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| Antologia
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Pedras portuguesas Aquela geometria ondulada estendia-se por toda a calçada, e Jefferson escolheu o pior momento possível para passear sobre aquele mosaico bicolor que identificava o bairro mundialmente. Era noite, havia acabado de chover, e o calçamento, hipnotizante, possuía agora um brilho singular, fruto do reflexo da iluminação artificial nas pedras úmidas. Estava inebriante, mas tornara-se escorregadio. Por isso, Jefferson resolveu voltar para o hotel após ter caminhado menos de quinhentos metros, teve medo de cair e de se machucar. Veio ao Rio de Janeiro a trabalho, daria uma palestra, a primeira na cidade como consultor motivacional de pessoas e equipes. A apresentação estava agendada para a manhã seguinte, e o que Jefferson menos desejava era faltar a um compromisso tão importante por causa de um escorregão estúpido. Atravessou a rua e ficou aliviado quando deixou para trás a calçada traiçoeira. Às onze da noite isso era fácil, o movimento de carros era pequeno. No caminho um grupo de mulheres chamou a atenção de Jefferson. Estavam paradas a menos de cem metros da portaria do hotel. Conversavam, gesticulavam muito, e suas roupas não eram discretas. Jefferson passaria direto se uma delas não tivesse chamado sua atenção. Não pela pouca roupa, mas pelo olhar, um olhar brilhante, verde, penetrante, que superava em destaque os cabelos loiros, o uniforme da classe, o excesso de maquiagem presente no rosto e as sardas negras salpicadas na pele branca. Ela contrastava com suas colegas de profissão, que, apesar de arrumadas com os mesmos exageros, possuíam uma postura diferente, olhares vazios. Jefferson, sem perceber, diminuiu a velocidade dos passos; estava preso pelo olhar que naquele instante parecia seu, exclusivo. A dona dos olhos foi de encontro ao peixe fisgado e o abordou. - Oooi gato! Tá frio aqui fora, não tá? Vamos para um lugar quentinho?... Jefferson já não era mais ele. A voz rouca e pronúncia arrastada terminaram com o pouco da razão que sobrara. Ele nem prestou muita atenção no que foi dito, se tivesse ouvido "paralelepípedo" teria surtido o mesmo efeito. O instinto agora imperava. Corpo, olhos, pele, olhos, sardas, olhos, cheiro, olhos, voz, olhos. Olhos! - Qual seu nome? Manoela abraçou Jefferson pela cintura, e as primeiras carícias começaram ali, na rua. Passaram pelo saguão do hotel sem chamar a mínima atenção; os funcionários já estavam habituados às acompanhantes dos hóspedes. Manoela fez o pedido do pagamento assim que entrou no quarto, e disse que por mais cinquenta reais ofereceria tudo, faria o serviço completo. Jefferson pagou, e aquele olhar percebeu que poderia ter sido mais ambicioso. Começaram. Manoela eventualmente gritava e gemia de forma desproporcional. Jefferson não deu atenção, estava surdo, concentrado no rosto da parceira, que, entre os gritos, abria os olhos e os mostrava verdes, brilhantes, numa moldura de sorriso de quem sabe que é responsável pelo prazer alheio. Isso embriagava Jefferson, aquele olhar subia e descia, subia e descia, deixava-o em transe. Ele nem fez questão do serviço completo. Também não se perguntou se aquele brilho verde não seria falso. Manoela foi eficiente, fez o cliente chegar ao objetivo em pouco tempo. Sem muita cerimônia deixou a cama e começou a se vestir. Jefferson agora sentia tudo estranho, o olhar havia sumido, as roupas que ela vestia o incomodavam, o cheiro, que ainda era o mesmo, também. A maquiagem, antes provocante, agora dava ao rosto um aspecto sujo. Reparou na raiz escura dos cabelos. Ela não merecia aqueles olhos! Um enjoo veio acompanhado de salivação excessiva, ânsia de vômito. - Traz uma água tônica antes de sair.
Está no frigobar. Trouxe para ele num copo e ficou com que sobrou na lata. Jefferson bebeu de uma vez só. Sentiu falta de ar. Levantou-se, vestiu a cueca e foi até a janela. E novamente sua atenção se voltou para a calçada, comprida, reluzente, ondulando em preto e branco. Sua cabeça agora também ondulava, acompanhava o movimento do mosaico num ritmo lento, sobe, desce, preto, branco. Lembrou-se do quanto aquela beleza atraente, brilhante, era escorregadia, traiçoeira, sobe, desce, preto, branco, sobe, desce, preto, branco, sobe, desce, preto, branco.... Caiu no chão numa batida seca, como se tivesse sido desligado. Manoela agora revistava todo o quarto, estava em busca dinheiro e de objetos de valor que coubessem em sua bolsa. Antes de sair desejou boa noite ao cliente estendido no chão. Fechou a porta lentamente e colocou o tradicional aviso vermelho "não perturbe" na maçaneta do lado de fora. Caminhou pelo corredor, entrou no elevador e lançou para a sua imagem no espelho o olhar que oferecia aos homens que cruzavam o seu caminho. Venceu os poucos metros do saguão e ganhou a rua. Alguns passos a separavam das colegas que continuavam na calçada. Ia ao encontro delas, mas mudou de idéia. Foi no sentido contrário. O último cliente havia pago muito além do que era esperado para uma noite inteira de serviço. Poderia descansar agora. Na manhã seguinte, cento e cinquenta pessoas aguardavam pelo palestrante atrasado. Haviam investido um alto valor para assistir a apresentação, e a demora já era de duas horas. Reclamaram muito. Após três horas de espera foram embora os poucos que ainda tinham a esperança de assistir a palestra. |
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial
- Dezembro de 2008/Janeiro de 2009 |