaço geográfico não se especificam,
a mãe-Terra possui a forma da perfeição, a forma
da ausência de divisão indicando espaço infinito.
O trecho mais importante pelo referencial que apresenta, trás
na moldura uma paisagem especial. Na esquina de entrada, com a Rua
Tamandaré, esta sim uma rua, há um frondoso pé
de Prata. Muito bonito, além de espalhar a sua sombra de forma
gratuita, também na chegada do outono espalha com profusão
as suas folhas, já amareladas, aos poucos adquirem uma cor
única, de cobre. Vão elas adubando com generosidade
o solo. Uma folha, além de folha, símbolo de um país.
Logo a seguir, uma pequena floresta surge amada e rejeitada ao mesmo
tempo. Existe nela um movimento, encanta aos amantes da Vida. E ela,
a Vida, se manifesta em plenitude, com todas as suas nuanças.
Os pássaros voam felizes, gorjeiam mais alto, até pousam
despreocupados nos telhados e na copas dos pinheiros. Descansam da
jornada, refeitos seguem viagem.
O ar perfumado, fresco, convida a uma parada. As árvores farfalham
ao sabor dos ventos, trocam as folhas de mais idades por outras jovens,
tenras, seguindo a lei milenar dos tempos vão renovando, formam
um tapete especial, de folhas verdes, amarelas, avermelhadas.
Não se preocupam se para alguns, menos esclarecidos, sistemáticos,
são tidas como sinônimo de sujeira. Estes ainda não
assimilaram, na Lei natural das coisas \"tudo volta ao todo,
nada se perde\", na visão Holística, de Bem Viver.
As folhas vão ser seiva outra vez, alimentadas pelo solo, se
fortificaram no humo gratuito, gerado pelo apodrecimento das próprias
folhas, dos galhos e excremento dos pássaros.
Os insetos muitas espécies, confiantes homenageiam a natureza
com um balé de causar inveja ao próprio homem. As borboletas,
por conta de uma palmeira, altaneira enfeitam o jardim-floresta. A
vida encontra e se desenvolve em profusão, o nicho com carinho
a acolhe tanto no chão, com no ar. A decomposição
das folhas só faz parte do processo de renovação
vital para todos os animais e vegetais!
As plantas frutíferas, prontas para mais uma bela florada,
os frutos nascerão saudáveis. No imaginário de
vegetal, a pequena floresta sabe que a partir de hoje, poderá
crescer e transformar-se em árvores, não precisa mais
temer nem o serrote, nem o facão, muito utilizado por um dos
ilustres moradores da pacata ruela. Ilustre... Depende sob que ponto
de vista.
Os moradores, muitos anos vizinhos convivem em harmonia. Podem outra
vez ao sair de casa passear pela calçada sem a encontrarem
com obstáculos para os impedirem de livremente transitarem.
Calçada pintada com tinta de origem duvidosa. Cercada por barbante
conhecido, usado para fins educacionais, não devia ser pisada,
traria poeira a residência do morador estagnado na vida.
As árvores da pequena floresta não precisam mais encolher
de medo de um ataque repentino de destruição, na calada
da noite. Ataque, quando o proprietário do terreno se encontrava
viajando. O dito homem, sem autorização, cerrou muitas
das árvores e dos galhos, segundo ele, responsáveis
pela sujeira e pela sombra projetada na sua casa, construída
a Leste.
Casa essa mofada, sem janelas no lado Leste, ou no Oeste, com um enorme
muro ao Norte bem próximo da parede, as janelas voltadas para
o Sul sempre fechadas. Ainda para complicar com uma enorme caixa d´água
no sótão. Como o Sol podia entrar na propriedade?
As árvores estraçalhadas, com tristeza as crianças
assistiram as galhadas serem consumidas por uma fogueira. Verdes ainda
com a seiva escorrendo, os frutos prontos para amadurecerem.
A fogueira feita na própria rua, quase na esquina. As labaredas
cresciam chegavam aos fios elétricos e, como que envergonhadas
perdiam altura. A seiva escorria, pareciam lágrimas silenciosas.
O fogo foi alimentado com combustível vivo das pobres árvores.
A certeza maior é a de saber que o próprio homem está
chegando ao fim. Está destruindo a si próprio. Além
de ser perigo para os que fazem da rua, uma passagem obrigatória,
as fagulha voavam atingindo todas as direções.
Foi necessário ainda consumir ar não mais puro, perfumado,
mas carregado de dióxido de carbono e por ironia devolvido
à natureza na forma de oxigênio para sem distinção
servir a todos até aos que não o merecem.
O dito morador cansou de fazer palestras nas escolas sobre cidadania
ressaltando os direitos individuais e da coletividade. Esqueceu-se
de praticar. A indignação dos moradores foi tamanha
ele representava uma autoridade constituída. Passou-se um longo
tempo. A floresta se refez.
Um certo dia... Ouve manifestações de euforia. Foi só
prestar atenção. As crianças, essas sim, as ilustres
cidadãs, donas natural da rua. Elas aqui nasceram. Os seus
olhos brilharam, elas brincaram no espaço público por
direito delas. Brincaram felizes, andaram com as bicicletas, sentindo-se
donas do mundo e aprendendo na prática lições
de cidadania. Conseguiram até jogar bola na rua, tal é
a tranqüilidade e quando sentadas no meio fio e, conversaram
alegres, são crianças felizes dando asas a imaginação.
Sábias ponderaram, "agora sim a rua é nossa".
Vejam o portão está aberto... as janelas também.
Podemos outra vez andar na calçada, caminhar com sossego na
bela calçada pintada, muito bem conservada, escovada, sempre
limpa, sem folhas ou poeira, cheia sim de detergente.
A Travessa Constante Andreatta pode outra vez ser um lugar tranquilo,
após a partida do cidadão destruidor, sem consciência
ecológica. Além de lhe faltar conhecimentos práticos
de engenharia, pensava ser ele o dono do mundo.
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