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Ref. 001 Anda batendo nas horas Só quem não ama não sente Quando meu bem vai embora Quando meu bem me visita Se estou doente melhoro Repito a mesma doença Quando meu bem vai embora Minuto se parece hora Hora se parece dia Dia se parece ano Quando meu bem vai embora
Ref. 002 Escreveu para o presidente Que já está com o bico fino De tanto comer tenente Logo no primeiro fogo Morre genro, morre sobro
Ref. 003 - Que Jesus Cristo mandou; Santo Antônio Aparecido Dos castigos nos livrou! Quem ouviu e não aprendeu
Ref. 004 Oh! mães e pais, socegai Que a guerra está terminada! Já morreu o Conselheiro Acabou-se a jagunçada! Esta horda de bandidos Fanáticos e traiçoeiros, Afinal foram batidos Pelos soldados brazileiros (...) Ref. 005 Escapa, escapa soldado Quem tiver perna que corra Quem quizer ficar que fique Quem quizer morrer que morra Há de nascer duas vezes Quem sair desta gangorra. (...)
Ref. 006 Entre o espanto glacial da tropa que, sentida, Se ajoelha ante o seu corpo heróico e ensangüentado... Tinha tanto valor na luta enraivecida Que parece que a morte iníqua respeitava, Deslumbrada de assombro, aquela nobre vida. Quando a luta era mais aterradora e brava, Ele, em meio à fumaça escura, aparecia, E, entre as balas e o horror, intrépido, passava... A tropa, eletrizada, ao ver-lhe a galhardia E a bravura sem par, colérica e ofegante, O seu vulto sereno, a delirar, seguia. E então -- que frenesi ! O prélio nesse instante redobrava de fúria; o ronco da metralha era maior, E o chão ficava flamejante... E ele, calmo, afrontando a raiva da batalha, Ia a força contrária, altivo, rechaçando, Bem como o furacão que as árvores desgalha. Jamais alguém o viu estremecer ... e, quando o combate horroroso e incerto ia crescendo, Sempre o viam tranqüilo, as forças animando. E, se desembainhava, entre o rugido horrendo Dos canhões, a espelhante espada gloriosa, Dir-se-ia ter nas mãos um facho resplendendo. Sempre foi vencedor ... a sua valorosa voz jamais ordenou, cheio de medo e espanto, Uma só retirada ou fuga desastrosa. Assim o batalhão pungido chora tanto Porque afinal morreu aquele que era forte como o oceano, tendo um coração de santo... Lamenta o que jamais tremeu diante da morte, Até ver o adversário entregue e prisioneiro Ante o enorme valor de sua audaz corte. Se era brando na paz, ficava sobranceiro Na guerra, e, sendo assim, nele os soldados viam A um tempo, um comandante, um pai e um companheiro. Há pouco, entre o rumor das balas que zuniam, Ele passava, quando um tipo violento o matou; E, ao olhá-lo assim, todos sofriam. Por isso o batalhão, neste cruel momento, Pensa vê-lo surgir do chão onde descansa, Tendo a espada nas mãos, como um deslumbramento... Ergue-se a radiar, e, glorioso, avança Com a mesma intrepidez que tinha na peleja... Mas, vendo prisioneira uma gentil criança, Curva a fronte, e, chorando a sua face beija.
Ref. 007 (...) Entre as gentes dos jagunços Alguns havia de saias, Metidos de serra acima Enfurnados nas tocaias, Era impossível matá-lo Sem levar algumas vaias (...)
Ref. 008 (...) As mulheres a rezar o dia inteiro Outras no tecido de fiar algodão Os homens a tombar pedras dos montes Outros se embrenhavam no sertão, A procura de casca e de madeira Por cima das maiores cordilheiras Plantavam milho, mandioca e feijão (...)
