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Ivan
Melo O passado bate à porta
Curitiba, a cidade de múltiplas oportunidades, de múltiplas felicidades e de múltiplas facetas escondidas por trás das verdades mascaradas. Uma cidade com aparência de primeiro mundo, mas só na aparência. Quando se investiga a fundo, vê-se que o mito da cidade ecológica não passa de uma inverdade construída a custa de muito dinheiro e propaganda. Porém, para Franconaldo, Curitiba era a cidade das grandes oportunidades. Nascido numa pequena cidade do sertão cearense, saiu de lá aos 19 anos, fugindo da causticante seca que flagela o povo sofrido nordestino. Partiu rumo as terras do Sul. Não as famosas terras do Sul da Bahia que tanto Jorge Amado evocou em seus livros, mas a Região Sul, de oportunidades tão grandes quanto as de Ilhéus dos anos 20 e 30. Sabia que seria difícil, mas rumou rumo a Curitiba, a então "cidade ecológica do Brasil", famosa por seus parques extensos, pelas sofisticadas estações-tubo, do Biarticulado e do Ligeirinho, enfim, a tão propalada Curitiba noventista. Franconaldo chegou lá no dia 28 de Janeiro de 1992, querendo trabalhar numa das indústrias da CIC. Porém, quando chegou lá, viu que a paisagem de cartão-postal e as tão faladas chances de prosperidade estavam mais para uma campanha de marketing feita por Washington Olivetto e seus amiguinhos da W/Brasil. Não conseguiu emprego em nenhuma fábrica, pois havia cursado somente até a quarta série. Restou então recolher os restos da riqueza, dos apartamentos luxuosos do Batel, das casas baroniais do Jardim Social. Passaram-se quatro anos recolhendo o que a burguesia curitibana gastava em seus apartamentos, quando Franconaldo resolveu um dia apostar na Mega-Sena. O prêmio: R$ 17 Milhões. Ele arriscou apenas os seis algarismos mínimos, meio descompromissado com o que poderia vir depois. Foi aí que a vida do cearense deu a virada. Da noite para o dia levou a bolada e ficou milionário. Com a fortuna faturada, conseguiu se casar com Arlete, o que fez com que Franconaldo se vingasse de seu amigo, Ribolelson, devido a interesses escusos. Com a bolada na Mega-Sena, o nordestino mudou de vida. Fez supletivo, passou no vestibular, formou-se em Administração pela UFPR e montou uma empresa de logística que estava faturando muito dinheiro, multiplicando assim seus dividendos. Ainda mantinha-se casado com Arlete, com quem teve três filhos, que estavam com 5, 9 e 12 anos. Ambos estudavam em boas escolas, onde os filhos abastados da nata curitibana frequentavam. A mesma nata de quem Franconaldo recolhia o não-reciclável há pouco mais de uma década. Porém, estamos em Junho. Faz um dia frio em Curitiba. As pessoas se encolhem debaixo de seus cachecóis, gorros e jaquetas. O vento parece uma lança medieval; corta impiedosamente nossa pele, a fim de nos sucumbir a sua frente e ver-nos padecendo no chão, cru como o sabor da derrota. Franconaldo chega na sua confortável cobertura no Batel, após um longo dia de trabalho. Arlete avisou que iria ao dermatologista, só voltaria as 7:30, pois pegaria as crianças no colégio. No relógio, ainda são 6:40. Olha ao redor e vê a sala muito bem arrumada e asseada por sua empregada, Leonilda. "Parece até quarto de marajá!", pensa o ex-sertanejo. Querendo descansar, deita-se no confortável sofá que comprou em São Paulo e que lhe custou uma nota. Na mente de Franconaldo começa uma volta ao passado e uma passagem de tudo o que esse cearense do sertão já fez: trabalhar duro na roça; o castigo da mulher sem piedade que quase lhe deixou a míngua; a partida para a terra da fartura; a vida dura como catador; o bilhete premiado; enfim, toda a sua trajetória para chegar ao Franconaldo Silveira que tantos o conhecem. O tempo lá fora, obscuro e sombrio, juntamente com a maciez do sofá, fazem com que Franconaldo adormeça no doce embalo das recordações de outrora. Sonha como conheceu Arlete, que era sua vizinha na Vila das Torres, um dos lugares mais violentos de Curitiba. Relembra de como suou para conquistar o amor da jovem costureira e da cerimônia de casamento, que enfim pode ser realizado devido ao prêmio da Mega-Sena que ele ganhara. Logo após vieram os três filhos, que os viu crescer garbosos, fortes e bonitos dentro de sua cobertura no Batel. Enfim, tinha realizado os seus sonhos que tanto planejara quando penava nas lavouras de subsistência do sertão. De repente, eis que algo acorda. Algo estridente como uma sirene de polícia. Era o interfone. - O que é,
Raimundo? De repente, eis que algo negro e sombrio começa a tomar conta dele, emergindo como as águas do Mar Vermelho quando Moisés atravessou o mesmo. Era o medo. "Será que ele vai querer me matar?", pensou. O nordestino estava resoluto em fazer algo, mas não sabia o que fazer. Não portava nenhuma arma em casa, nem nunca foi de costume seu. Era uma pessoa pacífica, aberta, disposta ao diálogo e que evitava conflitos. De repente, um som irritante e inquietante irrompe-se abertamente pela cobertura. Era a campainha. O coração de Franconaldo acelera, acelera, acelera a cada passo. Toc, tum-tum-tum... Toc, tum-tum-tum... Toc, tum-tum-tum... Toc, tum-tum-tum... Toc, tum-tum-tum... Abre a porta e é recepcionado com balas douradas metálicas, com o sabor amargo e nocivo do chumbo. - Quem manda roubar a mulé dos outros, cabra safado! - disse Ribolelson. Consciente do julgamento popular e das autoridades, Ribolelson também experimentou das balas douradas amargas. |
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial
- Dezembro de 2008/Janeiro de 2009 |