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Ronaldo Honorio
Rio de Janeiro / RJ

Memórias



Foi-se o tempo das águas límpidas, onde podíamos nos orgulhar de tamanha dádiva que nem o Tâmisa, em Londres, ainda em fase de uma profunda limpeza de mais de uma década, possuía. Os peixes que trazíamos para casa, com orgulho, e as estórias mais incríveis que se tornaram apenas restos de páginas amareladas pelas memórias da infância. Foi-se o tempo das brincadeiras por entre as plantações de mandioca, nas terras extensas e de cor escurecida, cultivadas pelos japoneses que haviam chegado ao começo do século XX e das nossas interações diplomáticas nas mais ingênuas e habituais brincadeiras de infância.

E assim foram-se todos os tempos. O do tempo integral na escola da rua, que tem como patrono o Japão, por razão da colônia nipônica que aqui se instalou antes do nascimento de meu pai. Dos alemães, vindos durante e após a Segunda Guerra, para terem a devida paz numa terra que recebia a todos como irmãos e das meninas bonitas com seus sotaques tão impetuosos. As estórias de fantasmas, de discos voadores, do senhor sexta-feira 13 que virava lobisomem em noites de lua cheia, de certa vizinha que praticava bruxaria e que, segundo muitos, possuía um caldeirão em seu porão. Uma vez encontramos um sapo verde, desses gigantescos com a boca costurada – e lá fomos nós, pequenos aventureiros, descosturar a boca do pobre batráquio e retirar de dentro o nome de um moribundo qualquer que agora ia ter a chance de escapar daquela poderosa maldição. Foram-se... Foram-se todos aqueles tempos.

Os tempos do mágico primeiro beijo na boca, furtivo, escondido sob o olhar do luar. Os bailes com as músicas mais belas de todo o mundo escritas especialmente para todos nós sonhadores. O primeiro amor do qual nunca mais ouviríamos falar. A primeira bola dente de leite, tão leve que até para marcar um pênalti era difícil tarefa. As disputas de bola de gude naquele rastro de terra sagrado para todos nós. As estórias que contávamos nos jameloeiros ou entre à sombra dos mangueirais e a magia da natureza entre os eucaliptais, onde o leito da terra seca, mas aprazível, sob um céu com um azul que nunca mais veríamos, era testemunha de nossos sonhos para quando adulto fôssemos um dia...

Nas ruas, gente desses tempos, que partiram para sempre, hoje caminham alheios aos sonhos guardados apenas por aqueles mais nostálgicos; nas ruas, gente de outros tempos que se perguntam do porque do nome daquele local que se chama eucaliptal – mas, ora, não existem mais eucaliptos ali. Nem mangueiras, nem jameloeiros e nem o céu é tão mais azul. Os rios são valões negros, a inocência do primeiro beijo para toda essa gente é mera estória sem sentido de tempos que éramos ingênuos.

Talvez ainda sejamos ingênuos diante da face da morte dos tempos por onde escoam os nossos sonhos mais puros. Ingênuos diante da grandiosa ideia de que a beleza, a harmonia e a paz mágica de nossas vidas possam estar nas mãos de outro que não sejamos nós mesmos. Ingênuos, em mutação para a grande maldade de não acreditar que a tradição da preservação daquilo que mais nos ama, deva apenas ser material para a nossa sobrevivência; quem mais nos ame, precisa tanto de nosso amor quanto o tanto que nos oferta. Um amor que escoou pelos tempos de nossas memórias, pelos contos de nossas estórias e que hoje é apenas história de um saudosista que caminha nas ruas alheio a toda essa gente.

 
Seleta de Crônicas - Minha Rua, Minha Gente - Edição Especial - Abril de 2009