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Larissa Nascimento Sátiro
Feira de Santana / BA

A cantiga



"Eu morava na areia, Sereia. Me mudei para o sertão, Sereia..." As crianças brincavam suas cantigas e a mulher descia a rua com a roupa na cabeça. E no corpo uma tira de chita. Negra, velha muito mais do que era... Tive a impressão de que se chamava Chica. E lá vinha ela a desfilar naquela passarela de asfalto, que de tão reta e lisa parecia desequilibrá-la. Antes caminhasse numa corda bamba... era o que eu sentia.
As crianças preferiram brincar de "picula", "pega-pega", "pique-esconde", como queira. Mas para mim, elas estavam "pegando picula". Corriam tanto... sem rumo; corriam umas das outras. E no meio da correria, a mulher da trouxa também corria. Talvez de si mesma. Não olhava para nada. Para lugar nenhum. Por que talvez nada visse; ou não queria. Talvez se chamasse Maria. Mas de que isso importava? Talvez não houvesse mais ninguém que a chamasse.
Se eu quisesse chamá-la... como faria? Diria: "Ei!", ou se não: "Tia!". "Mulher!" Isso não. Não diria. Muito menos Maria, porque certamente não me importaria a verdade, mas só e tão somente com a vontade minha.
E lá ia ela triste pelo meio da folia. Andava já sem eira, Sereia. Se mudou lá do sertão, Sereia? Será que ainda sabe amar, Sereia? Ou anseia um aperto de mão... Ah! Sereia, você que vive no mar, mergulhada em ilusão, já ansiou chão ardendo ou ver cantar o azulão? Eu imagino que não. As crianças continuaram a cantiga. A mulher continuou a lida. E, meu Deus, a vida... porque não? Esse asfalto lhe fazia mal, eu pensava. Ela certamente imaginava o chão rachado do seu antes ribeirão.
Se um dia, Sereia, você passar pelo sertão, certamente vai ver as pisadas dela. Vai se lembrar do seu requebrado cadente, como uma estrela. Vai querer até fazer um pedido. Porque essa mulher que vai passando aqui na minha rua, embaixo da minha janela, só passa em corpo. A alma deve estar lá. E esse olhar perdido deve estar olhando com saudade para alguma estrada que deixou no lar em que morou um dia e que agora mora nela.

 
Seleta de Crônicas - Minha Rua, Minha Gente - Edição Especial - Abril de 2009