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Julio
Cesar Novaes Ferreira
Pindamonhangaba
/ SP
Na
torre da igreja
Os
dois amigos, Julio e Cezinha, ambos com sete anos de idade, era mesmo
uma relação de pura amizade e companheirismo, confusões
e brincadeiras se misturavam quase todos os dias. Estavam sempre juntos,
e no catecismo, não foi diferente, também fizeram aos
domingos na igreja matriz numa pequena cidade no interior de Minas
Gerais. As aulas eram dadas à tarde, as turmas espalhadas pelos
bancos do interior da igreja. Desde que foi reformada, ela ficou bastante
mudada, diziam os mais velhos. A "capela lateral em situação
oposta à sacristia possuía piso de madeira; no altar
dos fundos ficava a imagem de roca de Nosso Senhor dos Passos, muito
bem elaborada, com a fisionomia perfeita de Jesus, apesar dos sinais
de sofrimento, tendo roupa de veludo roxo. Abaixo do altar, ficava
o Senhor Morto, a imagem que, durante a Semana Santa, é erguida
na cruz. As crianças sentiam certa comoção ao
vê-la. No outro extremo da capela, após a porta, havia
a imagem de Nossa Senhora das Dores que tinha a atitude da grande
maioria das imagens congêneres: os braços pendentes,
em sinal de desalento, e a fisionomia transparecendo uma grande dor".
Nos fundos da nave, bem ao centro, havia uma pintura imitando uma
grande cortina que se desprendia do teto até o chão,
bem atrás da imagem de Santa Rita de Cássia. "As
outras paredes eram pintadas com grosseira imitação
de mármore e algumas pretensões góticas. As pinturas
do retábulo e os murais de Santa Rita, com cenas de sua vida
e toda obra artística das cúpulas foram feitas pelo
artista Vitório Goretti, de Belo Horizonte, contratado na ocasião
pelo Padre Machado". Na entrada da igreja, havia uma parte elevada
destinada ao coro e ao órgão. Neste lugar, é
que existiam as entradas laterais que levavam até as torres
onde estavam instalados os sinos e o relógio no meio delas.
Certo domingo, os dois amigos decidiram que deveriam visitar aqueles
lugares que, há muito, os deixavam com muita curiosidade! Então,
após o término do catecismo, foram eles para a empreitada.
Sabiam que, se pedissem ao sacristão, este não haveria
de deixar. Então, subiram as escadas do coro sem que ninguém
visse. Estando lá em cima, notaram que a porta de acesso a
uma das torres estava aberta: "- fácil demais!"-
pensaram. Como a igreja estava vazia, empurraram a porta sem maiores
preocupações, mesmo rangendo de modo agudo, pois ninguém
haveria de vê-los mesmo... Chegaram numa pequena sala com cheiro
de velas onde havia uma escada muito estreita e íngreme num
canto dela. E na outra parte estava uma grossa corda, dando pra perceber
que era por onde o sacristão tocava o sino. Exploraram a sala
por alguns instantes e resolveram continuar, subindo pela estreita
escada. Depois de exaustivos degraus, depararam com um alçapão
que parecia trancado, mas com um pouco de força os dois conseguiram
abri-lo, batendo numa estrutura de ferro junto à parede, fazendo
um enorme barulho! Por um instante, pensaram em voltar, mas depois
de alguns minutos, como não houve nenhuma manifestação,
continuaram. Lá no alto, junto ao sino enorme, ficaram extasiados!
A visão de cima era incomum para eles! Em certo momento, sentiram
um pouco de medo por estar lá. O Cezinha quis voltar, mas o
seu amigo logo o convenceu ao contrário. Ele estava nas alturas,
sentindo-se deslumbrado com a façanha de ficar num lugar tão
diferente... Mas, depois de muita insistência, resolveram voltar.
Quando se viraram para tal, chegou de repente um bando de pombos que
entraram na torre sem perceber que havia intrusos ali. O susto foi
de ambas as partes! E com isso os meninos esbarraram numa alavanca
que fez com que a tampa do alçapão se soltasse, caindo
e fechando a entrada! Só que, na violência do choque,
a tampa passou do pequeno batente e travou pelo lado de baixo.
Um olhou para o outro, como com quem diz: "- e agora???".
E não havia muito o que fazer, pois não conseguiriam
abrir a tampa, mesmo depois de se esforçarem ao máximo
para puxá-la.
- Não adianta, é muito pesada! - eles concluíram.
