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Próximo Uma noite escura. A única luz que poderia ser vista, no futuro local do assassinato, era a dos vaga-lumes piscando. Eu não estava lá na hora do crime. Ainda bem, mesmo porque não teria gostado de ter presenciado a cena do sangue jorrando do corpo da vítima, pintando de vermelho as folhas das árvores mais próximas e se incorporando na terra fofa da mata fechada. Não, definitivamente, não teria ficado feliz em ter visto meu amigo Antunes, personagem adjuvante desta história, ter sido assassinado. Seus uivos de dor, misturados ao coaxar dos sapos e, de longe, com o piar das corujas, teriam me deixado traumatizado. Muito pior teria sido vê-lo alguns dias depois de sua morte, quando fora encontrado pela polícia. Seu corpo, já em estado bastante avançado de decomposição, mostrava os sinais da tortura a que fora submetido. Suas mãos nem sequer foram encontradas no local do crime e seus olhos, de cor azul piscina, apresentavam-se perfurados por dois pequenos filetes de pau. Sim, caro leitor, caso não tenha percebido, chamei Antunes de amigo. Não que ele realmente fosse meu amigo. Não era. Eu nunca o conheci em vida. Porém, acho que a compaixão, a pena, a forma de como o coitado fora assassinado, me fez sentir mais próximo dele. Você, leitor, bem sabe do que eu estou falando. Creio que também já deve ter tido essa experiência. Imagino que, assim como eu, você já se aproximou bastante de algumas vítimas da morte, bem como de algumas vítimas da vida, a ponto de se sentir próximo o bastante para lembrar que estais e sempre esteve vivo. Permanecestes, no entanto, suficientemente longe com a intenção de se proteger e evitar a própria morte. Foi exatamente assim que me senti com meu amigo. E, felizmente, por pensar deste modo, ainda não encontrei o assassino no meu caminho. Não, ainda não. Porém, pensando bem, eu acabei de contar um fato irreal. Eu o encontrei sim, por uma única vez. Foi exatamente na ocasião do sepultamento de Antunes que meus olhos, durante alguns segundos, se depararam com o dito cujo. Os policiais podiam tê-lo prendido, na época, caso eu tivesse contado toda minha história aos investigadores responsáveis por este caso de homicídio. No entanto, preferi apenas relatar os fatos, ou parte deles, a você, amigo leitor. Não me intrometi ou alterei o curso da história porque, afinal, nunca interfiro de forma direta no destino dos meus personagens. Por isso não pude ajudar a prender o assassino. Deixei-o livre. Aliás, adianto que, embora não enfatize mais isso no final deste conto, era tudo que meu assassino, ou melhor, que o assassino dessa história queria. Sim, ele queria liberdade. Brigava e matava por ela. Infelizmente, não posso fornecer mais detalhes. Mas, voltando ao assassinato, gostaria de contar sobre certa inscrição que havia sido gravada sobre o corpo de Antunes. Confesso, no entanto, que nem eu consegui decifrar o significado da mesma e que, caso tivesse conseguido realizar tal façanha, não teria contado a você, amigo leitor. Pode me achar arrogante ou, até mesmo, dizer que a história, por falta de acontecimentos, está começando a ficar desinteressante. Não me importo. Essa é a realidade. Nem sempre sei tudo o que acontece, nem sempre conto tudo o que sei, e ponto final. No fundo, caro leitor, tenho certeza que você, se estivesse no meu lugar, faria a mesma coisa. Mas, por agora, vamos apenas nos ater ao próximo parágrafo, o enterro. Bem, quanto ao enterro do meu amigo assassinado, o que posso dizer? Foi um enterro normal, exceto, é claro, pelo fato de que muitos personagens importantes desta história jogaram flores sobre o caixão, enquanto o mesmo era vagarosamente colocado abaixo da terra. Como disse anteriormente, até eu estive por lá. Adoro um sepultamento! Mas, obviamente, não fui eu parte central da cena, mesmo porque não tenho relação direta com tudo o que aconteceu. Quanto às outras pessoas, bem, essas sim podem ter tido papel fundamental para os acontecimentos subseqüentes. Talvez não deste conto, que logo mais chegará ao final, porém, quem sabe, de alguma outra história que será contada por alguém, em um futuro não tão distante. Quem sabe também poderá ser encontrada nos registros pertencentes ao departamento de homicídios de alguma delegacia. Mas, continuando, além de mim, estava no enterro a mãe de Antunes, a qual era só lágrimas, do início ao fim de toda a cerimônia. Depois dela, merece também destaque a linda Geórgia. Não me perguntem o motivo desta moça ter ido ao enterro, pois a mesma, a princípio, não tinha nenhuma relação direta com o jovem Antunes. Eu só sabia, na ocasião, que ela seria a próxima vítima. O detalhe fundamental do sepultamente foi o assassino. Ele, como disse anteriormente, também esteve por lá. Seu olhar cativante, sua expressão solidária, seu discreto sorriso no rosto e, obviamente, seu crucifixo no pescoço, faziam do rapaz um ser simpático e confiável. Pois é,
caro leitor. Praticamente já cheguei ao final do conto. Porém,
agora, relendo-o pela última vez, percebi que talvez não
tenha um sentimento assassino entremeado na minha circuitaria neuronal.
Talvez não tenha um bom faro para contar a história
de um matador ou, quem sabe, assim como o assassino, aparento ser
suficientemente simpático e confiável e, portanto, não
me enquadro diretamente com o tema abordado. Por esse motivo, decidi
recomeçar. Sim, contarei algo mais brando e romântico.
Algo que talvez nos assuste mais do que um crime, porém, pelo
menos, torna nossas vidas mais esperançosas. Nesse caso, façamos
o seguinte: esqueça tudo o que leu nos parágrafos anteriores,
pelo menos por enquanto. Iniciarei uma nova história sobre
Geórgia e Antunes. Depois, caso queira, junte os fatos e dê
a eles o final em que acreditares ser o mais real ou verdadeiro. |
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial
- Dezembro de 2008/Janeiro de 2009 |