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Fazendo um paralelo tortuoso
Definitivamente essa era a dúvida que ansiava por respostas e, por esse motivo, pesquisadores do mundo todo haviam tentado desenvolver teses enormes com a intenção de explicarem a origem desta incoerência. Para tal, documentos antigos haviam sido analisados, moradores seniores haviam sido interrogados e análises matemáticas realizadas. Nada, no entanto, foi capaz de fornecer uma explicação convincente para a população da cidade. Até que, um dia, bem no meio da turbulência de dúvidas dos moradores, nascera Maurílio. Foi ele quem descobriu a resposta. O garoto Maurilho, embora tivesse um nome excêntrico, não era conhecido na Rua da Amargura pelo seu belo nome. Nem mesmo ele sabia que se chamava assim, afinal, desde que se entendera por gente, se é que algum dia pôde ter se visto como tal, era chamado pelos moradores de "menino abortado". O garoto era franzino antes mesmo de começar a respirar e, desde aquela época, nunca tivera a oportunidade de ganhar muito peso. Jamais conhecera seu pai e não se lembrava do rosto da sua mãe. Ela morrera, ou o abandonara ou até mesmo realmente o "abortara" no meio da Rua da Amargura. Sendo assim, o menino praticamente cresceu sozinho, ou melhor, junto às flores que eram cultivadas naquele local. Quando o garoto era pequenino, tudo, de certa forma, parecia ser mais fácil. A realidade era, ou mais amena ou, pelo menos, mais maleável para ele encarar. Talvez a ingenuidade o protegesse. Para sobreviver o "menino abortado" pedia esmolas aos moradores e aos visitantes da Rua da Amargura. Estes, no início, sempre se solidarizavam com a problemática situação da criança e, assim, faziam pequenas contribuições para o mesmo. Mas aí, aí o garoto foi crescendo. E enquanto crescia, uma sensação nunca compreendida, porém, mesmo assim sentida, foi se desenvolvendo junto dele. E, embora desconhecesse aquele sentimento, sabia que não se tratava de amor. Além disso, a dificuldade para conseguir dinheiro foi se tornando mais elevada, uma vez que era mais complicado para um menino crescido conseguir esmolas. A situação foi fazendo com que o sentimento desconhecido se tornasse insustentável e, por isso, com a intenção de ameninzá-lo e de conseguir sobreviver, Maurílio começou a se auto alucinar diariamente. Assim sendo, logo apareceram os pequenos furtos de ilusões e, com eles, as inconveniências para a Rua da Amargura. Foi então que os moradores do local, amedrontados com o que o "menino abortado" se tornara, fizeram uma emboscada para prendê-lo. E assim, sendo pego furtando, o menino, já adolescente, foi levado a delegacia, localizada na Rua da Amargura. No dia posterior da prisão do "aborto", foi dado início ao seu julgamento. O processo de acusação contra o réu era imenso e, certamente, se fossem seguidas as leis do país demorariam dias para que a sentença fosse executada. Infelizmente, não era assim que tudo funcionava na Rua da Amargura, uma vez que a mesma tinha suas próprias leis e executava seus próprios julgamentos, sem ter que dar explicações a instâncias superiores. Assim sendo, o processo do "aborto" foi realizado ao ar livre, na própria rua em que o menino crescera, pois não havia espaço suficiente na delegacia, uma vez que uma multidão compareceu na mesma com a intenção de acompanhar a sessão. O frio era quase insuportável naquele dia, o qual percorria nucas humanas tentando fazê-las arredar o pé dali. Uma chuva fininha, porém persistente, também banhava os espectadores. Até Maurílio, algemado em um canto do circo armado para seu julgamento, acostumado a sentir a frieza da Rua da Amargura, estava, na ocasião, tremendo de frio e, é claro, de medo também. Ao lado do "menino abortado estava à acusação, cheia de fotos, imagens, enfim, cheia de provas contra o garoto. Diversos moradores vitimados pelo menino também haviam dado seus testemunhos. E olha que, de vítimas, a sessão estava cheia. As histórias contadas pelos acusadores, das mais diversas formas e entonações, realmente pareciam convincentes. O lado da defesa estava vazio. Maurílio, o "menino abortado" ficou daquele lado sozinho, pois nenhum dos moradores se alistara para defendê-lo. E ele, como não era muito comunicativo e nem estudado, não teve nem voz e nem vez perante seus inquisidores. Com o término dos trabalhos da acusação, a população deu sua sentença final e, conforme previsto, "o aborto" foi condenado. Sendo assim, passou anos e anos na cadeia, na Rua da Amargura, com o endereço fixado no número 777. Anos mais tarde, como os moradores não haviam descoberto o motivo da rua se chamar Amargura, resolveram fazer um plebiscito com a intenção de trocar o nome da mesma. Afinal, definitivamente, este nome não combinava com as flores que lá eram, todos os dias do ano, plantadas. Maurílio, durante o plebiscito, ainda na cadeia, era o único que achava que o nome da rua não deveria ser, sob hipótese alguma, alterado. Afinal, se lhe dessem mais tempo, se o deixassem sair dali, ele mesmo iria fornecer a resposta e provar a veracidade de sua teoria perante a população da sua rua. Se assim o permitissem fazer, certamente compreenderiam o motivo dela possuir esse nome. Até mesmo já estava tendo algumas idéias para iniciar seus trabalhos. Mas os moradores não lhe deram crédito e muito menos tempo. Fizeram o plebiscito e, dentre várias sugestões de nomes, venceu aquele que tinham relação com o nome de uma santa qualquer. Somente muito tempo depois, quando Maurílio finalmente saiu da prisão, é que ele teve a oportunidade de realmente provar porque a Rua da Amargura era assim chamada. Mas aí, aí já era definitivamente tarde demais... |
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de Crônicas - Minha Rua, Minha Gente - Edição
Especial - Abril de 2009 |