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Leonardo Moreira de Andrade
Salvador / BA

Elisabete

 

[Tinta e Folha]
"Salientou-se no silencio dos seus braços a necessidade mutua da sua boca à minha, dos meus olhos pérfidos nos olhares seus."

O texto que não passou de duas linhas ficou tatuado na memória de Severiano por toda a sua existência, acalmou-o nas noites inquietas em que o sol parecia residir sobre o seu leito e o deixava perdido naquela linha azul que se estendia sobre horizonte, sobre o céu um meridiano traçava o itinerário de uma ave metálica que o levava aos resquícios de uma sentimentalidade. Saudades da felicidade.
Por muitas mulheres aquele corpo franzino entregou-se, por vezes somente a carne foi cultuada, mas em algumas dessas permutações corpóreas a alma entrelaçou-se ao amor e o levou a um apogeu do qual ele não mais dispensa. Severiano sempre guardou o seu cárcere palpitante coração àquelas mulheres que não se desprendiam totalmente da infância, da meiguice e que de certa forma ainda trouxesse um toque bruto, bruta como a natureza mais bela das cachoeiras.
A mão calejada do oficio da profissão poeta correu ainda a folha em branco sem sucesso, por vezes lançou à mente a idéia de que seria impossível retratar tudo aquilo que sentia à presença daqueles olhos verdes, olhos de Elisabete.A pena cansada e sem sucesso repousou sobre a mesa, alforriando a mente do poeta, agora restou o fado de libertar a mente para o vôo que encontrará sempre a pele branca marcada por tatuagens que definem, como cicatrizes, o ser e os seres que habitam aqueles olhos, olhos de Elisabete.


[O não táctil]

A fala e as mãos ensaiaram mil e um gestos, nenhum desses entraram em cena, acarretaram aplausos ou vaias, muito menos os olhares atentos da platéia.
Após o apito da cafeteira, conduziu as mãos até o copo plástico que por pouco não derretia diante o calor do liquido negro e de paladar inconfundível. Um soluço de voz embarcou nos ouvidos de Severiano e mesmo sem tê-la escutado uma única vez, sabia de quais lábios soavam a tal melodia que ele sonhara e sonhará, em vida, conceber.. As mãos brancas, pela primeira vez tocaram a pele negra de Severiano e a induziu a seções inacabáveis de arrepios. A voz doce daquela mulher o questionou sobre algo que a memória não fez questão de gravar e assim sem ter aonde colocar as mãos e os olhares, respondeu de forma seca, engoliu o café amargo e deitou os seus pensamentos por todo o dia naquela voz, na pele e olhares de Elisabete. O dia acabou na copa e a memória do momento ficou fotografada no tempo, olhos nos olhos.

[O pô-do-sol e o nascer]
A única sombra que povoou a mente "Severeniana" foram as imagens negras decalcadas no mar, os barcos e suas velas, pois a sombra da duvida foi extinta após aquela tarde em que o sol resolveu acolher-se por de trás das nuances daquela ilha boiando no mar.Severiano lembrou-se até o ultimo momento de vida lúcida daquela face a estampar os últimos raios do dia, dos sorrisos arqueados e da forma como a fumaça branca do cigarro entrelaçado aos dedos, saiam entre os lábios de Elisabete.Sem sombras de duvidas aquela máquina incansável encontrou novos braços. Ali dentro bate novamente um coração.


[Você é linda!]

"Elisabete: você é linda!"
Como muitos dos atos ensaiados e não apresentados por Severiano, a frase foi saboreada no vestíbulo, passou pelas papilas gustativas e parou bem na ponta, o corpo projetou-se em direção aos ouvidos de Elisabete, ele sentiu pela primeira vez o cheiro mais puro daquela mulher e a sua real natureza. A voz muda ecoou de forma voraz e o deixou perdido sobre o palco (apagou-se o mundo ao redor, desligaram-se as vozes da cidade e a luz daquela lua sorridente do céu.).
Depois do vácuo criado entre o tempo passado e o presente após a frase muda, a mão de Severiano transcreveu sobre a mesa branca, ao alcance das vistas de Elisabete aquilo que era notório: "Elisabete: Você é linda!".


