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Marco
Antonio Hruschka Teles
Maringá
/ PR
Aquário
de delícias
Como
me agrada o movimento vertical da chuva. Por vezes, não tão
nesse sentido, mas diagonal, levada pelo vento. À janela, posso
sentir tocar-me a face quando oblíqua. A água... milagre
divino, pureza magistral, como é bom tê-la em abundância!
O pluvial me presenteia a alma com leveza. Sinto-me, como um vivente
de outra encarnação, um ser aquático, usufruindo
deleitosamente da vastidão silenciosa do oceano. Agridoce ilusão.
Há o mel do sonho e o amargo da realidade. Crio existências
dentro de meu coração as quais fantasio vivê-las.
Nelas, não haveria paradoxos sentimentais, oscilações
psicológicas, apenas o neutro, um neutro levemente prazeroso
e eterno.
Um novo quadro se descortina, a brisa mansa toma conta da atmosfera,
o céu no azul tipicamente dominical, a paisagem repleta de
lagos com água cristalina onde os pássaros se harmonizam
com os peixes e com os homens. Há um alimento perfeito, completo
e eterno em comum às espécies: a ambrosia celeste. Voltamos
à idade de Ouro. Tudo é preservado e repartido igualitariamente.
A Água predomina como rainha soberana.
Banhamo-nos nas cachoeiras em meio à relva oculta. Relacionamo-nos
com tudo e com todos, sem egoísmos, sem ciúmes, sem
invejas, sem preconceitos. Caminhamos pelos vales, observamos os ribeirões
repletos de preciosidades, escutamos o silêncio natural das
coisas. O lema de minha tribo: "Sorria com a alma e a natureza
o recompensará". Não há sequer a hierarquia
Olímpica de outrora. As noites, convidativas. Celebramos a
vida, a saúde, a união das raças de todas as
sortes. A Natureza evolui junto ao novo Homem. A Vida tem a transparência
e a sobriedade de um aquário. Regozijo...
A chuva cessou. Assustei-me com uma porta que bateu com o vento e,
de sobre-salto, afastei-me da janela, ensopado da cintura para cima.
A água caída do céu expurgara-me os pensamentos
e o orbe sonhado. Senti profundamente estar ali, naquilo que existe
de verdade. O suco de Deus, ao mesmo tempo em que trouxe, levou consigo
todas as minhas esperanças de continuar em mim mesmo. Definho
ao pensar que não poderei usufruir, nos cinco sentidos, de
toda a amplidão da natureza virgem, noiva casta e cândida
que me seduz com rios de mel e montanhas de dádivas. Não
há solução. A fuga no sonho é irrealizável,
acaba-se ao abrir dos olhos. Despeço-me, subterfugir-me-ei
àquela cujo abraço é mortal, cuja casa é
fria e eternal, cujo cântico troante soa-me madrigal, que o
caminho seja o Nilo ou o Senegal.
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