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Carlos Alberto Faria Rodrigues
Passos / MG

Lobo e cão

 

"No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas".

E Ele fez o lobo! E todos os lobos nasceram semelhantes aos lobos, mas houve um que, por desobedecer leis primárias, dos outros foi apartado e, em sua testa, para marcá-lo indelevelmente, Deus colocou um sinal e o transformou em cão. Tinha comido ele da carne proibida? Tinha matado outro lobo? Ninguém jamais ficará sabendo, mas ele viveu e seus descendentes, todos, passaram a ter a mesma marca e a serem chamados de cães.

Esta é a história de um deles.

Um dia, em meio a uma matilha de lobos, nasce um pequeno cão. Parecido com tantos e no afã dos dias de sobrevivência, ninguém, notou que ali nascia um cão. Ninguém sequer viu a marca que ele trazia entre os olhos, afinal, ele, como os demais, era pequeno, franzino, e ansiava pelo leite materno.

Na infância, ele, como todo filhote de lobo, só pensava em brincar e, como todos, corria contente, ao ver chegar sua refeição, fruto da caça de sua mãe.

Estômago cheio, aconchegava-se à matilha e ali dormia, despreocupado do mundo, sonhando que sua toca seria eterna e que um dia sairia dali para correr pelos campos junto com os demais lobos. Ah o grupo! Quanta segurança sentia ao ver-se membro do grupo!

Mas o tempo passou e ele foi crescendo e, com ele, a marca.

Obviamente ele não a conhecia, sequer a via, porém, à medida do passar dos dias, ele a foi sentindo. Não era uma marca física, mas o distinguia, dentro da mente, fazendo-o sentir-se único: ele não se sentia especial, apenas único, mesmo sem saber o porquê desse sentimento.

Um dia, ainda na infância, lhe falaram sobre o Deus dos lobos, o dos homens, sobre o do vento, e o Deus da caça, todos um só: o criador do universo. E junto com tal ensino lhe falaram sobre as leis da caça, sobre a carne proibida, sobre a maldição lançada sobre aqueles que dela haviam comido e que, por o terem feito, tinham sido condenados a serem simplesmente cães.

Até então, para ele, tudo era bom; não existia o bom e o mal, o certo e o errado. O mundo era aquilo que ele via e farejava e, apesar de se sentir diferente, ele fazia parte do todo, do único, sem distinção entre o bom e o mal.

Até então, a marca, sentida em sua testa, era apenas parte desse único mundo, e não diferenciava seu mundo daquele de seus irmãos. Até então, ele fazia parte do mundo criado, e não do rejeitado, do castigado, do expulso.

Mas, com o conhecimento do bom e do mal, ele sentiu pesar sua marca e pensou em mantê-la escondida para sempre. Começava, para ele, a dicotomia entre a vida e a morte, entre ser e não ser, entre querer e repudiar.

Iintimamente, ele soube que essa dicotomia queria dizer que ele era único, pelo menos para ele próprio. Soube também que essa dicotomia queria dizer que ele seria um ser dividido, em quem, cada uma das divisões não conteria mais de dois termos. Ele não mais estaria do lado bom, ou do mal e, tendo sido dividido, não mais pertenceria ao todo, aquele todo criado por Deus, que ele tanto apreciara em sua infância.

Nesse momento ele começou a morrer.

Mas, como nem cão morre quando quer, e como nem cão sabe por que nasceu cão, ele continuou a vida, morrendo como lobo.

Um dia, andando junto com jovens aventureiros da matilha, ele saiu da floresta e se aproximou do local onde viviam os homens. Então, para sua surpresa, viu vários cães.
Sua surpresa foi vê-los parecidos com lobos. Como eles, os lobos também tinham quatro patas e a boca cheia de dentes. Como os cães, os lobos latiam e por vezes uivavam. Também eles tinham o corpo recoberto de pêlos e dois olhos argutos.
No que eles diferem de nós? - perguntou ele ao resto da matilha.

