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Vander
Artur de Lima
Rio
de Janeiro / RJ
Pesadelo
Sobressaltada,
Suelen acordou. Arquejava; efeito de um pesadelo. Fortemente, duas
mãos apertavam-lhe o delicado pescoço. Sentindo-se sufocada,
abriu os olhos. Um suspiro lhe escapou dos lábios, quando percebeu
que ainda estava viva. Ficou por alguns segundos a boiar naquela sensação
de alívio. Só depois, então, é que se
levantou. Abriu a janela do quarto.Respirou fundo. Como era bom respirar,
pensou. Deu uma longa olhada no mar que se estendia diante de si.
Aquela visão trouxe-lhe um pouco de calma. Deixou-se ficar
naquela contemplação, numa tentativa vã de aniquilar
de vez certos pensamentos aterrorizantes que insistiam em
fustigar-lhe a alma.
Vivia sozinha naquele apartamento. Há cinco anos se descasara.
E desde então, evitou compartilhar o mesmo teto. Amores não
lhe faltaram; mas o receio de outro fracasso a
fez recusar várias vezes um novo casamento. Feridas profundas
sempre deixam cicatrizes!É ver-
dade; havia passado por grandes angústias. Ela, no entanto,
superou a si mesma. Com a partilha
dos bens, pôde abrir uma loja de roupas, razão do seu
orgulho, onde apresentava suas próprias
criações. Prosperara. Tornara-se uma pessoa empreendedora.
Ali, à janela, de repente, a
lembrança do pesadelo voltou a transtorná-la.Sem dúvida,
provocada pelos fatos de ontem à
noite. Às vinte horas já estava na sala do seu apartamento,
diante da televisão, acompanhando os noticiários. Na
telinha colorida, apareceram,então, dois assaltantes, filmados
pelo sistema de segurança de um banco. Ao se deter na imagem
repassada,em câmera lenta, julgou reconhecer um deles. Coisas
esquecidas começaram a vir à tona! Inquieta, sem sono,
passou boa parte da noite, relembrando. Toda a crueldade de que fora
vítima começou a se recompor, detalhe após detalhe,
em sua mente. Por instantes, teve a nítida impressão
de que ouvia a voz de um deles,dizendo: Gostosa, agora você
é minha! Tensos, seus nervos estremeceram. Ela pedia, suplicava;
em vão, o homem rasgou-lhe a roupa; depois, se debruçou
sobre seu corpo;enquanto ela se contorcia como um animal acuado, tentando
se desvencilhar. Apesar dos anos, toda aquela cena ressurgia inteira,
qual um monstro a se erguer das profundezas. Impotente, viu-se, em
seguida, estuprada pelo segundo homem. Roubaram-lhe o carro, colocando-a
amordaçada no porta-malas e a jogaram numa estrada deserta.
Meus Deus! - desesperou-se, fechando os olhos. Mas as lembranças
continuaram a brotar do seu passado. A polícia, casualmente,
num blitz, naquela mesma noite, prendeu os dois rapazes. Ameaçada
de morte , várias vezes, não se acovardou; manteve-se
firme até vê-los condenados. Eles juraram vingança.
Lembrou-se, de novo, das mãos que, no pesadelo, apertaram fortemente
a sua garganta - eram as mãos de um deles. Sentiu o pavor lhe
tomando conta da alma. Valha-me Deus! Valha-me Deus! - repetiu, baixinho,
para si mesma.
Afastou-se da janela, dirigindo-se ao banheiro. Rapidamente, ajeitou-se.
Agora,dentro do carro, ia em direção à sua loja.
Do apartamento até lá, levava no máximo uns vinte
minutos. De repente, voltou a se preocupar. Olhou, apreensivamente,
o retrovisor; a visão do assaltante perpassou-lhe pela mente.
Logo agora que tudo estava indo tão bem! - lamentou-se. O sinal
abriu e ela pisou forte no acelerador. Eles vão me descobrir!
Torturada, por tais pensamentos, entrou no estacionamento do prédio.
Agora caminhando, observava com mais atenção o movimento
das pessoas ao redor. A passos largos, chegou à loja. Cumprimentou
a
todos, pondo-se imediatamente à frente dos negócios.
Alguns dias se passaram. E ela ainda sofria com outros pesadelos.
Cheia de temor, vivia sob constante tensão. Nervos à
flor da pele. Dentro da alma, a expectativa de um encontro com aquela
desprezível criatura que tanto mal lhe causara, a angustiava.
Havia pensado em mudar-se para outra cidade; mas doía-lhe desfazer-se
das suas conquistas. Voltou a fumar. Coisa que já não
fazia há muitos anos. Sem que percebesse, torcia intermitentemente
as feições; efeitos, certamente, de todas aquelas emoções
de pavor que a torturavam noite e dia.
Estava ao volante. Trânsito lento,sinal vermelho. Eram oito
horas da manhã e o sol já se anunciava causticante.
Suelen, impaciente, xingou baixinho. Deu outra olhada no retrovisor,
apreensiva. De repente, percebeu uma motocicleta com dois ocupantes,
vindo, lentamen-
te, pelo vão deixado pelos carros. Sobressaltou-se. Fixou de
novo o olhar no retrovisor. Num
relance, julgou ver algo na mão de um deles. Alarmou-se. Aquilo
é uma arma! São eles! -concluiu, nervosa. Nisso, o sinal
abriu, o carro da frente movimentou-se e ela, com uma guinada brusca,
acelerou. Ouviu-se uma freada e uma buzina raivosa na traseira. Sem
hesitação, acelerando ainda mais, virou à direita
e, ao retornar o olhar ao retrovisor, já não os avistou.
Suspirou aliviada. Mas, ao refletir sobre o acontecido, preocupou-se,
então, com a manobra que fizera. Quase provocara um acidente.