[A pangéia]

Para Severino existia ali apenas um continente, e a ruptura desse seu pensar deu-se diante a novidade desconfortável de que os olhos verdes de Elisabete pertenciam a outros que não os seus. Acalmou-se, sentiu o pulso retornar ao estado normal (se é que existia pulso norma diante a existência daqueles olhos) e permitiu a face destorcer-se em tristeza e amargura. Lembrou-se então, antes do termino dos tempos úteis de sua lucidez dos olhares mútuos que embasaram os sentimentos que corroíam seu peito e sua mente, lembrou-se dos toques, dos risos provocados, dos sorrisos involuntários que se escreviam só em vê-la despejar os passos aleatórios ao seu redor. Acreditou que não havia platonismo, acreditou por fim que existia sim sincronismo, fé mutua, desejos e algo maior e reprimido, um broto.

[Um deserto verde]
Acordou e como se estivesse ainda dormindo continuou esticado sobre a cama, olhos abertos e um sorriso desenhado sobre a face. Estático repousou ali durante horas sobre a minha vista, passaram-se dias, semanas e meses, mas nada mudou do seu lugar. O corpo apresentou-se debilitado e amorfo na segunda semana. Na terceira semana restava sobre aquele leito algo que não era humano e assim até o ultimo suspiro via-se nos olhos negros algo como um filme, o flashback do que havia se resumido sua vida. Lembro-me que na minha ultima visita àquele que reservei a totalidade do meu tempo, a visão de um deserto verde em seu olhar, verde como os olhos de Elisabete.


[Morte e Vida Severiano]

[Morte]
Por fim e como era esperado faleceu naquela manhã e com um deserto nos olhos o homem que reservou suas ultimas palavras à mulher mais bela entre TODAS. Esclareceu assim a todos os olhos mudos ao seu redor, com as seguintes palavras:

"Como um velho maquinário esquecido, corroído pelo tempo, a máquina primeira retoma os passos, acelerando sua arritmia extasiante da jugular aos pulsos do punho, do zumbido nos ouvidos ao latejar descontrolado desse incansável miocárdio. A vontade que me possui é de arrancar aqueles olhos verdes e coloca-los numa redoma."

Severiano feneceu.


[Vida]

Havia o escuro e a ausência de sentidos, mesmo assim fazia frio e o corpo se contorcia.
Como numa injeção certeira de adrenalina no músculo cárcere palpitante, sentiu seu coração pulsar de forma frenética ao ponto de lhe fugir à boca. Severino acordara para outro plano, outras forças e energias. Recebera outro nome, fora batizado, catequizado e denominado: Caetano. Como é do brio e do titulo que lhe foi concebido (Caetano), juntou sobre a mesa novamente aquela frase, prefácio de um texto apaixonado e o colocou sobre a disposição da mente, novamente. Assim seguiu o texto:


" " Salientou-se no silencio dos seus braços a necessidade mutua da sua boca à minha, dos meus olhos pérfidos nos olhares seus.""

[...]

"Por muitas mulheres aquele corpo franzino entregou-se, por vezes somente a carne foi cultuada, mas em algumas dessas permutações corpóreas a alma entrelaçou-se ao amor e o levou a um apogeu do qual ele não mais dispensa."

[...]

"Severino lembrou-se até o ultimo momento de vida lúcida daquela face a estampar os últimos raios do dia, dos sorrisos arqueados e da forma como a fumaça branca do cigarro entrelaçado aos dedos, saiam entre os lábios de Elisabete. Sem sombras de duvidas aquela máquina incansável encontrou novos braços. Ali dentro bate novamente um coração."

[...]


"Depois do vácuo criado entre o tempo passado e o presente após a frase muda, a mão de Severino transcreveu sobre a mesa branca, ao alcance das vistas de Elisabete aquilo que era notório sobre a tal garota: "Elisabete: Você é linda"!".


Aconteceu então a idéia, a ante idéia e a verdade mais pura e digna de um Caetano aonde a vida não tem fim, nem a historia ou o amor, muito menos a vontade de te ter em meus braços, nos olhos meus, em meus lábios...

De um Caetano apaixonado para Elisabete, a mulher dos olhos verdes.

 
     
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial - Dezembro de 2008/Janeiro de 2009