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Jana Cambuí Alves Lima
Feira de Santana / BA

Construção

 

Augusto Lemos era um homem intemerato, porém oblíquo. Havia algo de doença contagiosa no seu olhar impenetrável, algo de indecente e casto, ao mesmo tempo. Ele não parecia temer ninguém, estava sempre confiante do que dizia e do que fazia e, ao mesmo tempo, desconfiava. Não tinha amigos, mas tinha grande apreço por algumas figuras, pelo que ele contava. Não se conheciam seus relativos, mas se ouvia falar muito deles pela boca de Lemos que, apesar desse detalhe, não era de falar muito. Não era excêntrico, de modo algum, mas tinha lá suas manias, aquelas que todo mundo tem, de fazer tal movimento com as mãos quando não se tem o que fazer com elas, ou mesmo cantar quando não se tem o que falar e o silêncio não é obrigatório. Augusto Lemos era impecável com sua roupa, sempre bem passada, bem vestida, bem combinada. Era impecável com o corte dos cabelos, com a postura com que andava ou sentava, com as unhas e com a aparência saudável de sua pele. Era impecável.

Augusto Lemos era um mistério insolucionável, era uma figura dessas que marcam a vida de com quem troca pelo menos três palavras. Devia ser o homem da vida de muitas mulheres e não devia ter ninguém em sua vida. Sem paixões. Não parecia apaixonado por nenhuma ideologia ou causa nem era fiel a nada de abstrato. Era um ser humano aparentemente raso, na primeira impressão, mas bastavam alguns minutos de conversa para que qualquer um se afogasse em sua alma inexata.

Augusto Lemos escrevera, naquela madrugada, uma carta ambígua, que coube em três folhas pautadas de agenda antiga. Sua linguagem impecável deixava sempre dúvidas a cada parágrafo, o que pareceu ser a intenção dele. Ninguém choraria por Lemos.

Augusto Lemos subia agora o meio-muro do terraço do edifício. Trinta e cinco andares acima dos milhares de mortais transeuntes daquela avenida. O vento ali em cima era forte e gelado, o silêncio ali em cima era divino, a solidão ali era casta. E, ainda assim, queria descer: explodir numa pancada para que pudesse relaxar. Reclamaria os homens sóbrios, as mulheres frias, as crianças paradas, as coreografias, as aventuras seguras.
Augusto Lemos lançou um olhar ao chão, a cem metros de distância, sentiu-se tonto, embriagou-se com o sal das lágrimas e caiu.

Uma parte de Augusto Lemos caiu na avenida. A outra parte tombou no chão do terraço, o coração a saltar do peito e um sorriso de vitória. Tocou-se, sentindo-se. Levantou-se e limpou as mãos na calça. Desceu até o apartamento pela escada, pisando. Dirigiu-se à escrivaninha, releu a carta e a picou devagar. Uma parte de Augusto Lemos terminava ali, numa lixeira fria, escura e cinzenta.

 
     
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial - Dezembro de 2008/Janeiro de 2009