E se tivesse se precipitado, imaginado que era uma arma! - pensava
agora. Eles desapareceram, logo que dobrou a rua. Não; eles
não estavam a persegui-la, tudo não passou de uma falsa
impressão - raciocinou, com a cabeça fria. Quase provocara
um acidente! - repetiu para si, um calafrio percorreu-lhe todo o corpo.
Mal chegou ao apartamento, depois de um dia cansativo de trabalho,
acionou de imediato o controle da televisão. No íntimo,
aguardava uma notícia que pusesse fim àquele tormento.
Que eles, num confronto com a polícia, tivessem morrido. Ansiosa,
mudando os canais,corria os olhos e os ouvidos pelos noticiários.
Nada! Ficou, então, prostrada, no sofá da sala, sem
forças para se mover. De repente, sacudida por um desejo de
não se consumir tanto, levantou-se,
indo até a cozinha, onde preparou uma refeição
rápida.
Lavava a louça, quando o telefone tocou. Dirigiu-se à
sala; hesitou, por instantes, em atender. Vencida, porém, pelo
tinir insistente do aparelho; sua mão trêmula segurou
o fone e a sua voz, receosa, afinal, murmurou:
- Alô!
- Alô, Suelen. Sou eu, Romualdo, acabei de chega de viagem.
Morro de saudades! Como vai?
- Que surpresa! - disse, aliviada. Também estou com saudades!-
mentiu; com todos aqueles problemas, quase se esquecera dele. Tiveram
um breve relacionamento, interrompido por uma viagem a Nova York.
Viagem a negócio, assim ele lhe dissera. Há mais de
vinte dias que lá estava.. Finalizando a ligação,
ele lhe disse que passaria na loja para almoçar juntos. E despediram-se.
Suelen sentiu desejo de lhe contar tudo o que ocorria. Mas segurou
o desabafo; sentiu que a hora era imprópria. Colocou o fone
no gancho e dirigiu-se ao quarto, deitando-se. Pensou em Romualdo,
no jeito suave com que ele a tratava, esquecendo-se, por instantes,dos
receios que a acometiam sempre àquela hora da noite.
Acordou cedo. O telefonema de Romualdo, de certo modo, fez com que
ela relaxasse um pouco; tivera, por isso, um sono que a reconfortou
interiormente. Sentia-se mais calma, mais disposta. Preparou-se sem
pressa: secou e escovou os cabelos. Em seguida, após alguns
segundos de indecisão, escolheu um vestido que lhe caiu bem.
Perfumou-se levemente, retirou da caixa um par de sapatos novos, que
comprara há três semanas e que ainda não tivera
oportunidade de usar , calçou-os; e , diante do espelho, após
uma última olha dela em torno de si mesma , saíu.
Na loja, ficou sabendo que uma de suas funcionários adoecera.
Justamente a que era responsável pelos serviços externos
da empresa. Como havia contas a pagar e a necessidade de sacar algum
dinheiro, Suelen resolveu ir ela própria ao banco não
muito distante dali. Lembrou-se, então,que Romualdo havia combinado
de pegá-la para o almoço. Se
agisse rápido, pensou, teria tempo suficiente. Olhou o relógio
de pulso: dez horas. Imediatamente saiu em direção ao
estacionamento. Pegou a avenida, fez o retorno, passando para o outro
lado da pista, rodou alguns metros e avistou a agência bancária
que desejava. Estacionou o carro, pondo-se, em seguida, na fila única,
que curveteava à espera de atendimento.
Após ter trocado algumas palavras com um senhor a sua frente,
calou-se. E agora, meio distraída, acompanhava resignada o
ritmo lento com que a fila se deslocava em direção aos
caixas. Quando, de repente, ouviram-se vozes ameaçadoras gritando
no recinto, provocando calafrios em todos.
- Todos quietos! É um assalto! Quem mexer, morre!
Eram quatro os assaltantes. Um deles, talvez para intimidar,deu uma
coronhada na cabeça de um homem, derrubando-o. Já haviam
dominado os seguranças do banco. Suelen, em pânico, baixou
a cabeça; encolheu-se apavorada com a possibilidade de serem
dois daqueles homens os mesmos que a violentaram há cinco anos.
Com um leve gesto, virou os olhos na direção deles.
E, ao pousá-los em um dos assaltantes, à sua esquerda,
teve a impressão que o reconhecia. São eles! - torturou-se.
Não podia ficar ali, eles a veriam, e então a matariam.
Enquanto agiam, o assaltante que ela julgou reconhecer, gritou, feroz:
- Quem se mexer, morre! Todos quietos, porra!
Suelen estremeceu, um desnorteio a dominou, impedindo-a de raciocinar
com frieza. Ao perceber que o rosto do assaltante se desviara para
o lado oposto;num átimo, correu para a porta. O seu desespero
era tanto que não ouviu a sentença dita pelo homem assim
que a viu, naquela tresloucada atitude.
- Pare, senão atiro!
Em vão. Soaram, quase simultâneos às palavras,
dois disparos. Suelen, de repente, baqueou, desabando ao chão.
Uma poça se formou lentamente ao lado dela, avermelhando os
olhares de horror. Os assaltantes, agitados, não demoraram
mais que dez minutos, saindo, em disparada. Alguém, então,
perguntou:
- Por que ela correu?
Não se ouviu resposta. Em derredor, murmúrios abafados,
cheios de nervosismos, povoaram, de súbito, o ambiente. Todos
a fitavam, compelidos pelo estupor. Caída, de borco, a quase
dois passos da porta, Suelen já não se mexia; o belo
vestido que de manhã havia escolhido, cobria agora sem elegância
o seu cadáver.
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