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Elizabeth Maria Chemin Bodanese
Pato Branco / PR

Caetano

Na Itália, marca de grandes nomes da História da humanidade como Dante Alighieri, Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio, Galileu Galilei, Nicolau Maquiavel, em 1869, no anonimato, nasceu Caetano. Filho de pai árabe e mãe egípcia.

Nesse país europeu Caetano cresceu e fez-se moço. Aos 22 anos, na ânsia por aventuras, sem muito planejar, pegou um guarda-chuva e a sua gaita, despediu-se dos pais e partiu para a tão propagada América. De Veneza, localizada em uma lagoa do Mar Adriático, Veneza da Ponte dos Suspiros, da terra de Vivaldi, iniciou a longa viagem.

Atravessar o oceano foram noites intermináveis. O mar parecia estar revoltado com o navio invasor. As tempestades erguiam ondas monstruosas que açoitavam o convés jogando homens ao mar.

Quando as procelas passaram, surgiram fome, sede e doenças. Amigos morreram e enrolados em lonas foram repousar no fundo daquelas águas solitárias.

Caetano sobreviveu e, diferente dos versos de Oswald de Andrade, no poema Erro de Português, em um dia de sol desembarcou na América, no Sul do Brasil. E do encantador litoral brasileiro, embrenhou-se pelas matas até chegar a um lugarejo chamado Protásio Alves, onde fez morada e com outros imigrantes deu início à colonização do lugar.

Com muita labuta tornou-se um famoso comerciante de tecidos. Um dia, em uma festa descobriu o amor por uma mulher de nome Elisa. Moça morena, de cabelos longos, negros e luzidios. Apaixonaram-se. Casados, logo veio o primeiro filho, um menino, motivo de alegria e orgulho para o inexperiente pai.

Mas, a vida é efêmera. Ainda na quarentena, a mãezinha morreu. A dor foi tanta que Caetano, desesperado cortou uma mecha do cabelo da amada e chorando disse:
- Guardarei por toda a minha vida este cabelo seu minha querida. Quando eu morrer, quero que enterrem comigo essa madeixa que tantas vezes acariciei.

A partir da morte da esposa, a vida nunca mais foi a mesma para Caetano que tinha um bebê para cuidar. Por muito tempo as lágrimas fizeram-lhe companhia, até o dia em que Rosa, moça bonita, entrou na loja de Caetano. Um casarão em que embaixo ficava o comércio e em cima a moradia. Após uma troca olhares, em pouco tempo estavam casados.

Desse casamento muitos filhos nasceram. A alegria voltou ao lar. Eram felizes, pois, o pai, excelente orador, músico e cantor, todos os dias após o almoço, entoava canções em italiano para a mulher e os filhos que cresceram sabendo o significado do respeito pelo próximo, da solidariedade, do amor e da importância da família.

Com o passar do tempo, a morte resolveu novamente assombrar Caetano. O primeiro filho, o único que teve com a amada Elisa, no auge da juventude morreu afogado em um rio, depois de ter salvado o meio-irmão, das águas violentas de uma temível enxurrada.
A partir de então, Caetano nunca mais cantou e nem tocou gaita. Aos 90 anos, quieto e pensativo, faleceu. No caixão, nas mãos junto ao coração encontrava-se o cabelo da eterna amada, primeira mulher que, na flor da idade, após dar uma vida ao mundo, entregou-se à precoce morte.

As cartas levaram notícias à Itália. Os afins se confortaram. E o Brasil, terra heroicamente miscigenada, se tornou a Pátria amada dos inúmeros descendentes de imigrantes italianos como os do jovem da Calábria, do aventureiro Caetano Peluso.

 
     
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial - Dezembro de 2008/Janeiro de 2009