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Giulia Dummont
Ribeirão Preto / SP

Lufadas julhinas



Ah! Os bons ventos do mês de julho...

Estão quase de volta e fazem-me retornar aos tempos idos, à minha infância feliz. Acabara de descobrir o prazer da leitura e, mesmo sendo um período de "vacas magras" na minha família, os nossos presentes - de minha irmã e meu - eram os livros. Presenteados por mãe, pai, tios e avós, nas datas de aniversário, páscoa, natal e ao término do período letivo, se as notas fossem boas.

Assim conheci o escritor Monteiro Lobato e a sua coleção infanto-juvenil, recebida ao longo das datas comemorativas, com direito a dedicatória daqueles que nos presenteavam com os livros. Todos os personagens de Lobato, cada qual com sua característica, foram, de algum modo, importantes para a minha formação, quer pelo seu caráter, quer pelo conteúdo didático dos livros. Ali descobri a história, a geografia, a astronomia, a mitologia - de todas, a minha predileta - e desenvolvi o gosto pela (na época) difícil gramática e pela fantástica matemática. Mas o que muito agradava era poder viajar no reino da fantasia, nesta incluindo o fabuloso país do folclore.

Lembrei-me de tudo isso hoje, pois apesar de não estarmos em julho, o dia apresenta-se como cenário perfeito, aos moldes daquele descrito nos livros tão amados - céu azul claro de doer os olhos, sequer um farrapinho de nuvem e com vento - possante e pulsante - indispensável para o surgimento do personagem que me encantava: o Saci-Pererê!

Nos idos da minha infância, mal entrava o mês de julho, ficava à espera do dia propício: vento não muito forte, soprando em rajadas que varriam a rua para lá e para cá. De tempo em tempo, a formação de um redemoinho onde, segundo meus livros, residia um saci. Para pegá-lo necessária uma peneira das bem largas, daquelas utilizadas para peneirar farinha de mandioca. Pois bem: peneira em punho, passava o dia à cata do tal do saci. Qual nada... O danado sempre fora mais esperto do que eu e a peneira voltava para casa vazia, vazia.

Após um tempo (a gente amadurece e abandona as fantasias... ou será que elas é que nos abandonam?) compreendi que a lenda só existe lá mesmo, no reino da fantasia (e nos livros, também!), terra essa mais do que necessária para abrigar os nossos sonhos de criança.

Hoje, já sexagenária, a natureza brinda-me com um daqueles lindos dias, como os de julho: céu azul claro de doer os olhos, nem um fiapo de nuvem, e o vento - idêntico ao de outrora - a varrer, ondulante, a poeira da rua para lá e para cá. De repente, uma surpresa: redemoinho perfeito, daqueles com funil em forma de "S", a se esgueirar num canto do meu quintal!

Sequer precisei da peneira. No miolo do redemoinho uma figura conhecida, que habitara o meu mundo de fantasia: com seu gorro vermelho, cachimbinho no canto da boca, lá estava o gurizinho de uma só perna, que tantas e tantas vezes perseguira. Com um aceno, o danadinho sorriu-me, piscou o olho e evaporou-se no ar, assim que desfeito o redemoinho, deixando-me a grata sensação de que o mundo da fantasia ainda reside dentro de mim, permitindo-me ser, novamente e por instantes, uma criança feliz.

 
Seleta de Crônicas - Minha Rua, Minha Gente - Edição Especial - Abril de 2009