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A mão pelada Há pessoas que se tornam escritores porque gostam de ler e outras se tornam cozinheiras porque gostam de comer. A vovó Silvina foi uma excelente cozinheira, que teria sido ótima escritora. Pessegada, goiabada e outros doces eram algumas das especialidades dela. Na época da goiaba ela pegava umas bolsas, e chamava:- "aqueles que gostam de goiaba, de goiabada, e estão dispostos a passear, venham comigo". Saíam cedo e regressavam à tardinha com as bolsas cheias de goiabas, cansados e felizes. E a Nona fazia a cheirosa goiabada. Ela era descendente de negra com italiano. Meu irmão, dois anos a mais do que eu, insistiu para que eu fosse com eles. - "Vamos passear, vamos ao paraíso das goiabas, é no Quebra Frascos, lá é muito bonito... Vamos!? Vamos"!?... Fui. Carregava uma sacola grande na mão e na cabecinha um monte de ilusões. Os pés começaram a doer, as perninhas finas não queriam mais obedecer. A vovó num ritmo acelerado parecia que voava. Meu irmão percebeu que eu não estava agüentando mais caminhar, usou o argumento tentando insuflar coragem para eu seguir em frente: - "Vamos tomar café na casa de Maria de Claudionor, ela faz um bolo gostoso"!
Levei um susto enorme quando ele falou que iríamos passar na
casa dessa senhora. Um dia ouvi a amiga da minha mãe, a Maria
de Claudionor, falar que não podia ir muito tarde para casa,
porque ela tinha muito medo da Mão Pelada. Contei para o meu
irmão a conversa que tinha ouvido. Esqueci o cansaço
e comecei a correr. E, se a tal da Mão Pelada aparecesse? De
que tamanho deveria ser aquela mão? Eram duas mãos ou
uma só? Por que era pelada? Pensava numa mão agigantada,
solta, saindo do meio da mata aguardando eu passar para agarrar-me...
Corri, corri muito. Não conseguia parar de pensar. E imagens
cada vez mais assustadoras tomavam conta da minha mente.
Numa certa altura do caminho, ela passou a frente. Vovó sumiu
na curva, eu sentei vencida pela fadiga!... Meu irmão fazendo
tudo para eu continuar andando. - "Olha a Mão Pelada,
é a hora que ela passa por aqui, vai pegar você... Venha
rápido... Está pertinho". Comecei a chorar, não
agüentava mais, quase duas horas de caminhada, e a maior parte
do caminho era subida, não tinha uma casa, só mata e
capim. E ele, joga a última cartada para que eu liberasse um
pouco mais de energia: Aquelas palavras atingiram-me como flechas energéticas. As forças voltaram num passe de mágica. Levantei cambaleante e avancei em direção a meta almejada. Fiquei maravilhada com tudo que vi: muitos pés da fruta, muitas qualidades e goiabas em abundância e sem dono! Não sei como a vovó descobriu aquela dádiva. Enchemos as bolsas, comemos goiabas, na volta tomamos café na casa de Maria de Claudionor. E aproveitei para perguntar para ela como era a Mão Pelada. - "É uma onça!" - explicou ela apavorada. Não lembro de como foi à volta. Sei que à noite sonhei com a onça correndo atrás de mim, com mãos grandes sem pelos e não me pegou porque eu corri mais do que a "Mão Pelada". No dia seguinte fiquei acamada com febre e muita dor no corpo. Algum
tempo depois li que "Mão-Pelada" não é
uma onça. É um animal carnívoro chamado guaxinim,
com rabo grande igual de um macaco, com pelos pretos por todo corpo
e marrom ao redor dos olhos como se fossem óculos, tem as patas
peladas e não gosta de claridade. E pensar que a Maria de Claudionor
passou a vida toda com pavor de ser devorada pela "Mão
Pelada..." que só caça insetos, caranguejos, rãs,
pássaros e outros animais pequenos. Em algumas regiões
ataca o gado à noite. |
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial
- Dezembro de 2008/Janeiro de 2009 |