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Romulo Jose Ferraz
Cuiabá / MT

Os encontros que ninguém quer ter

E, um desses encontros que ninguém quer ter, foi quando conheci a família Shuarts, em Porto dos Gaúchos. Mas, antes, tenho de fazer uma breve recapitulação, desde o começo.

Fundação do povoado de Porto dos Gaúchos
A região de Porto dos Gaúchos passou a ter vida sob o impulso do governo do Estado de Mato Grosso, a partir de leis colonizadoras, de 1948 em diante.
Em meados da década de cinquenta, a empresa Transportadora Meyer S.A., adquiriu terras à margem do Rio Arinos. Em seguida foi constituída a Colonizadora Noroeste Mato-grossense SA - CONOMALI - que passou a vender lotes de terras a empresas, grupo de particulares e colonos. Na maioria, esse contingente de pessoas era do Rio Grande do Sul. A primeira caravana de futuros compradores de terras em Mato Grosso, partiu da cidade gaúcha de Santa Rosa, a 23 de março de 1955, com 20 homens distribuídos em dois caminhões, um Jipe Willys e um Unimog. A viagem demorou 41 dias, chegaram a três de maio de 1955, data em que se comemora a fundação de Porto dos Gaúchos.

José Dias Ferraz, um dos pioneiros,
Uma Família Mineira...

No dia 08/02/1957, desembarca da lancha Santa Rosa no porto do Povoado a única família de Minas Gerais. José Dias Ferraz, com 48 anos e Geny Prado Ferraz com 39 anos, e seus 8 filhos, Nelson Antonio Ferraz, 16 anos, Rômulo José Ferraz, 15 anos, Paulo Roberto Ferraz 13 anos, Odilon Francisco Ferraz, 12 anos, Luiz Carlos Ferraz, 10 anos, José Augusto Ferraz, 6 anos, Maria Salete Ferra,z 4 anos, e Paula Francinette Ferraz, 2 aninhos.

