| |
Andressa
Le Savoldi
Rio
de Janeiro / RJ
Algo
mais
Minha
mente vivia sempre absorta em meus próprios pensamentos. Meu
coração era apenas retalhos mal emendados. Minha alma
era um ser esquecido, dentro de um mundo real, que se punha a fugir
para um mundo imaginário. Até ele aparecer...
Não podia imaginar que, de repente, meu mundo mudaria por causa
de um simples encontro de olhares. No entanto, aqueles olhos, pareciam-me
familiares... Quem sabe, os vi em sonho.
É como se estivesse destinado a acontecer, naquele século,
naquela década, naquele ano, naquele mês, naquele dia,
naquela hora, naquele instante. Diferente disso, não ocorreria
e nem teria o mesmo encanto.
Foi mágico. Embora houver outros momentos mágicos na
vida daqueles que se encontram apaixonados, sempre quando acontece,
parece como se esse, que existe nesse instante, fosse único...
E a verdade é que é.
Meu coração havia batido daquela forma, com aquela intensidade,
apenas uma vez. E fora na infância, quando tudo era muito mais
bonito, verdadeiro, puro e enobrecedor, um amor além de qualquer
coisa, capaz de chorar um dia inteiro por um simples olhar rejeitado
da pessoa amada.
Não sei o que ele pensou quando meu olhar refletia no dele,
permanecendo fixo até sua imagem desaparecer. Ele poderia ter-me
ignorado, mas não. Em todos os olhares que dei, aqueles lindos
olhos permaneceram fixos aos meus. Fui correspondia como nunca houvera
sido antes, tanto que estrelas saiam destes olhos meus... Acredito
até que ele podia vê-las.
Não consegui esconder o que sentia, muito menos, a vontade
que parecia faiscar do meu olhar. Eu o queria, como nunca quisera
alguém, inexplicavelmente.
Queria saber quem era o dono daquela imensidão... Daquele verde-mar
e sol que me diziam tanto. Eu não sossegaria enquanto não
soubesse quem era ele. Não poderia se tratar de qualquer homem
para, sem ter feito nada, me tocar naquele jeito e prender, como numa
cadeia, a minha atenção. Eu podia sentir alguma coisa
que estava além do parecer. Algo mais por trás daquele
encanto, no mais profundo daquele ser. Eu podia sentir...
Meu corpo inteiro se arrepiou quando decidi e comecei a escrever um
poema, inspirado naquela alma, daqueles olhos que me diziam o inesperado.
Minhas mãos suavam frias. Eu tremia. Meu coração
batia rápido e descompassado. Eu o sentia comprimir meu corpo
como se quisesse saltar por minha boca, para fugir de um temor maior
que o de se apaixonar.
Eu nem conhecia aquele homem, e ele simplesmente me inspirou as mais
sinceras palavras de um amor desconhecido. Com uma coragem que só
meu sangue poderia descrever, disse-lhe ali que o queria. Falei da
vida e, ao mesmo tempo, dos meus sonhos, do desejo que eu tinha de
um amor que ama. E, na última chance que tive, evitei pensar,
apenas entreguei-lhe aquela folha de caderno, em mãos, já
com uma sensação de desmaio. Pensei que as minhas pernas
não me suportariam naquela hora, mas suportaram. Precisei de
alguns minutos para começar a me recuperar, devagar, o tremor
foi passando, as batidas diminuindo... Até ele aparecer novamente
dizendo o meu nome.
Pensei, agora, que o teto ia desabar sobre mim; cheguei até
a olhar para cima, mas, nada, permanecia intacto sem nenhum sinal
de rachadura ou instabilidade. Eu devia estar ficando louca, verde,
azul, vermelha. Queria um buraco invisível para me esconder,
mas era tarde. O que eu havia feito estava feito, não poderia
mais ser mudado e eu devia arcar com as conseqüências que,
na verdade, eu desconhecia e nem sequer esperava.
Os olhos dele, agora, pareciam diferentes ao me olhar, como se não
acreditassem. Eu apenas respondi com meu sorriso e meu olhar, agora,
tímido... Não sabia muito que fazer, eu ria alegre da
situação e, principalmente, por me encontrar absolutamente
desprotegida daquela coragem que me fizera, antes, desafia-lo.
Havia assinado o poema apenas com meu nome, motivo pelo qual fez-lo
vir até mim, mas não foi intencional, tudo aconteceu
naturalmente e espontâneo, o que era mais incrível. Tanto
que me despedi dando um abraço, num homem que eu acabara de
conhecer. Nem eu mesma me apercebi daquilo, mas ele se apercebeu.
E, na segunda vez, ele já esperava o mesmo abraço que,
antes, gostara de receber, embora, agora, querer também um
beijo, que, na verdade, não aconteceu, ali naquele instante.
O que, todavia, poderia parecer estranho, tornava o momento ainda
mais mágico.
O próprio tempo mostraria quando deveria acontecer. Nada era
esperado, tudo simplesmente acontecia. Como se o Destino estivesse
além de nós dois, deixando-nos fora do próprio
tempo.
Aquele homem, do olhar mais lindo que já vi, da pele mais cheirosa
que senti, descobriu em mim algo inacreditável... Estava além
da menina que ele mesmo viu. Além daqueles olhos tímidos,
às vezes menina, às vezes mulher. Mas sempre o mesmo
sorriso dócil, o mesmo encanto e o mesmo espanto perante as
coisas desconhecidas, perante aquele sentimento que, para ele, era
intruso, improvável, ao mesmo tempo em que forte e misterioso...
Sentimento, agora, que passara a temer. Como se eu tivesse uma culpa
imperdoável por ele ter mudado. Estava tudo bem, até
aqueles olhos negros como a noite aparecerem o desafiando.
O que eu podia fazer? Lutar contra tudo o que já havia me dominado
de forma tão boa? Eu mesma não esperava que, naquele
dia, a minha história, a que eu estava construindo, seria mudada.
Amá-lo era o meu destino. As estrelas do céu contavam
nossa própria história. Éramos nós que
nunca havíamos lido o que elas escreviam naquele livro infinito.
Eu não poderia mais voltar atrás... Estava além
de mim. Além de o meu próprio conhecer. É como
se ele me houvesse trazido, sem saber, a chave que abria por dentro
o meu coração. Talvez por isso, minha paixão
não perguntara, para mim ou para as próprias pessoas
que achavam o impossível e absurdo, se já poderia se
transformar em amor... Simplesmente irradiou meu corpo de luz, uma
luz que somente o amor possui. E eu passei a viver, intensamente,
mais. Porque o Destino me mostrou o caminho, e o meu coração
decidiu segui-lo.
|
|
|