- Deixe de ser idiota, não vê o quanto eles são fracos! Essa fraqueza é um castigo, uma praga que eles recebem ao nascer.
- Depois de marcados pelo pecado, se deixaram domesticar. Alguns se rebelam, mordem seus donos e saem novamente pela floresta, mas nunca deixam de ser cães.
Nós caçamos, eles comem o que encontram. Nós matamos, eles poupam a vida. Frente a um homem, nós saltamos em seus pescoços, eles se deixam acarinhar. E o pior é que eles acarinham o homem com suas línguas. Coisa nojenta!
- Coisa nojenta também são os lobos que se deixaram domesticar, virando cães. - falou outro lobo, por entre dentes maliciosos.
- Mas afago não é bom? Todos gostamos quando nossas mães nos afagam!
- Gostamos de afago de nossa espécie. Afago de outra espécie é insulto.

Ouvindo isso, ele calou. Em seus ouvidos, o bom e o mal se confrontaram novamente, fazendo doer sua marca.

Ele era um lobo, queria ser um lobo e morreria, se preciso fosse, para mostrar que era um lobo e que, como todos, iria à caça, mataria, uivaria.

No entanto, ele tinha a marca. Ele, como todos os cães, tinha a marca.

Em sua cabeça, pensamentos secretos o acusavam de ser cão, mas ele queria ser lobo. Faria de tudo para ser lobo.

Intimamente, contudo, imaginava que se cães gostavam do afago humano, isso não poderia ser ruim. Mas ele queria ser lobo e faria de tudo para ser lobo.

O tempo passou. Ele, durante sua vida adulta, tentou fazer com que a matilha pensasse diferente, mas só conseguiu repúdio.

Alguns de sua espécie até pensaram ver sua mancha, mas ela era invisível. Ela estaria ali eternamente, mas ninguém a veria, mesmo porque, tendo aprendido a caçar como lobos, ele sempre mantinha sua face recoberta por sangue.

Por outro lado, dentro de sua cabeça de cão, toda vez que se via junto à matilha, ele se sentia mal por se ver obrigado a manter seu rosto sempre rubro do sangue da caça e foi exatamente por isso que ele, passados alguns anos, resolveu viver sozinho.

Aos poucos ele foi se afastando. Tinha conhecimento e habilidade suficientes para viver sozinho. Mas viver sozinho não é fácil. Durante toda sua vida tinha vivido sozinho, ainda que em meio à matilha e sabia como ninguém o quanto pesou guardar, em silêncio eterno, o segredo sobre sua marca.

O silêncio foi seu uivo quando jovem e adulto, seria agora seu companheiro até que ele pudesse ir ao encontro do Deus dos lobos, para saber o porquê de ter nascido com aquela marca.

Mais tempo passou. A civilização humana foi se achegando à floresta, derrubando árvores, construindo casas e nelas, deixando cães de guarda.
Um dia, quando perambulava por entre árvores, limítrofes da floresta, ele se deparou com um homem e seu cão.

Ambos caçavam e, em determinado momento, nosso lobo viu o cão trazer a caça para o homem e dele receber um afago.

Frente aquela cena inédita, meio confuso entre ficar ou partir, não percebeu que estava a favor do vento, favorecendo ser farejado pelo cão.

Latidos bravios o trouxeram de volta à realidade de se ver frente à mira daquele instrumento que matara a caça.

Instintivamente, franziu o cenho expondo os dentes e um ruído ensurdecedor, seguido de dor, o fez tombar.

Sem movimento, mas ainda vendo, sentiu a mão humana tocar-lhe o pelo e, em seguida, tudo ficou escuro, tudo se transformou em trevas e, como em sonho, ou por relembrar a história da infância, imaginou estar vendo o Espírito de Deus pairando sobre as águas...

 
     
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial - Dezembro de 2008/Janeiro de 2009