Ref. 009 (...) Canudos! pra te contar Só Norberto e Pajeú!... Vencida - não te rendeste Sob massacre - te ergueste Sobre a surucucu! (...) Ref. 010 Eram os 2 vensidores Qo. viam ao Bello Monte Como raros abrazadores Mais ozurubu comeo Estes cabras matadores
Ref. 011 Do céu veio uma luz Que Jesus Cristo mandou Sant Antônio Aparecido Dos castigos nos livrou Quem ouvir e não aprender Quem souber e não ensinar No dia do juízo A sua alma penará
Ref. 012 No cano da espingarda, A bala acesa voa Varando o ar, a farda, Um homem cai a frente, Avança a retaguarda, E novamente o olho Aponta a espingarda. O olho não recua Medindo a pontaria, Enquanto o outro, aberto, Olha em redor, vigia. Por entre as moitas bravas Um olho ao olho espia Medindo o medo o espaço O tempo e a pontaria. (...) A tropa avança o passo Mas de repente estanca E luta com a caatinga Jagunça, que se tranca. Mas dentro da caatinga Qualquer lâmina branca Encontra um peito e a vida Dentro da morte estanca O olho então descansa Da pontaria e saca Do cinto e da bainha A lamina da faca. A mão, não mais o olho, Enfrenta a tropa, ataca, E veste outra bainha Na lâmina da faca A tropa não recua E o olho volta a mira, De novo a espingarda Aponta um peito, atira, Um grito ecoa, um corpo Cai sobre a terra, gira, A morte acende o ódio E o ódio volta a mira. Ecoa um novo tiro Mais outro se repete, A tropa conta os mortos: Um dois três cinco sete. Depois há um silencio Mas nele se remete Um pássaro de chumbo E um grito se repete A tropa investe contra A caatinga e não acha Entre os quipás espessos O olho que se agacha. Punhais de macambira Impedem sua marcha, E o olho que se esconde Procura um alvo e acha. Porém já não dispara Espera um pouco, e cedo. E o olho que descansa No guarda-mato, o dedo, Conhece o fim da luta E desconhece o medo. (...) O olho espreita o olho E, como um cão, fareja O xiquexique o cacto Por onde a tropa arqueja. Sabendo o tempo exato E a hora da peleja, Se há rastro sobre a pedra O olho-cão fareja. (...) A tropa já não sabe Do tiro que se cala Do olho que se fecha Do corpo que resvala. E luta com o silencio Que na caatinga, sala, Ainda ecoa o tiro Depois que o tiro cala. No meio da caatinga O medo se levanta, A tropa, desfalcada, Recua e se amedronta, Mas ao tentar a fuga Olha ao redor, se espanta, Porque, dentro as juremas, O olho se levanta. E volta a mira aceso Feito um tição de fogo Ardendo na caatinga, Oculto, furta-fogo E a tropa se dispersa Em correria, afogo, Enquanto um cano aberto Vomita um sol-de-fogo A tropa rola exausta De fome e de cansaço, Fitando o sol que brilha No centro azul do espaço. O cerco dos jagunços Igual ao do cangaço, Se fecha, como a flora, Sem sobra de cansaço. E a faca novamente Rebrilha ao sol, se acende, E cava fundo o corpo Da tropa que se rende. A faca, brilho aceso, Rompe a caatinga e apreende A trilha e o sol da luta Escura, que se acende. O olho então descansa Do cano da espingarda, E a bala já não voa Varando o ara, a farda. Um homem surge a frente, Se arrasta a retaguarda, Enquanto o sol deflagra Seu olho de espingarda
Ref. 013 O direito de julgar Como tenho o meu também Com razão quero falar Nestes meus versos singelos Mas de sentimentos belos Sobre um grande brasileiro Cearense meu conterrâneo, Líder sensato espontâneo, Nosso Antônio Conselheiro. Este cearense nasceu Lá em Quixeramobim, Se eu sei como ele viveu Sei como foi o seu fim, Quando em Canudos chegou Com amor organizou Um ambiente comum Sem enredos nem engodos, Ali era um por todos E eram todos por um. Não pode ser justiceiro E nem verdadeiro é O que diz que o Conselheiro Enganava a boa fé, O Conselheiro queria Acabar com a anarquia Do grande contra o pequeno, Pregava no seu sermão Aquela mesma missão Que pregava o Nazareno. Seguindo um caminho novo Mostrando a lei da verdade Incutia entre o seu povo Amor e fraternidade, Em favor do bem comum Ajudava a cada um, Foi trabalhador e ordeiro Derramando o seu suor, Foi ele o líder maior Do nordeste brasileiro. Sem haver contrariedades Explicava muito bem Aquelas mesmas verdades Que o santo Evangelho tem, Pregava em sua missão Contra a feia exploração E assim, evangelizando, Com um progresso estupendo Canudos ia crescendo E a notícia se espalhando. O pobrezinho agregado E o explorado parceiro Cada qual ia apressado Recorrer ao Conselheiro E o líder recebia Muita gente todo dia, Assim fazendo seus planos Na luta não fracassava Porque sabia que estava Com os direitos humanos. Mediante a sua instrução Naquela sociedade Reinava paz e união Dentro do grau de igualdade, Com a palavra de Deus Ele conduzia os seus, Era um movimento humano De feição socialista, Pois não era monarquista Nem era republicano. Desta forma na Bahia Crescia a comunidade E ao mesmo tempo crescia Uma bonita cidade, Já Antônio Conselheiro Sonhava com o luzeiro Da aurora de nova vida, Era qual outro Moisés Conduzindo sus fiéis Para a terra prometida. E assim bem acompanhado Os planos a resolver Foi mais tarde censurado Pelos donos do poder, O tacharam de fanático E um caso triste e dramático Se deu naquele local, O poder se revoltou E canudos terminou Numa guerra social. Da catástrofe sem par O Brasil já esta ciente, Não é preciso eu contar Pormenorizadamente Tudo quanto aconteceu, O que Canudos sofreu Nós guardamos na memória Aquela grande chacina, A grande carnificina Que entristece a nossa história. Quem andar pela Bahia Chegando ao dito local Onde aconteceu um dia O drama triste e fatal, Parece ouvir os gemidos Entre os roucos estampidos E em benefício dos seus No momento derradeiro O nosso herói brasileiro Pedindo justiça a Deus
Ref. 014 E foi uma debandada. Abandonando armamentos, Jogando fora as peças Dos muitos equipamentos, Arriando as padiolas Dos feridos em tormentos Desapertando os cintos Pra correr desafogados, Errando pelas caatingas Em bandos desabalados, Uns oitocentos soldados Sem chefes apavorados (...)
