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Recordações de minha gente
Minha gente era humilde, solidária, cordata, amiga, e todos tinham a mesma história de um passado sofrido, mas eu era feliz. Brincadeiras de rua havia; era bola que quebrava a vidraça do vizinho, era o pique-esconde, o rodopiar de um pião a furar o solo duro de um barro vermelho, era o empinar de um papagaio ao vento, assim era a minha infância. Na porta das casas cadeiras e conversas numa noite quente de verão. Minha gente contava causos, fofocas e banalidades. Hoje tudo mudou, o chamado progresso chegou veloz, o som é outro, o da violência, dos carros que passam com seus vidros fechados em alta velocidade, como donos da rua de minha gente. Falta espaço para as brincadeiras, a pipa voou, o pião ficou sarapa no asfalto, a bola foi esmagada por rodas que deixaram marcas de freiada no asfalto negro da esperança, falta espaço para brincar, A tecnologia venceu a inocência da vida. Minha gente hoje é triste, cabisbaixa, enclausurada sob as grades de suas casas. Olhando
pela janela, vejo minha rua que não tem mais gente. |
| Seleta
de Crônicas - Minha Rua, Minha Gente - Edição
Especial - Abril de 2009 |