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Paulo Afonso dos Santos Tavares
Trindade / GO

A vida de nordestino não é fácil, não



Mais um dia passou, já faz quarenta dias que tive que abandonar a minha terra depois de vender meus bois, para buscar paz e felicidade em São Paulo com a minha esposa e meu filho de dois anos. Já estamos na metade do caminho, e a saudade já aperta o meu peito, mas tenho que ter disciplina, e ir adiante. Pois lá no sertão, já faz cinco anos que a última gota de chuva caiu. Fui criado lá, por isso que para mim é muito doloroso ter que abandonar tudo e ir para um lugar que nem conheço. Mais doloroso que tudo isso, foi ver a minha esposa ter que andar mais de dezoito quilômetros, para buscar água no rio. Até que chegou um dia que essa água acabou. Vi meu filho passando sede e fome, pois a lavoura morreu. Eu consigo ficar sem comer, mas não consigo ver as pessoas que eu amo sem comida.

Tive que criar coragem e disciplina, para vender tudo e fugir da seca à procura uma vida digna em São Paulo, para mim, e para a minha esposa e filho.

Com um pouco de dinheiro que ganhei das três ultimas cabeças de gado, eu mais minha família estamos atravessado o sertão seco, os nossos chinelos acabaram, tive que pegar umas garrafas pet e amassar e fazer umas chinelas para mim e para a minha esposa, pois é humilhante, mas é o jeito; só assim posso dar um futuro para o meu filho.

Bem, hoje que faz quarenta dias de caminhada por esse sertão. Pedi um copo d'água para o meu filho em uma fazenda rica. Odono, de chapéu de coronel, foi logo olhando para as nossas roupas em fiapos e para as nossas chinelas de garrafas, e com uma cara de deboche, foi dizendo:
"O circo não fica aqui não, e não tem água para nenhum bobo da corte," e com o chicote nas mãos mandou a gente sair da sua fazenda.

Não teve outro jeito não, eu chorei muito. Eu sei que homem não deve chorar mas se até o Filho de Deus chorou. Meu filho me vendo chorando olhou para mim e disse, "Papai, nem todo mundo é um anjo como o senhor," e meu deu um beijo no rosto.

É isso que me faz o homem mais feliz do mundo, e me dá força para caminhar todos os dias. Com esses presentes de Deus meu lado e com as bênçãos do Divino Pai Eterno, a nossa vida em São Paulo vai ser outra. Amém!

 
Seleta de Crônicas - Minha Rua, Minha Gente - Edição Especial - Abril de 2009