Lilian
Souza de Araujo
Anápolis
/ GO
Sem
pressa
Ah, eu estou me sentindo meio descrente
da vida, sabe? Com meu corpo sedentário sobre a cama
por horas a fio, e já quase atrofiando a alma.
Estou com vontade de fugir de tudo que é urbano. Esquecer
os fios conectores, o Bluetooth, Ipods, ou qualquer coisa que
tenha teclas, ou telas, ou façam qualquer som frenético.
Vontade de deixar esse mundo que se tornou tão aflito,
e que tem sempre muita pressa. Onde tudo é manejado por
um apertar de botões. Meus ouvidos estão feridos!
Estou com sede de terra molhada, de sentir o aroma de grama
amassada, de formiga esmagada, enquanto o único som que
se possa ouvir seja dos pássaros lutando no ar, numa
dança de acasalamento, paz e alegria; que seja o som
das cortadeiras picotando suas folhas e marchando por entre
os trieiros, como se fossem soldadinhos; que seja o som dos
estalidos dos gravetos que se desprendem das árvores
ou do bico das passarinhas que ajeitam maternalmente o ninho
dos seus filhotinhos. Quero ouvir o som das águas batendo
contra as pedras e fazendo esculturas infinitas.
Quero adentrar-me no rio e me deixar levar pelo seu leito tortuoso,
e sentir a água me abraçar, e a brisa me acariciar.
E ir percorrendo o seu caminho sem pressa. E ter tempo de observar
o céu azul claro, e uma diversidade de aves cortando
o seu espaço, todas leves e belas, alheias ao meu observar.
E sentir o sol bater intermitente no meu rosto, entrecortando
os ramos das matas ciliares que circundam o rio onde meu corpo
boia, como uma pluma, feliz!
E assim continuar percorrendo juntos às águas,
caminhos que eu nunca conheci, até que o dia seja noite.
E sentir agora os dedos enrugados, e o bater das minhas mandíbulas
pelo frio do rio, e isso também me deixar feliz.
E me refugiar depois em uma das margens. Jogar meu corpo na
areia e ficar inerte. Observar cuidadosamente que o céu
trocou sua roupa anil por saias alaranjadas, que pouco a pouco
vão se tornando azul turquesa, e salpicos como lantejoulas
vão lhe sendo cosidas, em forma de estrelas.
E no frio acolhedor da areia me deixar ficar um pouco mais,
e notar que os sons também se transformaram. Agora, o
bater das asas dos pequenos passarinhos silenciou. Dormem aconchegantes
em seus galhos e ninhos. E as cortadeiras também foram
descansar. Ainda estalam os pequenos gravetos que se desprendem,
e o som das águas escultoras também continua o
mesmo. Lentamente os anuros começam a reger a orquestra
do anoitecer: sapos; pererecas e rãs, “gritam”
e saltam desenfreadamente, como se quisessem alcançar
os pirilampos piscantes pregados à grande teia que é
o céu, e assim, comer uma a uma, cada estrela.
Estou com sede dessa paz que há muito não sinto.
Estou com medo de jamais torná-la a sentir. Presa na
cadeia Cidade-Grande, onde os sons são sempre de botões,
buzinas, palavrões e, acima de tudo, de pressa. Muita
pressa.