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Edith
Lobato
Itaituba
/ PA
Por
um olhar
Hoje me sinto assim. Estou num daqueles dias em que a alma chora silenciosamente
e o pranto escorrega pela ladeira do coração, mas ninguém
olha, ninguém se importa. Todos estão muito ocupados
para notar alguma coisa dentro de mim e, bastava um olhar, bastava
apenas um olhar para minha alma, para saber como verdadeiramente me
sinto.
Incontestavelmente, as pessoas mais próximas de nós
só acabam, de fato, nos vendo quando tudo o que resta de nós
são lembranças. Quando já não podem olhar
em nossos olhos e dizer tudo que a falta de um olhar não permitiu
que fosse dito ou visto.
Hoje, dentro deste meu casulo, olhando minha pupa agonizando para
quebrar as barreiras da tristeza, notei que as pessoas estão,
cada vez mais, alheias ao interior, à essência. Tudo
o que importa é a aparência em torno da qual gira algum
interesse particular.
Não sou viajante, nem tenho dinheiro para custear viagens,
mas confesso que viajo muito. Minhas viagens se dão na base
do meu olhar. Pelo meu olhar reparo e perscruto muitos lugares. Alguns
deles apresentam paisagens bonitas, alegres. Outros estão sobrevivendo
no deserto, o deserto da falta de carinho, da falta de um aperto de
mão, da falta de um sorriso, da falta de compreensão,
da falta de um elogio, da falta de um olhar.
Não aquele olhar onde os olhos se fixam no objeto e apenas
apreciam ou rejeitam a aparência. Mas aquele olhar que transcende
e repara. Aquele olhar que ler silenciosamente os menores sinais.
Aquele olhar que enxerga, captura e registra, no silencio da visão,
o que está encoberto, oculto. O ato de olhar deve ir além
do que se enxerga à frente dos olhos, ele ultrapassa os limites
físicos da visão, ele busca o sublinear.
Na maioria das vezes, as pessoas nunca olham a nossa alma, elas veem
apenas o perfil, este perfil que o tempo talha, molda, segundo as
vontades da sociedade, ou, segundo as idiossincrasias de cada um.
O ato de ver se compara a um corisco, quando em noites de tempestade,
mergulha no útero da noite e não dura mais que alguns
segundos.
Neste ponto de minhas reflexões e, ainda com meu ser completamente
em alfa, visualizei a face de muitos adolescentes que, hoje, se enveredam
por caminhos pedregosos e, os pais só vão descobrir
que seus filhos estão correndo risco quando eles já
se encontram atolados na areia movediça. Então, eis
aí o drama: os filhos tinham tudo, nada lhes faltava. Quando
um casamento resulta em separação e no meio existiu
traição, eis a justificativa: ele ou ela era tão
bom, como pode fazer semelhante coisa?
Não obstante, vaguei o olhar pela minha rua que se encontrava,
neste momento, silenciosa. Fiquei olhando para ela. Levei meu olhar
por cima dos telhados das casas, observei a construção,
a ornamentação de suas fachadas, e então, pensei:___
não sei quem são. Não os conheço, nem
mesmo sei o nome de nenhum deles. Todo dia eu passo nesta rua quando
me encaminho para o trabalho, às vezes, vejo um e outro, também
de saída para as suas obrigações, mas a grande
diferença é que sempre nestes momentos eles estão
entrando em seus automóveis, enquanto eu estou a pé.
Nestas ocasiões, um pensamento me corta os neurônios
gritando lá do fundo da gruta que, se este vizinho cair em
desgraça ele vai me ver, mas não vai me olhar. Assim,
vamos seguindo a caminhada e vivendo a vida, vendo mecanicamente as
coisas, e se arrependendo por não ter olhado com mais cuidado,
com um pouco mais de sensibilidade.
Muitos erros, muitas separações, muitos descaminhos,
muitas solidões, muitas tristezas, muitos suicídios,
muitas traições, muitas lágrimas e muitas escolhas
poderiam ser diferentes e apaziguadas pela constância de um
olhar. Se amo preciso olhar o meu amor no todo, e não apenas
no prazer e na conveniência de sua presença; se quero
um amigo preciso olhá-lo para que eu realmente possa ser amigo;
se quero educar preciso mais do que os conhecimentos sistemáticos
para ser educador. Se desejarmos ser pais precisamos mais do que óvulos
e espermatozóides para nos chamarmos pais.
Quando eu me coloco na posição de águia, posso
prover a mim e a outrem a oportunidade de uma nova perspectiva, ou,
quem sabe, de uma luz para um labirinto escuro. Apenas um olhar é
o bastante para descobrir o estrangeiro que habita no outro. Um olhar
apenas, apenas um olhar!
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