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Josafá
Gomes Pereira
Cáceres
/ MT
Visões
de mulher
Vi uma mulher hoje, andando pela rua. Olhava de um lado para outro,
como quem procura algo, como se alguém a tivesse observando.
Era não muito alta, morena, de uma pele tom chocolate... Já
a vi outras vezes, vestido curto, deixando exposta suas coxas que
são um pouco grossas, bem torneadas, cor uniforme, cintura
um pouco acentuada. O vestido que usava era de alça, solto,
leve, que lhe dá um ar peculiar. sempre está caminhando
como quem vem do Calçadão Beira Rio em direção
à Praça Major João Carlos. Caminha pelo centro
comercial da cidade como quem conhece exatamente o percurso que fará
todas as manhãs.
Outro dia saia de uma lanchonete, ambiente requintado, trazia em uma
das mãos uma lata de refrigerante geladinho, na outra um salgado
suculento, provavelmente de primeira linha. Comia tranqüilamente
saboreando seu salgado e seu refrigerante.
Despreocupada, tranqüila, aliás está sempre sorrindo,
atravessa a rua tranqüilamente e o trânsito pára
quando a mulher passa, tão livre quanto um pássaro.
Mas hoje a vejo diferente, não caminha pela calçada,
está na avenida. Não trás o vestido de alça
solto e leve. Está metida em uma camiseta e um short curto,
mais curto que o vestido de outro dia e transparente, vê-se
todas a s curvas do seu corpo. Está séria, preocupada.
A angústia está estampada em seu rosto, queimado, castigado
pelo sol de todos os dia, suja, sempre a vi assim, suja, mas agora
é mais e isto a incomoda de uma forma inquietante.
Não há sensualidade nessa mulher que vejo hoje, aliás
nunca a vi sensual, sempre desgovernada a perambular pelas calçadas,
bêbeda, errante.
...
De onde vem não sei. Talvez de algum lugar onde tenha passado
a noite ao relento. Para onde vai, também não sei. Provavelmente
para lugar algum, talvez para algum lugar onde lhe dêem outra
lata de refrigerante sem gás, vencida, ou um salgado daqueles
que sobraram de ontem, pouco importa, que se vá o mais rápido
possível, que pare de incomodar.
Perdida, desprovida de lar, de alguém que a apóie, de
um lugar onde repousar, relaxar. Não vive, apenas caminha sem
sentir que a vida passa, passam todos sem vê-la, ou simplesmente
ignorando-a, só o que não passa é a angústia,
a solidão.
...
É assim que a vi hoje. Sentada, como quem cansada de caminhar,
exausta, desfigurada pelo calor infernal. Está sentada no canteiro
que divide a avenida, pernas entreabertas e estendidas pela via dos
ciclistas, os braços dispostos um pouco afastados sustentam
o tronco que, um pouco inclinado para trás permite que se veja
todas as formas do seu corpo, seios salientes, quadril.
...
Se olha, como quem se admira, como quem se acha... Não! Olha-se
sim, mas assustada, apavorada! Observa entre suas pernas algo a incomoda,
não usa absorvente, e o pedaço de pano que usa está
saturado manchando assim o short branco e já escorre pela perna.
...
Foi a última vez que a vi.
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