Primeira aventura:
Pois bem, O primeiro encontro que ninguém quer ter, foi quando conheci a família Shuarts em Porto dos Gaúchos, de um modo muito estranho. Na verdade, eu dei um tiro de espingarda e que acertei no velho Shuarts e no filho de uma família que fazia parte da oitava família em Porto dos Gaúchos.
Quando saímos de Minas para ir morar no sertão, meu pai comprou uma espingarda para o meu irmão mais velho e outra para mim, e quando chegamos em nosso destino, o meu prazer era pôr a espingarda a tiracolo e sair pelas matas atrás de caças. E numa dessas, andando por uma estradinha, bem numa meia-curva, escutei barulho vindo de duas direções.
De uma direção parecia uma tempestade de vento, pois via toda a mata se mexendo;
e de outra, no rumo da curva da estrada, outro burburinho. Tinha a certeza que alguma coisa ali iria aparecer.
Na mesma hora eu engatilhei a espingarda e fiquei esperando que um ou outro surgisse para eu poder atirar.
Mas, como eu era um inexperiente, a espingarda estava carregada com chumbo fino para matar passarinho, e o cartucho era de papelão, e como tinha molhado, o cartucho estava apertado na espingarda, era preciso usar um alicate para trocar cartucho na hora que aparecesse um bicho grande.
E foi justamente o que aconteceu.
De repente surgiu tudo no mesmo tempo o pai e filho na estrada, e entre nós uma anta.
Eu fiquei completamente assombrado com o tamanho do animal, era do tamanho de uma vaca e o bicho olhava para mim, e eu com o alicate lidando para conseguir trocar o cartucho...
Os caras lá do outro lado davam sinal para eu sair da linha de fogo, mas, de tão perturbado que fiquei que não entendi nada.
O bicho parado no meio da estrada me encarando, de repente levantou a pequena tromba e mostrou a dentadura.
Fechei a espingarda já engatilhada e sem fazer pontaria dei o tiro. No que dei o tiro a anta saiu derrubando árvores e sumiu.
O velho Shuarts, mais o filho, chegou perto de mim e perguntou: cadê a anta?
Eu disse: Acho que acertei nela.
Daí ele falou: Não, não acertou, você acertou em mim, e mostrou mais de um lugar onde estava sangrando do chumbo que ele levou;
E o filho dele também disse: Acertou em mim também - mostrando onde pegou o chumbo.
Aí eu não sabia o que fazer, se corria ou pedia desculpa. Permaneci por alguns segundos sem dizer nada, calado, mudo mesmo, era um senhor mais ou menos cinquenta anos, e vendo o estado de nervos em que fiquei falou:
Não precisa ficar assustado, está se vendo que é a primeira vez que você enfrenta um bicho desse, e pondo a mão no meu ombro:
Eu moro aqui perto, e voce deve ser filho do mineiro que chegou na lancha ontem, não é? Disse que sim, que foi a primeira vez que sai para caçar.
Daí ele me disse:
Então vamos ficar amigos para caçarmos juntos, e estendeu sua mão para mim.
Então fizemos as apresentações, eu disse chamar Rômulo mas que todos me chamava de Rominho.
De cara já me levou para conhecer sua casa e o resto da família.
A casa ficava mais ou menos uns dois quilômetros dali. Chegando lá foi uma surpresa para mim, eu já tinha quinze anos completos, e era um adolescente muito romântico, gostava de namorar e me apaixonava facilmente, principalmente se a menina fosse bonita.
E foi o que aconteceu quando na casa do Sr. Eduardo Shuarts, de origem alemã me apresentou o resto da família.
Era também uma família composta de nove filhos, mas, o oposto da nossa família, as quatros primeiras eram mulheres e depois que vinham cinco homens. E eu me encantei com a beleza da caçula das mulheres... Era uma adolescente de doze anos mas já com semblante de mulher. Era com se fosse uma pintura, tal era sua beleza, e de cara eu me apaixonei. E ela também se interessou por mim.
E essa história da anta e do tiro que acertou o pai e irmão dela, sempre era o pretexto para iniciarmos uma conversação.
O Sr. Eduardo Shuarts fez as apresentações: Esta é a mais velha Eufrida, esta é a segunda Emília, esta é Eva, e esta a Maria, a caçula das mulheres, todas de uma beleza natural, mas para mim a mais bonita era a Maria, agora é os homens: Osmar o que eu acertei o tiro, Paulo, Eduardo, Lucas e Ricardo.
Ainda levou um punhado de meses, para nós nos declararmos namorados, afinal tinha uma terceira pessoa que estava interessado nela também, viajou na comitiva quando vieram do Rio Grande do Sul e já estava de namorico com ela. Mas mesmo assim eu já a namorava, todos os domingos ia na casa dela, e mesmo que o cara estivesse lá também, eu fazia tudo para ela prestar mais atenção em mim.
Aos poucos fui ganhando a simpatia dela.
Também tinha um ponto de encontro de todos os moradores da Colônia que era uma moradia que ficava as margem esquerda do Rio Mestre Falcão. Do outro lado existia um barreiro (lugar onde os bichos vinham para lamber o barro), e também os passarinhos da florestas, como jacus, jacutingas, mutuns, pomba, etc.
E sempre eu conseguia tirar ela do banho para ir caçar pomba comigo do outro lado do rio, e ela vinha e deixava o cara lá esperando.
Com isso aí eu fui conquistando ela. Mas, nosso namoro acabou em nada, pois o Sr. Eduardo Shuarts muda-se para Chapada dos Guimarães e com essa mudança lá foi o meu amor também. Depois de anos fiquei sabendo que ela tornou-se esposa do prefeito da época.
E assim, o (primeiro encontro que ninguém quer ter), chegou-se ao fim, foi como se diz: há males que vêm pra bem.

 
     
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial - Dezembro de 2008/Janeiro de 2009