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Estocolmo O banho é tomado em um banheiro em que ou se toma banho, ou se usa o vaso sanitário. O tempo é cronometrado, 5 minutos. Tudo muito diferente de antes daquele quadragésimo sexto dia. A banheira de hidromassagem era do tamanho de tudo ali e costumava ficar duas horas cercado de sais, calmantes e champanhe. Não havia os cremes hidratantes que usava, nem aquele creme dental importado que brigava com sua empregada para que comprasse o certo. Hoje uma voz rude pergunta se ele precisa de algo, ele pensa que só precisa ficar vivo. Não quer luxo maior que esse. Mas tem a impressão que atrás daquele rosto que aparenta frieza, há uma preocupação sutil que nunca vira no rosto da empregada em mais 20 anos. Pensa em tudo isso enquanto curte 5 minutos preciosos debaixo da água gelada. Curte tão intensamente, que seria capaz de saber quantas gotas passaram por seu corpo. Alimenta-se
apenas duas vezes ao dia. A dieta de se alimentar de três em
três horas não lhe era mais permitida. Achava interessante
como nesses dias ele tinha emagrecido, sorria incrédulo. O
café da manhã tinha pão quentinho e um café
bem forte. A mesma voz rude lhe perguntava se queria açúcar
e lhe incentivava a comer, dava para notar que também percebera
a mudança física. Ouviu certa vez, quando um outro rapaz
chegava com os pães, que comprasse algo a mais para ele. O
rapaz de forma debochada: "Estamos aqui para conseguir dinheiro,
não para gastá-lo". A voz antes rude soltou um
suspiro solidário e fechou a porta para preparar o café
que cheirava muito bem. Anteriormente, nunca estava perto o bastante
da cozinha para apreciar aquele aroma. A xícara já na
temperatura ideal era levada até seu escritório enquanto
ele lia o jornal e saboreava inúmeros pães, geléias
e bolos. A voz rude sempre lhe oferecia para ler e avisava com um
tom reprovativo: "Se fosse o senhor não leria, as coisas
não andam nada boas." Ele se sentia grato pela observação
que antes nunca tivera e por vezes aceitava a recomendação
deixando de lado o jornal. Nunca ninguém antes se preocupava
com o que lhe poderia aborrecer logo pela manhã, avisando que
as notícias não lhe desceriam tão bem quanto
a primeira refeição do dia. Quarenta e cinco. Ou quarenta e oito. Não sabia bem. Baseava-se na pouca luz que entrava por debaixo da porta. O pouco de vida que lhe restava vinha daquela fresta. Lembrou das poucas férias que tirou. E em nenhuma delas ficou assim, sem fazer absolutamente nada. Se permitindo pensar em coisas que não eram possíveis em meio atribulações do mundo dos negócios. A noite a voz era substituída por um ronco grosseiro. Ele se assustou a primeira vez que ouviu, depois riu ao notar que era apenas sua companhia dormindo de forma pesada. Sono este que ele nunca conseguia ter. Perguntou-se como aquele rapaz mantinha a consciência tão limpa que lhe permitia um sono tão gostoso. Há muito tempo não tinha uma companhia para dormir, era bom saber que alguém lhe dividia a noite. E teve a curiosidade de saber quais eram seus sonhos. Nos primeiros dias da reclusão pensara em se suicidar, lembrou-se de quando chegaram ao local. O rapaz de voz rude tirou tudo que permitisse tal ato. Facas, lâminas, corda. Disse com uma calma aterrorizante: "Antes que o senhor possa pensar nisso. Deus não gosta de quem tira a própria vida." Espantou-se ao ouvir falar em Deus. Nem se lembrava se algum dia pensou em Deus. Não sabia ao certo quem esqueceu quem primeiro. Ele a Deus, ou Deus a ele. O rapaz no entanto pede a Deus todos os dias. De tanto acompanhar as orações, já arrisca um Pai Nosso sozinho, sem saber ao certo o que pedir. Quadragésimo nono dia. Algo sai da rotina. A voz rude amarra suas mãos nas costas, venda-lhe os olhos e conduz com passos firmes os dele. Apesar da situação, sente segurança. Alguém o ajudando a caminhar, como nunca tivera. Entra no que lhe parece um veículo e depois salta e anda mais alguns passos. A voz rude lhe diz, com um ar afetuoso escondido nas palavras duras: "Conte até 20 lentamente e siga andando, tire a venda e não olhe pra trás." Ouve o carro se distanciando e cumpre os comandos da voz em que aprendeu a confiar. Está livre. Mas sozinho. Olha por todos os lados e sente-se perdido. Não geograficamente, mas em seu interior. O sequestro chega ao fim. A voz rude jamais lhe dirigirá a palavra novamente. Não terá a atenção que por anos não teve. Nem a simplicidade dos dias correndo sem obrigações. Terá de volta seu conforto e sua solidão. Deixa seu corpo cair desolado. A polícia e a imprensa logo chegam. A pergunta é se ele está bem. Vivo. Ele está vivo. Bem, definitivamente não. |
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial
- Dezembro de 2008/Janeiro de 2009 |