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Ismar Carpenter Becker
Rio de Janeiro / RJ

Recordações de minha gente



Nasci, cresci num subúrbio qualquer, rua calma, pacata, onde o amanhecer, o apito da velha fábrica me despertava para um novo dia; e lá ia eu para a escola, com a cabeça povoada de sonhos e incertezas. Minha rua tinha pouco movimento, sem asfalto, iluminação precária, cachorros vadios que perambulavam sem rumo, ao longe o barulho do cavalo de ferro, pressionando os dormentes frios, inertes que de nada reclamavam sob o sol ou sob a chuva fria e fina de um inverno qualquer.

Minha gente era humilde, solidária, cordata, amiga, e todos tinham a mesma história de um passado sofrido, mas eu era feliz. Brincadeiras de rua havia; era bola que quebrava a vidraça do vizinho, era o pique-esconde, o rodopiar de um pião a furar o solo duro de um barro vermelho, era o empinar de um papagaio ao vento, assim era a minha infância. Na porta das casas cadeiras e conversas numa noite quente de verão. Minha gente contava causos, fofocas e banalidades.

Hoje tudo mudou, o chamado progresso chegou veloz, o som é outro, o da violência, dos carros que passam com seus vidros fechados em alta velocidade, como donos da rua de minha gente. Falta espaço para as brincadeiras, a pipa voou, o pião ficou sarapa no asfalto, a bola foi esmagada por rodas que deixaram marcas de freiada no asfalto negro da esperança, falta espaço para brincar, A tecnologia venceu a inocência da vida. Minha gente hoje é triste, cabisbaixa, enclausurada sob as grades de suas casas.

Olhando pela janela, vejo minha rua que não tem mais gente.

 
Seleta de Crônicas - Minha Rua, Minha Gente - Edição Especial - Abril de 2009