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Giulia Martinovic
Rio Claro / SP

Primeiro dia de aula

Era uma manhã chuvosa de fevereiro e não fazia frio, no entanto, Dorian vestiu sua jaqueta de cor escura que muito apreciava por cima do uniforme. Nem sentiu o gosto do desjejum, sua mente estava ocupada em imaginar sobre a nova escola e a sensação estranha de estar em um lugar onde não se está habituado, juntamente com pessoas desconhecidas das quais não se sabe nem o nome.
- Certamente chamarei a atenção - murmurou-, espero que os outros alunos não zombem de mim...

Seu pai que lia o jornal sentado no seu sofá preferido retrucou:
- O que acabou de dizer filho? Eu não entendi nada, fale mais alto!

Mas os ouvidos de Dorian evitaram escutá-lo, afinal, não se sentia disposto para discutir acerca de seus habituais monólogos. E neste mesmo estado de espírito saiu de casa, deixando sobre a mesa o frugal café da manhã ainda intacto. Tinha um longuíssimo caminho adiante, o novo colégio situava-se em um bairro do outro lado da cidade.

A chuva já havia cessado parcialmente quando ouviu o inconfundível ruído das poças de água sendo pisoteadas. Era uma graciosa garotinha de cabelos ruivos, uma autentica ninfeta, vestindo o uniforme da mesma escola que a sua. Ela estava junto de sua mãe e conjeturava ansiosamente acerca de seu primeiro dia de aula. Apesar da pouca idade, articulava as palavras com bastante desenvoltura, tal como uma adulta.

Houve, no entanto, alguns momentos de silêncio que passaram despercebidos pelos seus ouvintes, nos quais lágrimas quase transbordaram dos olhinhos claros da pequena. Todavia, ela não chegou a chorar, afinal, não desejava assemelhar-se a uma criança, apesar de ser uma de fato.

Lúcia lançou um olhar na direção do rapaz desengonçado que caminhava do outro lado da rua. Pelo seu tamanho, calculou ter ele uns quinze anos aproximadamente, assim como o seu irmão. Admirou-se da coragem que o estudante mais velho desfrutava. Ela, por sua vez, sentia uma coroa de espinhos cingindo seu coração ao pensar que permaneceria um longo tempo distante de sua casa. Não podia conceber uma existência paralela que não fosse o acolhedor âmbito familiar - o seu paraíso reconfortante-, qualquer vivência fora dele era algo perigoso e soturno. Os seus próprios pais muitas vezes a ensinaram desconfiar de pessoas estranhas, contudo, agora, teimavam em jogá-la nesse abismo terrível!


***

Transpassaram juntos pelo grande portão de entrada. Ele já havia alcançado a escadaria que conduz ao corredor do ensino médio, quando voltou a cabeça e viu a garotinha de momentos atrás ora olhando melancolicamente sua mãe diluir-se por entre as estreitas ruelas alagadas, ora observando com ar assustadiço as pessoas que a circundavam.

Dorian sentiu-se momentaneamente superior a tais sentimentalismos pueris. Não obstante, sua mente logo fez as costumeiras associações do que estava acontecendo a uma lembrança de sua infância: Era um dia igualmente cinzento, na porta da escola grudara acirradamente no pescoço do pai enquanto sua mãe lhe puxava com força, de modo que um de seus sapatos acabou voando para a rua. Riu-se por uns instantes, porém, logo afastou aquela cena tão remota e pronunciou para si mesmo uma de suas frases: Passado é algo morto, só existe metafisicamente, não vale a pena perder tempo com ele...

Interrompendo o fluxo de seus pensamentos, o segundo sinal tocou - estava na hora de se dirigir para as classes. Ambos respiraram profundamente e caminhou cada um para seu destino, afinal, era impossível lutar contra as areias do tempo.

 
     
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Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial - Dezembro de 2008/Janeiro de 2009