Resolveram tentar tocar o sino, mas não obtiveram sucesso,
pois o badalo era muito pesado. Sentaram no chão e houve, por
um instante, certo arrependimento... Resolveram, então, gritar
e chamar por socorro. Talvez alguém ouvisse lá de baixo,
mas foi em vão. As poucas pessoas que passavam por ali, até
que ouviram os gritos, mas não conseguiram distinguir de onde
vinham. Existia um pequeno parapeito ao redor das torres que dificultava
a visão... Tentaram chamar a atenção dos moradores
das casas assobradadas que havia na lateral da igreja, mas, apesar
de serem bem próximas, não obtiveram sucesso, pois ninguém
apareceu nas janelas. Depois de algum tempo, desistiram e sentaram
no chão novamente, já com ar de desolação...
Então, o Cezinha perguntou, já com a voz embargada:
- E agora, como vamos sair daqui?
Depois de alguns minutos em silêncio, seu amigo respondeu:
- Já sei! O sacristão deve tocar o sino meia hora antes
da missa das seis e...
- Mas e daí? Como vamos fazer para ele ver a gente? - seu amigo
interrompeu curioso.
- Vamos puxar a corda toda aqui pra cima. Assim ele terá que
subir para ver o que aconteceu!
Assim eles fizeram: a grossa corda foi puxada com certa dificuldade,
pois era pesada. Deixaram-na enrolada num canto e sentaram exaustos
a aguardar que o plano desse certo.
O sacristão chegou na hora de costume, foi até a sacristia
e se encontrou com a Dona Josefa, quem fazia a limpeza daquele dia.
Conversaram um pouco sobre os acontecimentos do momento:
- O Padre Netto está meio resfriado hoje. Estive na casa paroquial
e ele está espirrando muito. Fiz um chá bem forte pra
ver se ele melhorava - disse a mulher limpando uma escrivaninha.
- E ele melhorou com o chá? - perguntou o sacristão.
- Espero que sim! Já vou lá ver como ele está.
A propósito, ele pediu para que tocasse o sino um pouco mais
cedo hoje.
- Mas por que mais cedo? E quanto tempo antes?
- Não sei, acho que as pessoas estão vindo tarde para
a missa, acho que é isso. Talvez uns quinze minutos antes,
acho que está bom - ela concluiu.
- Então vou lá porque já é quase cinco
e vinte.
Assim ele saiu em direção ao lugar de costume.
Subiu as escadas do coro e chegou à entrada da sala de acesso
ao sino. Estranhou a porta aberta, pois sempre a deixava trancada,
mas entrou... Não encontrando a corda que deveria tocar o sino,
ficou surpreso! Olhou para cima e viu que nem na abertura em que ela
passava a corda estava lá: "- O que será que houve,
será que soltou, mas onde ela está, então?"
- pensou consigo mesmo. Achou melhor subir até a torre e providenciar
logo o badalar do sino. Teria que fazê-lo lá mesmo, depois
averiguaria o que aconteceu. Subiu pela escada estreita e chegou até
o alçapão, mas não conseguia empurrá-lo
como de costume, pois estava preso. Notou, então, que ele havia
transposto o batente, tendo que forçar mais do que de costume
para abrir... Quando conseguiu e começou a entrar, se assustou
com o que viu:
- Oi, estava esperando pelo senhor - Julio disse calmamente...
O sacristão logo se refez do susto, dizendo:
- Mas o que vocês estão fazendo? Como chegaram aqui?
- ele perguntou já acabando de entrar no recinto com cara de
preocupado.
Eles explicaram mais ou menos o que aconteceu, que o estavam esperando
para poder sair de lá. O sacristão ficou meio sem entender
direito, mas não podia ficar ali ouvindo conversa de moleque,
pois estava ficando tarde para tocar o sino. Fez com que eles descessem,
colocando a corda de volta no devido lugar. E, depois, já na
parte de baixo, fez o seu dever.
Os dois saíram de lá aliviados, mas preocupados com
o que iriam dizer aos seus pais, pois afinal o catecismo já
havia acabado fazia algum tempo. Mas não foi difícil
convencê-los de que estavam na rua brincando, não havendo
represálias, até que o sacristão deu com a língua
nos dentes...
Naquele dia, após a missa, ele contou para o pai do Cezinha
o acontecido e este ficou uma "arara"! Logo foi falar com
os pais do amiguinho, mas estes, depois de uma boa conversa e uns
puxões de orelha, disseram que tudo estava esclarecido...
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