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Bruno Rafael de Albuquerque Gaudêncio
Campina Grande / PB

Noite

 

"Morrer, dormir. Dormir? Sonhar."
William Shakespeare

Em uma noite clara, a lua dispensava as lamparinas e candelabros da casa. Meninos e animais estavam assustados com tal luminosidade excessiva. Era início de noite. O gado mugia desesperado. Cachorros rosnavam alucinados. Bodes nas serras berravam e pareciam que pediam ajuda em forma de um coral de lamúrias. Galinhas, que todos os dias adormeciam em seus poleiros logo cedo, não conseguiam subir cacarejando súplicas indecifráveis. Tudo parecia descontrolado. Cercado de mistério e de absurdo. A lua grande e luminosa. E eu a tudo isso observando pasmo de desespero.

Aldo, meu irmão mais novo, que sofria dos nervos, percebendo os sons e a luz estranha, correu rápido para sua cama. Percebíamos claramente que ele estava chorando no quarto. Papai logo depois mandou-nos dormir também. Deitamos todos. Eu mesmo fiquei toda embrulhada na cama, tremendo com os uivos repentinos, tentando compreender o que estava acontecendo naquela noite. Mas ninguém conseguia pregar o olho. Os sons desesperados dos animais não deixavam. A luminosidade excessiva da lua não deixava. Os choros repentinos de Aldo no quarto não deixavam. Papai vagava nos corredores não sabendo o que fazer. Deitou novamente, e escutei quando ele disse à mamãe que o melhor mesmo era esperar ao amanhecer, sua saúde não deixaria reparar direito o que estava acontecendo. Há tempos papai sofria com algumas feridas nas pernas e nos braços.

O dia nascia quando pouco a pouco fomos todos nos levantando, não havia mais nenhum som de animais, muito menos a claridade da lua. Parecia que todos os bichos descansavam quietos depois de uma noite de agonia. O sol se mostrava heróico e luminoso. Aldo até que fim ressonava no quarto, tranquilo.

A primeira a se levantar foi mamãe que imediatamente se dirigiu ao banheiro, logo depois papai saiu da cama com o seu arrastando característico de sandálias mal calçadas nos pés, abrindo abruptamente a janela central da frente da casa. Um grito forte saiu da sua garganta assustando a todos nós. Inclusive Aldo que já estava a ressonar. Corremos para socorrer papai, pensando que ele havia por acaso caído na calçada ou coisa assim. Mas não, o que víamos não poderia compreender, era algo absurdo, todos, absolutamente todos os animais estavam mortos, em todo lugar de nossas vistas estava sujo de sangue; as calçadas, os terreiros, o curral, as árvores e as pedras. Não havia um só lugar fora da casa sem um animal morto. Cachorros, galinhas, bois, vacas e bodes. Aldo saiu gritando mais desesperado do que nunca. Gritava alto em nossos ouvidos, dizia palavras que ninguém entendia e chorava dando muros nas portas e janelas. Tivemos que segurá-lo e trancá-lo no quarto, onde lá quebrou tudo. Papai exigiu que juntássemos rapidamente as nossas coisas, pois deveríamos sair imediatamente daquela casa, daquele lugar. Não havia tempo para explicações. Ninguém nos elucidava o que havia acontecido.

Amontoamos nossos pertences na velha carroça no terreiro. Antes tivemos que limpar, pois ela estava completamente lavada de sangue. Todos estávamos muito nervosos, assustados, - menos Aldo, que naquele momento respirava tranqüilo sentado na ponta da nossa carroça, agora limpa. Foi quando estávamos já saindo no corredor de nosso sítio, que escutei bem baixinho Aldo falar algo olhando fixamente para o céu: "na cidade grande desta vez os animais que irão morrer somos nós, e dentro de nossa própria casa". Na hora eu sorri, pois nunca tinha visto meu irmãozinho falar uma frase bem colocada. Só depois compreendei que aquelas palavras foram à única coisa sensata que Aldo falou em sua curta vida. E partimos juntos e entristecidos para a cidade grande, onde hoje moramos em uma favela, como animais. Os tiros diariamente clareiam o morro. E escondidos, tentando nos proteger, rezando para não sermos abatidos como foram nossos animais no sítio.

 
     
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial - Dezembro de 2008/Janeiro de 2009