Lívia Porto Zocco
Ribeirão
Preto / SP
Mudança
de brincos
Entre tantos afazeres, abrir a gaveta do criado mudo para procurar
um par de brincos era tarefa que quase nunca era realizada,
o que fazia com que os brincos de sua orelha permanecessem sempre
os mesmos durante meses.
Sempre ocupada, com pressa ou cansada, organizava sua vida de
modo a não precisar usar o conteúdo das gavetas
dos móveis, principalmente do criado-mudo. Abri-las sempre
a atrasaria para algum compromisso.
A noite, quando já deitada para o merecido descanso,
após um dia muito atarefado, às vezes vinha-lhe
a lembrança da gaveta do criado-mudo: basta que eu estique
o braço...vire um pouco o corpo, e depois levante a cabeça.....
Mas logo desistia da idéia, já estava sonolenta,
e dormindo, não precisaria de nada do que havia lá
dentro. Mas o que havia lá mesmo? Será que os
brincos prateado e verde estariam lá? Preciso abrir essas
gavetas qualquer hora...
E os dias passavam. O criado-mudo lá permanecia, ao lado
da cama, parado, quieto e ressentido dos segredos que pensava
guardar não serem do interesse de ninguém. Nem
ao menos de uma ligeira espiada era digno. Injusta sina para
um móvel tão famoso.
Mas eis que um dia, algo inusitado aconteceu. A mulher não
parecia ter pressa. Acordou preguiçosamente, e, sob o
olhar curioso do criado-mudo, colocou uma música, guardou
as roupas jogadas sobre a cadeira, separou as limpas das que
precisavam ser lavadas, arrumou a cama meticulosamente e guardou
os sapatos espalhados pelo chão na sapateira. Ao mexer
nos colares misturados sobre o tampo desta, o olhar da mulher
virou-se em direção ao criado-mudo, fazendo com
que o ressentido e oco coração do resignado móvel
pulasse dentro de suas gavetas. Ele tentou controlar-se, mas
a emoção de ser finalmente notado era muito forte.
Até hoje não ficou sabendo se ela percebeu que
seus puxadores tremiam, que seu fundo balançava e que
seus trilhos suavam! Mas manteve-se firme, altivo, parado e
mudo, como todo criado-mudo de respeito deve ser.
A mulher aproximou-se dele, abriu sua primeira gaveta. Procurava
algo. Remexeu em vários objetos e voltou a fechá-la.
O coração do pobrezinho, que durante esse ato
quase parou de tanta emoção, iniciava um suspiro
aliviado quando ela, aquela que outrora o ignorara tão
displicentemente, resolve repentina e inusitadamente, abrir
a sua segunda gaveta.
Demorando-se mais nessa, pegou objetos, abriu saquinhos de tecido,
revirou outros e terminou por retirar de uma caixinha de veludo
vermelho, um par de brincos prateados com pedras verdes. Depois
da reviravolta executada no interior de sua segunda gaveta,
podemos imaginar o estado físico e emocional do nosso
amigo criado-mudo!
Estava em frangalhos, mas saciado! A emoção havia
sido tanta que ele, que já não era mais tão
jovem, resolveu aposentar-se, pois não tinha mais idade
para tantas aventuras interiores, apesar de tê-las desejado
ansiosamente durante todo o período em que havia sido
relegado ao desprezo.
E assim, nosso imóvel amigo móvel aposentou-se,
feliz e realizado, da sua longa e respeitável existência
como criado-mudo.
…............
...............
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Hã?
Você não sabe como um criado-mudo se aposenta?!?
Oras, ele simplesmente permanece... mudo... ao lado da cama.