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Antonio Belmiro da Silva Junior
Brasília / DF

Dividido

Havia mais de quinze dias do acidente com Jonas. Ele estava inconformado. Por que não morrera de uma vez? Achava sua situação muito desgastante. Se por um lado, seu corpo parecia num sono pacífico e profundo, seu espírito zanzava intranqüilo pelo quarto. Será que aquilo era o inferno?

Seu humor só melhorava nos horários de visitas. Na semana do acidente, recebeu visita de quase todos os colegas de trabalho. Depois apenas sua avó e Rúbia o vinham visitar. Rúbia sentava na cabeceira da cama e lia algumas páginas do livro do Saramago, acariciava seu rosto e se despedia com um até amanhã. Dona Marta rezava o terço baixinho, depois lhe dava um beijo e saía com lágrimas nos olhos.

Naquela tarde de domingo, Dona Marta chegou acompanhada por um padre.

"Querido, vovó lhe trouxe uma visita especial." Falou, como se adivinhasse que Jonas a podia ouvir.

Padre Samuel ajoelhou-se ao lado do corpo, pôs a mão na altura do coração de Jonas e perguntou mansa e pausadamente: "Filho, você já pensou em ir em direção à luz?".

O espírito de Jonas se aproximou do padre e gritou:

"Você está maluco, velho! Que história é essa de luz? Isso não existe! Isso é invenção de malucos que dizem que morreram e voltaram!".

Por um bom tempo, o padre continuou repetindo calmamente: "Filho vá para a luz!"

Como se fosse um mantra, as palavras do padre Samuel foram quebrando a barreira de revolta de Jonas e enchendo seu coração de paz. Aquela impaciência, que o acompanhava desde os primeiros dias, foi diminuindo e, pela primeira vez depois do acidente, sentiu uma calma quase inexplicável. Aquele transe hipnótico permanecia. Após alguns minutos, Jonas pôde observar que o quarto começava a se iluminar de uma maneira diferente da que ele estava acostumado. Raios de sol atravessavam a janela e, apesar de intensos, não incomodavam seus olhos. Ele se sentiu atraído por aquela luz e desejou obedecer ao padre.

Jonas virou-se em direção ao ponto mais ofuscante da luz e estava pronto para acatar o conselho do padre quando um enfermeiro entrou no quarto.

"Vocês precisam de alguma coisa?" Perguntou, enquanto caminhava em direção ao corpo e iniciava a substituição do soro que estava preso no braço de Jonas.

"Não obrigada. Estamos bem." Respondeu Dona Marta.

Sem dizer mais uma palavra, o enfermeiro substituiu o soro e se retirou.

Se o padre Samuel ficou chateado com a interrupção, ninguém nunca o saberia, pois este não esboçou nenhum sinal de sua insatisfação. Apenas levantou-se e caminhando em direção à Dona Marta, falou:

"Marta, tenho que visitar outros doentes. Passo aqui outro dia está bem?"

No entanto, antes de sair, padre Samuel deu meia-volta e, debruçando-se ao lado do corpo de Jonas, falou baixinho:

"Agora você já sabe o que fazer. É só seguir a luz".

Dona Marta sorriu, despediu-se do padre Samuel e sentou-se para rezar seu terço. Ao terminar o terço, beijou o rosto do seu neto, como sempre fazia, despediu-se e foi embora.

No caminho de casa Dona Marta ficou pensativa:

"Será que aquilo era um sorriso no rosto de Jonas ou foi impressão minha?".

...

As palavras do padre Samuel não saíram da cabeça de Jonas. Bastou relaxar um pouco para perceber que a iluminação do quarto mudava e que a luz que vinha da janela se intensificava. Desejou estar na luz e, no mesmo instante, viu-se flutuando na direção dela.

Sentia uma paz que nunca havia experimentado em toda a sua vida. E, quanto mais se aproximava do centro da luz, mais sentia a paz na sua plenitude.
"Se essa é a sensação da morte, eu não deveria nem ter nascido."

Jonas, ainda estava saboreando aquela sensação, quando uma voz lhe ordenou que regressasse:

"Filho, ainda não chegou sua hora. Volte. Você ainda tem muito que aprender."

Era uma voz doce, mas imperiosa. Não fazia sentido desobedecer.

Jonas sentiu que estava muito perto e se entristeceu por ter que voltar. Sentimentos contraditórios brotavam dentro dele. Havia o desejo imenso de permanecer naquela paz que o impulsionava em direção ao núcleo da luz. Mas, havia também a obediência. Algo dizia que deveria acatar a ordem da voz e voltar. Enquanto lutava com seus sentimentos, a velocidade de sua viagem diminuía e a sensação de paz começava a desaparecer.

A obediência estava quase vencendo a vontade de ficar, quando Jonas cometeu o ato pelo qual iria se arrepender pelos restos de seus dias. Em um rompante de loucura, atirou-se em direção ao núcleo da luz e o tocou.

A dor que se seguiu fez Jonas ter desejado nunca ter cometido aquela insanidade. Enxergou todos os momentos de dor que vivenciou em sua vida corpórea. E sentiu o acumulado de todas aquelas dores. Era como se tivesse sendo rasgado ao meio, mastigado e depois cuspido. Tudo isso em uma milésima parte de um segundo, até abrir os olhos e perceber-se no quarto do hospital.

Jonas não teve tempo de se recriminar. Percebeu que seu corpo poderia ter sofrido algo em decorrência da sua insensatez e virou-se em direção à cama.

Entre surpreso e incrédulo, Jonas notou um espectro perto do seu corpo e não gostou do que sentiu. Era uma entidade negra e fantástica que exalava um cheiro de puro ódio. Um ódio denso na sua mais pura essência, se é que ódio pode ser chamado de puro.

Jonas sentiu uma sensação contraditória, pois algo naquele espectro o lembrava de si mesmo. E quando o espectro se virou, Jonas se viu no reflexo daqueles olhos. Dessa vez, gostou da imagem que via. Era uma luz brilhante, que não incomodava os olhos que a fitava. E era uma luz que transbordava amor.

E, como se completassem a frase que o mendigo havia dito antes do acidente, ambos os seres exclamaram: "... e quem tiver olhos para ver... que veja!".

Se olharam por alguns instantes. Depois, o espectro sorriu. Foi um sorriso breve e irônico. E, numa explosão, desapareceu.

O corpo de Jonas estremeceu e uma lágrima escorreu do seu olho esquerdo. E, mais do que nunca, o Jonas de luz se sentiu só.

 
     
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial - Dezembro de 2008/Janeiro de 2009