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Nathalia
da Cruz Wigg O colecionador de rosas Suor sobre a pele, sangue nas luvas, sensação de alívio, um sorriso surge no rosto... Dr. Luís Salvi foi um médico de carreira brilhante. Sempre ofereceu ajuda aos necessitados e, mesmo com todos os problemas pessoais, se sentia o homem mais realizado do mundo quando salvava uma vida. Em abril de 1954, numa sexta-feira, Luís teve uma assombrosa provação. Sua filha Rose foi atropelada por um carro e precisava, com urgência, de transfusão de sangue. A menina estava numa cidade um pouco distante e foi internada num hospital das redondezas. Ele tinha o mesmo tipo sanguíneo que Rose. Muito angustiado, saiu correndo pelos corredores do hospital em que trabalhava e, quando estava abrindo a porta de vidro para sair do local, acabou sendo surpreendido por um pedido de socorro. Lorena, sua paciente, teve uma parada cardíaca e seu pai aos prantos pedia-lhe ajuda. A menina de 10 anos era uma criança muito triste que sofria de leucemia. O mundo parou ao redor de Luís... ele só lembrava dos pedidos da pequena: "Por favor, cuida de mim. Você é um bom amigo." Naquela sexta aconteceu algo atípico no hospital: ele era o único médico, presente, com competência para cuidar do caso de Lorena. ... Rosas, flores, jasmins... ondas de luzes decoravam o quarto. Reinava, finalmente, a calmaria. Salvi tirou as luvas, limpou o suor, suspirou depois de uma complicada cirurgia. Lorena estava salva, Rose também! O médico, antes de começar o procedimento cirúrgico em Lorena, ligou para dois amigos, também médicos, que tinham o mesmo tipo sangüíneo da filha. Explicou como chegar ao hospital em que Rose estava e os fez prometer zelar pela integridade da menina. A esposa de Luís não compreendeu a situação, tampouco percebeu que ele não abandonou e jamais abandonaria sua filha num momento como aquele. Como já era de se esperar, em decorrência de uma vida conjugal tão conturbada, ela pediu divórcio alegando que a decisão do médico foi a "gota d'água". ... Abril de 1955, sexta-feira, Luís se lembrou do que aconteceu um ano atrás. Lá estava ele, no velho hospital, com o velho branco na roupa. Sentia-se sozinho, triste, incompreendido. Pegou a chave do carro, abriu a porta de vidro (dessa vez, nenhum pedido de socorro). Era noite, fazia frio, entrou no veículo, ouviu o "ruído" do silêncio, ligou o rádio, deixou a mente vagar no vácuo, no branco, na beleza, nos mistérios, na infinitude do agora. Ouviu um barulho, alguém batia na porta. Virou-se e, para sua surpresa, viu um menino com roupas rasgadas, descalço, segurando rosas. Àquela hora da noite existia um pequeno vendedor de rosas andando solitário pelas ruas da cidade. - Tio, a rosa
custa R$ 2,00. O menino retornou ao seu trajeto, ao longínquo deserto da rua. O médico abriu a porta, saiu do carro e pediu para que o garoto voltasse. Com carinho, segurou o braço do menino, sentiu a rispidez de uma pele já tão agredida pelo sol, pela vida, por maus tratos... ajoelhou-se no chão. - Lembra que eu
disse que iria entregar essa rosa para alguém muito especial? Cada um seguiu seu rumo. Mesmo tão diferentes, eles tinham algo em comum. O médico sabia a importância de fazer alguém se sentir especial. Uma rosa pode mudar um destino e, quem sabe, fazer brotar um novo horizonte... A rosa morre, mas o perfume fica. |
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial
- Dezembro de 2008/Janeiro de 2009 |