Ref. 015 (...) Naquela terra eles plantam Mandioca, milho e feijão Criam carneiros e bodes Que agüentam o sol do sertão Trabalhando, a comunidade Reparte em igualdade A safra do mutirão (...)
Ref. 016 Andou no Vaza Barris Belo Monte e Curaçá Rosário, Várzea da Ema, Canudos e Uauá, Todos estes lhe chamaram De Santo do Ceará (...)
Ref. 017 Quem mandou Febrônio? Quem matou Antônio? Quem mandou Artur? Quem matou Pajeú? Levanta Pedrão O dia raiô, onde estás? Seus amigos A elite matou Fugiram e agora Só resta olhar Os campos de outrora Que eram floridos De paz e de glória
Ref. 018 Nisto, despontam, cautos, emergindo à ourela do matagal rasteiro e trançado de arbustos em esgalhos, na clareira, no alto, onde estaciona a artilharia, doze rostos inquietos, olhares felinos, rápidos, percorrendo todos os pontos. Doze rostos apenas de homens ainda jacentes, de rastro, nos tufos das bromélias. Surgem lentamente. Ninguém os vê; ninguém os pode ver. Dão-lhes as costas com indiferença soberana vinte batalhões tranqüilos. Adiante divisam a presa cobiçada. Como um animal fantástico, prestes a um bote repentino, o canhão Withworth, a matadeira, empina-se no reparo sólido. Volta para Belo Monte a boca truculenta e rugidora que tantas granadas revessou já sobre as igrejas sacrossantas. Caem-lhe sobre o dorso luzidio e negro os raios do Sol, ajaezando-a de lampejos. Os fanáticos contemplam-na algum tempo. Aprumam-se depois à borda da clareira. Arrojam-se sobre o monstro. Assaltam-no; aferram-no; jugulam-no. Um traz uma alavanca rígida. Ergue-a num gesto ameaçador e rápido... E a pancada bate, estrídula e alta, retinindo... E um brado de alarma estala na mudez universal das coisas; multiplica-se nas quebradas; enche o espaço todo; e detona em ecos que atroando os vales ressaltam pelos morros numa vibração triunfal e estrugidora, sacudindo num repelão violento o acampamento inteiro...
Vinte e cinco mil pessoas Morreram nestes conflitos só por causa do canhão eles foram os favoritos Canudos foi combatido Jamais será vencido Nos livros está escrito (...)
Ref. 020 Há milhares de casas levantadas Num grande mutirão glorificado! Nas choupanas que são edificadas, Habita o camponês recém-chegado... E as pessoas solidarizadas Já não aceitam qualquer potentado, Que pretenda fugir desse roteiro, Traçado por Antônio Conselheiro! Ref. 021 Atiradores de elite Nas torres da Igreja Nova De pontaria certeira Toda hora davam prova Soldado que ali passava Bem perto estava da cova (...) Moreira César então Vendo o combate perdido Galopou naquele rumo Pela raiva possuído Porém por certeira bala Acabou sendo atingido (...)
Ref. 022 Um povo livre e romeiro Descobre seu horizonte No açude Cocorobó Nem afogado nem só Canudos, sangue fecundo! Nós passaremos teu nome Da "Guerra do fim do mundo" Pra guerra do fim da fome
Ref. 023 Que a batalha não findou em 1897 Ela ainda sangra nos tabuleiros nordestinos Com a mesma pujança de 99 anos atrás Levanta Antônios, Marias Ritas e Pajeú O Bacamarte fervilha nas suas mãos Esperando os Moreira Cesáres da vida Que estão soltos por ai A grilar, a matar e a impor a lei do latifúndio LEVANTA CANUDOS
Ref. 024 Destruído palmo a palmo, o inferno dormente e calmo é como altar de fumaça pedido a Deus por clemência; pela dura experiência da falta de inteligência que gerou tanta desgraça! Vencidos e
vencedores Essa foi a triste história
Ref. 025 Uma história de facas, o ventre da seca destripado. A vida pelo avesso na defesa do milagre. A bandeira do delírio construindo a resistência na cidade. Paredes do divino, sinos, ladainhas do combate. Do meio da raleia congregada, a lição conselheira se espalha, invadindo as capitais: a balbúrdia do silêncio alucina. Ref. 026 Beato Paulo José João Macambira Filho O Antônio Vila-Nova Também caíram no trilho E o José Travessia Venâncio também um dia Da vida perdeu o brilho (...) |
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