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Luís
Cláudio Ferreira Silva
Maringá
/ PR
Delírios
e chaminés
Ela
sorveu as últimas gotas da taça de vinho. Tentou contar
quantas garrafas já tinha bebido, lhe pareceu três ou
quatro. Procurou em vão por sobre a mesa seu maço de
cigarros. Deu uma olhada rápida nos quatro cantos da sala e
não o encontrou, as pernas já não lhe obedeciam
e decidiu não procurar mais. Olhou para a janela, sua opinião
sobre a vista do décimo andar continuava a mesma de quando
entrara no apartamento pela primeira vez: horrenda, um mundaréu
de chaminés soltando suas fumaças, carros com as suas
fumaças igualmente gris, e o mundo correndo a procura de algo
que ninguém sabe o quê. Nunca quis viver sua vida ali,
mas a proximidade da faculdade a obrigara a aceitar as cuspidas industriais
todos os dias, contudo ela nunca se acostumara.
Decidiu sentar-se. Jogou-se no sofá com o braço esquerdo
reto, enquanto que a mão direita estava dividida entre acariciar-lhe
os cabelos e tirar pingos de suor da testa. O sangue saltitava em
seu corpo, e o efeito das drogas acalmou-lhe as frustrações.
Só então notou que o aparelho de som ainda estava ligado
e uma cantora que ela não sabia quem era cantava qualquer coisa
incompreensível. Pegando caminho naquela melodia, tentou embalar
outra, criando palavras conforme sua mente permitia.
Quando cansou de cantar seu braço começou a formigar,
e ela olhou para o teto fixando-se no ventilador, que girava sempre
e sempre, sem parar. É como as pessoas, pensou, por mais que
se faça, o mundo se torna mais ou menos um círculo para
todos.
O telefone começou a tocar, mas ela não sentiu vontade
de atender. Porém a curiosidade lhe bateu. Quem seria? Paulo?
Não, há essa hora Paulo não ligaria. Mamãe
então? Também não, não se esqueça
que ela acabou de viajar, pensou. Ah! Pode ser a Claudinha. Ah que
droga, não quero falar com a Claudinha. Não quero atender
ninguém, nem se for o Lúcio. Isso mesmo, nem o Paulo
nem o Lúcio. E logo o misterioso insistente desistiu.
Sua cabeça começou a girar. Deve ser o vinho, pensou.
Não há problema, agora em voz alta, prometo a mim mesma
que este será meu último porre. E gargalhou bem alto,
sem se importar com quem pudesse ouvir. E perdeu o controle, riu muito,
como se estivesse no circo; então viu palhaços a sua
volta, rindo todos juntos, enquanto um deles se aproximava dela para
colocar-lhe um nariz vermelho. Logo depois sumiram.
Olhou para fora, o sol já estava se pondo, e os músculos
de seu rosto enrijeceram. Agora os dois braços formigavam e
já não sentia as pernas. Em um estalar de dedos veio
a sua mente seu álbum de fotos, organizado cronologicamente.
Sentiu saudade de vê-lo, mas não era necessário
buscá-lo, pois a ordem das fotografias estava registrada em
sua mente. Lembrou-se da primeira foto, a que seu pai tirara quando
ela ainda estava no colo de sua mãe, envolta em sangue e com
o cordão umbilical. A segunda foto era de quando ela já
tinha cinco anos e foi tirada enquanto ela corria pela grama a balançar
seus cachinhos, correndo do pai que estava com a mangueira na mão
querendo dar-lhe um banho.
Sentiu-se um pouco sufocada, o ar era lhe insuficiente, mesmo com
a janela escancarada e o ventilador ligado. Com o início da
noite a penumbra confundiu sua mente e ela já não se
lembrava mais da ordem das fotos. Várias, sem seqüência
lógica ou temporal vinham à tona na sua mente. Foto
do seu primeiro dia no primeiro emprego, foto da praia, das amigas,
das tias, do namorado, dos coquetéis de bebidas, da festa de
aniversário.
Então ela já não sabia se se lembrava de fotos
ou de acontecimentos. Seu chefe gritando com ela, a prova mal sucedida,
o namorado beijando a amiga, o bandido segurando sua boca no beco
escuro enquanto levantava sua saia, o beijo proibido no professor
de matemática, o tapa de seu pai, o êxtase das bebidas,
o aniversário caliente, as aulas de alemão, passeios
de bicicleta, seu joelho doendo quando jogava vôlei, o semáforo
vermelho, os livros que nunca lera, as chaminés se esvaindo
em dores.
O telefone tocava novamente e ela já nem o ouvia. Sua mente
corria quilômetros trazendo à tona coisas indefiníveis
e ela já não sabia se eram acontecimentos ou vontades
não realizadas: cuspia em seu chefe, tomava banho nua na chuva,
rasgava a prova da faculdade, corria a noite no cemitério,
fazia sexo com a amiga.
Na confusão de cenas inexplicáveis e indecifráveis
sentiu o peito apertar e como em um passe de magia sua mente parou.
Sentiu o corpo todo formigando, uma falta de ar ainda mais sufocante
e um forte sono tomou conta de seus olhos. Antes de fechá-los,
ainda olhou pela janela e viu a noite já adulta com uma chuva
fria a tocar-lhe. Ainda teve tempo de ouvir o telefone tocar pela
última vez e ver a seringa em cima da mesa ao lado das garrafas
de vinho. Virou-se e encostou a cabeça no braço do sofá.
Deu um ultimo suspiro e fechou os olhos. Dali não se levantou
mais, adormeceu pouco tempo depois de ter tomado a última garrafa
de vinho e de ter injetado veneno em suas veias.
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