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Insanidade
Ela morreu cedo demais!
Eram apenas oito horas da manhã quando seu coração
não mais batia e sua mente não mais produzia suas lidas
e breves ilusões. Ela morava no primeiro andar de um prédio do bairro mais antigo da cidade. Suas paredes úmidas e madeiras ligeiramente cobertas de limo, o cheiro de mofo e os cheiros de vômito eram o reflexo da presença de muitas árvores junto a prédios e vidas de estruturas corrompidas. Ainda, agarrados à sua fachada, remanesciam alguns azulejos antigos e intercalados. A sombra das copas das árvores produzia um efeito tenebroso. Naquele apartamento, era como noite o dia inteiro! Encantada com a beleza do bichano e, ainda, regida pelas ondas alucinógenas das substâncias introduzidas em seu corpo, apanhou-o em seus braços e o pôs a ninar. Recuou cerca de cinco passos e, no centro da sala, alisava-lhe o pescoço. Sentiu uma agonia, uma aversão repentina e, lentamente, apertou-lhe.
Sete e quarenta e sete foi o momento em que a sua vizinha ouvira o
primeiro grito de desespero. O filho que arrebatara em seu colo não
mais ronronava. Quando cercado pela morte, rasgou-lhe as carnes antes
do fim de sua sétima vida. Sete e cinqüenta e três deu seu segundo grito. Estridente como o primeiro e menos lúcido como dantes. Abriu-se um buraco negro que a sugou, lançando-a novamente para sala. Pelo seu nariz saía uma substância aquosa, ligeiramente plástica e de uma vermelhidão incrível. Percebeu que por seu ouvido direito e mãos também surgia tal fluido. Levantou-se e, naquele ambiente de objetos de olhos vivos a espreitá-la, viu, por sobre o tapete de pêlos manchados, o gato camuflado ao mesmo. Estranhou um ser tão lindo estar dormindo em sua casa. Os sofás em estilo colonial encostavam-se nas paredes como se os mesmos tentassem fugir. As cortinas nem sequer balançavam e carregavam um peso advindo de seres que por muito tempo se multiplicaram em meio àquele habitat impenetrável. Foi exatamente sete e cinqüenta e seus quando o primeiro ser lúcido atravessou a porta esquecidamente aberta. E foi também o momento mais importante de sua vida: fez um contato imediato do terceiro grau. O ser que adentrara ao apartamento possuía membros dispostos côo braços e prolongavam-se desde a altura dos ombros até os joelhos. Sua cabeça era como de gente mas possuía uma aparência opaca demais para que fosse vivo. Na andava! Deslocava-se pelo chão utilizando-se de membros que se pareciam com pernas, porém com uma aparência em demasia grotesca.Amedrontou-se e não teve disposição suficiente para gritar novamente. Como sugere a insanidade, repentinamente, estilhaços de vidro cobriram todo ar fora do apartamento. E, antes que os últimos grãos caíssem, seu corpo tombava próximo ao portão principal em convulsão frenética. Apesar das muitas sombras, foi possível a entrada da luz solar (que até então não conhecia tal espaço) através da janela agora quebrada. Esta sustentou também a vizinha que, lá de cima, debruçada no que lhe restava, suplicou em sussurros trêmulos por uma vida. Entretanto, nem mesmo a queda foi o suficiente para uma morte digna. Um andar é realmente muito pouco para um corpo sob anestesia geral. Sete e cinqüenta e nove. Causa da morte: parada cardíaca por overdose de drogas. |
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial
- Dezembro de 2008/Janeiro de 2009 |